A revelação Superorganism na noite da arte total de Fever Ray

Ao segundo dia do Nos Primavera Sound, quem optou por circular por outros palcos que não o principal não se arrependeu: os Superorganism foram revelação, Fever Ray a confirmação, e Amen Dunes, Ibeyi ou Unknown Mortal Orchestra deram também bons concertos.

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Fever Ray Paulo Pimenta

Ao segundo dia, a surpresa. Em todas as edições existem alguns concertos que ficam na memória por pertencerem a grupos emergentes que pouca gente conhece, mas que pela empatia gerada se percebe de imediato que está preparado para outros voos. Na noite de sexta-feira foi isso que se sentiu ao ver os multinacionais Superorganism, colectivo nascido numa comuna artística em Londres, com japoneses, neozelandeses, australianos ou ingleses.

No Porto estiveram sete, com a pequena japonesa Orono Noguchi a distinguir-se na liderança vocal e na comunicação com o público, ladeada por três músicos e três cantores-performers que proporcionaram o momento mais lúdico, contagiante e arrebatador da noite. A sua música é criativa, desengonçada e excêntrica, uma pop electrónica povoada pelo imaginário dos videojogos ou de uma natureza hiper-realista, como se a música e as imagens que a povoam apenas pudessem ter nascido na era da comunicação fragmentada da internet.   

Dito assim poderá soar parecido a tantas outras coisas. Mas não. Os Superoganism são mesmo especiais e isso sente-se ainda mais ao vivo, onde por vezes parecem fazer eco de bandas de outras eras (dos Talking Heads aos B-52’s) ou do presente (The Avalanches), mas o todo resulta singular, numa sonoridade multicolorida que foi capaz de colocar toda a gente que se amontoava no palco Pitchfork de sorriso rasgado no rosto, deixando-se abandonar ao som irresistível de Everybody wants to be famous ou Something for your mind, num espectáculo que consegue exalar uma espontaneidade muito raras no mundo da pop de hoje.  

Se os Superorganism foram a surpresa, Fever Ray foi a confirmação. Com a dupla The Knife, ou como Fever Ray, através de dois álbuns, a sueca Karin Dreijer tem-se afirmado como uma das vozes mais estimulantes da música das últimas décadas e é isso que veio mostrar. O universo não surpreendeu, com personagens bizarras em palco e alusões políticas, socioculturais ou de sexo e género nos jogos encenados entre as três cantoras-performers, num espectáculo criativo cenicamente. O mais surpreendente acabou por ser a música, com uma vitaminação rítmica, e uma base ritualista proporcionada por três instrumentistas, em teclados, bateria e percussões, que acabam por diluir os ambientes mais tortuosos dos discos.

E a verdade é que a opção se revela acertada, com as seis mulheres em palco a proporcionarem um espectáculo dinâmico, profusão de som, ritmo, luz e dança em temas de extroversão como To the moon and back ou IDK about you (com uma base inspirada no kuduro, ou não tivesse sido a portuguesa Nídia a arquitectar a canção), ou mais introspectivos e cortantes como When I grow up ou em If I had a heart, com as três agitadoras de palco a empunharam guitarras, mas sempre pontuados pelas dinâmicas percussivas. Foi um magnífico espectáculo de arte total aquele que nos foi dado a experienciar, transitando da alegria esfusiante para a tensão, focando relações emocionais, desejo e sexo, num tipo de posicionamento que não espanta para quem tenha acompanhado os The Knife e, agora, Fever Ray, que pela reacção entusiasta que suscitou está a pedir concerto solitário em Portugal.

Foi aliás uma grande noite de concertos para quem tenha optado por circuitos alternativos ao palco principal, por exemplo, para ver as manas Ibeyi, que se empregaram a fundo para conquistar e alcançaram-no, simbiose entre harmonias vocais, texturas sintéticas e motivos percussivos. Por vezes, em disco, a sua música parece demasiado circular, mas em palco superam quaisquer resistências, com uma atitude vigorosa e alegre que acaba por criar fortes laços com a assistência. Logo ao terceiro tema puseram o público do seu lado, quando disseram que Michelle Obama havia colaborado com elas na canção No man is big enough for my arms, e a partir daí foi sempre em crescendo, acabando as duas franco-cubanas em alta.

Outro belo concerto foi o do nova-iorquino Damon McMahon, outra forma de dizer Amen Dunes que, ao final da tarde, na companhia da sua banda, desfiaram as canções folk-rock límpidas, sensuais e confessionais do último álbum, Freedom (2018), que como não se cansou de dizer foram parcialmente compostas e inspiradas por uma residência artística em Lisboa, havendo mesmo uma delas, o tema-título, que tem a cidade como protagonista directa.

Se em Amen Dunes é a subtileza escorreita das suas canções que encanta, no caso dos Unknown Mortal Orchestra do neozelandês Ruban Nielson, uma das formações mais esperadas da segunda noite do festival, é a forma enérgica como tentam impor uma linguagem híbrida com tanto de rock, como de soul ou psicadelismo. Tinham um mar de gente a vê-los, à mesma hora que A$ap Rocky evoluía no palco principal, e quem o fez não se deve ter arrependido por um segundo, num concerto onde tanto vão do desvario rock completo, com ocasionais incursões do cantor e guitarrista por entre a assistência, como se abandonam a uma linguagem de maior balanço rítmico que consegue fazer abanar muitos corpos.

A propensão rítmica esteve aliás em evidência, como se esperava, também no concerto soul-jazz-funk do americano Thundercat, ou nas electrónicas de dança de Four Tet. Mas para quem quer dançar mesmo a sério o destino possível é a palco Primavera Bits, transformado numa autêntica discoteca. Foi aí que vimos o português DJ Lycox a conquistar uma plateia maioritariamente composta por estrangeiros. Este sábado todos os caminhos vão dar a Nick Cave, mas é preciso não esquecer War On Drugs, Kelela, Nils Frahm, Kelsey Lu ou Arca.