João Vaz estreia coral para Bach na Abadia de Westminster

O organista é o único participante português num projecto internacional destinado a completar uma obra inacabada do compositor.

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João Vaz DR

Um organista português vai tocar este domingo na Abadia de Westminster, em Londres, a histórica igreja que ainda recentemente foi palco do casamento real de William e Kate. João Vaz, que tem tido intensa actividade internacional como concertista e professor, e que vem dedicando especial atenção à música sacra portuguesa (fundou o grupo Capella Patriarchal), apresentará em primeira audição absoluta uma das versões que escreveu para o coral Herr Jesu Christ, wahr Mensch und Gott, integrado num ambicioso projecto: completar, com a colaboração de músicos de vários países, a obra Orgelbüchlein, que Johann Sebastian Bach (1686-1750) iniciou em 1708, vindo apenas a concluir 45 das projectadas 164 peças de coral para órgão, destinadas a cobrir todo o ano litúrgico luterano.

A missão do Orgelbüchlein Project está praticamente terminada. “O projecto”, explica ao PÚBLICO João Vaz, “desenvolveu-se em três frentes": "As páginas deixadas em branco tinham o nome do coral que o Bach lá queria pôr, portanto sabemos a intenção dele. Quando o projecto foi lançado, já havia corais que outras pessoas tinham escrito e que se encaixavam ali, e estes foram aproveitados imediatamente. Depois, ao longo destes anos, foram convidadas várias pessoas (de um modo geral organistas, mais do que compositores) para escreverem as páginas que faltavam. Mas há outra vertente: a das peças que pessoas submetem à apreciação da comissão do projecto, em quantidade maior. Destas, algumas seriam eventualmente utilizadas para incluir na composição final, quase terminada.”

Lugar mítico, órgão especial

João Vaz foi o único organista português convidado a integrar o projecto. “Sugeriram-me esse [coral]. E comecei logo a trabalhar em três versões diferentes. Até agora já fiz dois corais, e um deles já foi até estreado pelo [organista inglês] William Whitehead, que é o curador do projecto. A segunda versão, já aperfeiçoada, vai ser estreada agora por mim em Londres. E talvez ainda venha a acabar a terceira.”

Em Londres, João Vaz dará dois concertos. O primeiro será já este domingo, na Abadia de Westminster, e o segundo terá lugar no dia 12, na igreja barroca de St. Lawrence Jewry. “No domingo, como coincide com o Dia de Portugal e há o envolvimento da embaixada de Portugal e do Instituto Camões, resolvi, além dessa estreia, pôr só compositores portugueses (a maior parte da obra de órgão portuguesa vai só até ao fim do século XVIII). E incluo o Choral do Luís de Freitas Branco, que é talvez a única obra de órgão de uma certa dimensão escrita no princípio do século XX em Portugal.” Além desta peça, e da segunda versão do coral para o Orgelbüchlein Project, João Vaz tocará obras de António Carreira (1540-1597), Diogo da Conceição (séc. XVII) ou Carlos Seixas (1704-1742). “No outro concerto, faço mais ou menos a mesma coisa, mas como dura mais tempo toco ainda alguns corais de Bach e corais do Orgelbüchlein Project, não só o meu [tocará aqui a primeira versão, já estreada] como o de Jon Lauvik, um outro compositor que foi durante muito tempo professor de música na escola superior de música de Estugarda.”

Tocar na Abadia de Westminster, feito raro para um português, tem para João Vaz um atractivo adicional. “O local tem um peso quase mítico. Mas o órgão também tem um interesse especial. É um instrumento inglês de grande qualidade, construído para a coroação de Jorge VI. Já teve algumas transformações, mas ainda encarna muito o som de um grande órgão inglês da época vitoriana, apesar de ter sido feito mais tarde.” Já o órgão da igreja de St. Lawrence Jewry, onde tocará também pela primeira vez, é bem diferente. “É um instrumento alemão, também de grandes dimensões mas comprado mais recentemente, há cerca de dez anos, e instalado nessa igreja. É mais internacional.”

Regresso à composição

O Orgelbüchlein Project tem ainda, para João Vaz, dois motivos adicionais de interesse. “Isto vai ter uma versão impressa, e já saiu um dos volumes, que mistura corais do Bach com os novos. O que é interessante, para mim, é ser um projecto plural e internacional, porque há gente de vários países a escrever, com linguagens diferentes. Porque há ali corais de estilo neoclássico e outros de estilos completamente antagónicos. Mas como há regras para as composições (têm de ser todas muito curtas e de integrar a melodia original do coral), isso cria uma certa unidade no projecto, apesar das grandes diferenças de linguagem que há entre os diversos compositores.”

Outro aspecto é o regresso dos organistas à composição, prática caída em desuso com o andar dos tempos. “Normalmente, não me veria como compositor. E essa é outra das curiosidades deste projecto. Ao longo da história, os organistas costumavam ser também compositores, pela necessidade que tinham de criar música que se encaixasse em determinados momentos da liturgia, no espaço católico ou protestante. E isso foi-se perdendo, porque há menos solicitações. E foi engraçado este projecto, porque muitos organistas, alguns dos quais nunca tinham escrito música desta maneira, foram lançados a explorar linguagens diferentes e a deixar ficar uma peça escrita. Peças que, por um lado, têm o interesse de completar esta colecção de Bach, mas por outro, sobretudo no caso das igrejas luteranas, podem ser usadas na função litúrgica.”