Reportagem

A$AP, queremos mais ovnis no Nos Primavera Sound

A$AP Rocky reuniu consensos, mas o sol e o rock ganharam ao hip-hop que encabeçou o cartaz neste segundo dia do festival, que terá tido uma das maiores afluências de público de sempre.

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Paulo Pimenta
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The Breeders Paulo Pimenta
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Solar Corona Paulo Pimenta
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Idles Paulo Pimenta
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Ibeyi Paulo Pimenta
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A$AP Rocky Paulo Pimenta
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A$AP Rocky Paulo Pimenta
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A$AP Rocky Paulo Pimenta

Cinco minutos passados desde que a música de A$AP Rocky começou a tocar e o rapper ainda não apareceu em palco. Lá em cima, no centro, está a cabeça de um crash test dummy que ocupa grande parte do cenário. É para lá que a plateia olha em suspenso. Entra, não entra, será assim até ao final? Não é por isso que o delírio deixa de se espalhar por toda a frente do Palco Nos, já a rebentar pelas costuras. Passam mais cinco minutos e finalmente entra. Por detrás das chamas do espectáculo de fogo montado em palco, surge o norte-americano pronto para assinar aquele que foi o concerto grande da segunda ronda do Primavera, marcado por uma noite de hip-hop com concorrência desnivelada e uma tarde de surpresas na ala mais dura do rock.       

Uma tarde que começa com o sol a destapar-se das nuvens para espreitar e ouvir o psicadelismo dos portugueses Solar Corona e Black Bombaim que evocaram o astro-rei, que apareceu encantado pelo fuzz e pela distorção. Dizia a meteorologia que ia chover. Não podia estar mais errada. Corroborando a célebre ideia de que “prognósticos só no final do jogo”, o céu quase limpo veio substituir a chuva anunciada que nem por momentos decidiu aparecer.

Quem apareceu foi o público e em número elevado. Diz-nos a organização que a contabilidade só será feita no final dos três dias, mas é seguro que terá sido um dos dias mais concorridos de sempre. Neste sábado, com lotação esgotada para receber Nick Cave & the Bad Seeds, o cenário não será muito diferente.

Se na quinta-feira as estrelas foram Lorde, Father John Misty e Tyler, The Creator, na segunda ronda as escolhas não são tão óbvias, à excepção de Rocky, que não deixou margem para incertezas.

Esperava-se que durante a tarde as veteranas The Breeders arrastassem para a frente do palco Nos uma fatia grande da audiência. Confirmada essa expectativa, faltou o resto. As irmãs Kim e Kelly Deal esbanjam simpatia, mas não chega. Pausas constantes e quebras para ajustarem falhas técnicas que teimavam em se suceder umas atrás das outras tornaram-se pedras na engrenagem ferrugenta de uma máquina com anos suficientes para estar oleada. Recordou-se o lado mais ingénuo do rock alternativo dos 1990, mas não mais do que isso. A banda da baixista de Pixies tem e terá o seu nome gravado no panorama musical dessa década de onde nunca chegou a sair. Isto é o que revela o pouco entusiasmo do público, que só reagiu mais efusivamente na altura em que o single Cannonball, do álbum de 1993 Last Splash, foi tocado e quando fizeram uma versão contrafeita de Gigantic, da banda original de Kim. 

Um ovni aterrou no Parque da Cidade

Não as terá ajudado terem tocado após Zeal & Ardor, um ovni suíço-americano que uma hora antes aterrara no palco do lado para 50 minutos depois voltar a levantar voo, deixando saudades. Quem disse que nada mais há para fazer num estilo mais do que saturado como o black metal? Não será fácil, é um facto. Só se alguém se lembrar de o mesclar com blues ou spiritual. Qual mistura improvável de dois mundos que jamais se tocariam, a banda liderada por Manuel Gagneux derruba qualquer preconceito e alinha nesse desafio.

Dirão os puristas do som das trevas cuja segunda vaga tem casa na Escandinávia que é uma heresia. Os tradicionalistas do blues e do spiritual dirão que é barulho a mais. No meio estará quem ache que estes dois mundos opostos casam na perfeição. Vozes quentes e acordes "abluesados" entrelaçam-se com riffs gélidos e com os gritados vociferados pelo vocalista/guitarrista, ajudado por um coro de duas vozes, sem que pareça forçado. É inusitado e arriscado, mas essa audácia compensa e vale pela lufada de ar fresco que traz a um género – black metal –, que para um determinado sector de fãs, para funcionar, tem de se manter cristalizado no tempo e preso ao molde talhado na Noruega, nos finais da década de 1980.

Na linha das surpresas, mas não tanto pela originalidade, estiveram os britânicos IDLES. Surpreenderam pela atitude e por, apenas com dois álbuns lançados nos últimos dois anos, conseguirem agarrar a oportunidade de tocar no Palco Nos como se fossem fechar aquele dia. Chamam-lhe pós-punk, mas nós achamos que o prefixo não está lá a fazer nada. Há outras sonoridades onde vão beber, mas punk é atitude. Riffs de guitarra frenéticos e uma bateria com tarola nervosa servem de rede para um vocalista que se atira ao público como se o ano de 1977 nunca tivesse existido. Mais tarde, aquele palco fecharia com o hip-hop de Vince Staples e A$AP Rocky, em dia também marcado pelas actuações, noutros pontos do recinto, de Fever Ray, Amen Dunes, Unknown Mortal Orchestra, Superorganism ou Ibeyi.

Antes disso acontecer, os Grizzly Bear tinham já assegurado que o indie rock imersivo a resvalar para o psicadélico e experimental que praticam não sairia manchado. Há delay, distorção e algum noise à mistura atirado do palco Seat para uma plateia que enchia aquela área do recinto e as bancadas montadas nas laterais.  

Vince Staples arranca gelo

Da comitiva hip-hop agendada para a segunda noite, Vince Staples tinha a tarefa árdua de superar a actuação de Tyler, The Creator, na noite anterior, e de tocar antes de A$AP Rocky. Só ele e o palco, muitas das vezes parecia também sozinho frente a uma multidão que em certos momentos não lhe dava mais do que gelo. Em palco falta-lhe maturidade, segurança e atitude. O flow do rapper é banal e quase infantil. Este segundo aspecto poderia conferir-lhe algum carisma se soubesse transformá-lo numa vantagem. Em Março, após críticas de vários fãs (ou não) que apontam para a falta de capacidade do rapper para enfrentar um palco, lançou uma campanha de crowdfunding para angariar dois milhões de dólares para desaparecer de vez do cenário musical. Ficamos divididos entre qual das duas hipóteses representa maior desperdício de fundos: pagar um bilhete ou antecipar-lhe a reforma?  

Já a Rocky, da casa A$AP, abrigo de outros rappers, não falta confiança. Balanço, batidas graves, ora macabras e agressivas, ora mais ambientais e contemplativas, arrancou a actuação mais segura e consistente daquele palco. Com o público na mão do início ao fim debitou, rimas num flow e num tom com selo próprios, provando nalguns temas que também sabe cantar. Vestia uma t-shirt dos Def Leppard, longe da sonoridade que faz, mas rock o suficiente como a sua postura. Da mesma equipa, A$AP Ferg apareceu num dos temas para o ajudar, pouco antes de terminar.

Um dos dois últimos foi Fucking problems, que versa sobre a sua predisposição para relacionamentos com mulheres problemáticas e da necessidade que tem de manter com elas um contacto próximo: “I love bad bitches that's my fuckin' problem. And yeah I like to fuck I got a fuckin' problem. If findin' somebody real is your fuckin' problem. Bring ya girls to the crib maybe we can solve it”. Salta-se e canta-se o refrão com entusiasmo, homens e mulheres, aparentemente, sem qualquer problema.