A angústia punk-jazz-candomblé dos Metá Metá vai estar entre nós

Unidos na transgressão do samba e da afro-religião do candomblé, os Metá Metá tocam hoje uma música que responde ao clima social e político do Brasil. Esta sexta-feira estão na abertura do Lisboa Mistura, seguem depois para o Nos Primavera Sound, no Porto, e para o Festival Med, em Loulé.

Karol Conka, Mano Brown, Metá Metá
Foto
FERNANDO EDUARDO

Em Julho de 2015, a digressão europeia dos brasileiros Metá Metá havia de sofrer um pequeno desvio. Descendo pelo mapa continental, o trio formado por Juçara Marçal (voz), Thiago França (saxofone) e Kiko Dinucci (guitarra) acabou por resvalar até Rabat para tocar no Festival Mawazine. Ao pisarem pela primeira vez solo africano, os três músicos de São Paulo emocionaram-se com essa epifania colectiva e deixaram-se contagiar pela arquitectura e pela música, pelos lugares e pelas sonoridades com que se cruzaram na capital marroquina.

Tal experiência deixou um rasto claro na composição do terceiro álbum do grupo, MM3 (2016). Basta ouvir os primeiros segundos de Três amigos, hipnótico e modorrento tema de abertura, para intuir no diálogo de França e Dinucci o calor denso da região magrebina. Composto maioritariamente na estrada, MM3 sugaria elementos de várias das paragens por onde os Metá Metá então actuaram, “mas nada muito determinado”, diz a vocalista Juçara Marçal numa chamada com o PÚBLICO dias antes de a banda cumprir uma ronda por festivais portugueses – até ao final do mês, estarão no Lisboa Mistura (esta sexta-feira, dia 8), subirão logo de seguida ao Porto para actuar no Nos Primavera Sound (sábado, dia 9), terminando o périplo em Loulé, no Festival Med (dia 28). “Ao fazer o disco, a gente ouvia e percebia que o que tínhamos vivenciado estava a tornar-se presente na sonoridade do MM3.”

Mais do que o resultado de uma qualquer investigação local levada a cabo em torno da música marroquina, MM3 é sobretudo o resultado da permeabilidade dos Metá Metá aos sons africanos que dizem continuar a conhecer sobretudo através do YouTube, vindos de países como o Mali ou o Níger. “Mas, de uma maneira geral”, declara Kiko Dinucci, “este disco é mais brasileiro e mais paulistano do que propriamente vindo da África do Norte”. E essa matriz, embora presente sem surpresa num grupo que se juntou a partir do encontro acidental em formações ligadas ao samba, tornar-se-ia mais proeminente dada a coincidência temporal da sua gestação. “Quando a gente saiu do Brasil para a tournée europeia, deram o golpe de Estado na Presidente [a destituição de Dilma Rousseff]. O disco reflecte muito isso – o nosso tempo, o Brasil, São Paulo, o momento político. Nada é explícito nas letras, mas acho que o disco tem uma angústia que reflecte um pouco esse colapso social e político que estamos vivendo no país”, afirma o guitarrista.

“É muito difícil no meio de um contexto destes a gente parar e conseguir falar sobre as árvores, o canto dos passarinhos, a lua, o pôr-do-sol”, acrescenta Thiago França. Daí que MM3 seja um íman para esses sentimentos de angústia, descontentamento, reacção contra a opressão política, resultando numa sonoridade mais agressiva do que aquela que conhecíamos aos Metá Metá. Sem se permitir “perder a esperança ou entrar num estado catatónico”, a banda canalizou para os oito temas toda a revolta e toda a insatisfação de um país que, acreditam, “está em transe” e a ser "levado para algo que não se sabe o que é, mas se encontra a caminho de ter resultados horrorosos de aumento de criminalidade e de miséria, que já estão crescendo muito”. No pior dos cenários, os três antecipam mesmo uma guerra civil ou uma guerra de classes declarada. E a música, a cada momento, terá de responder a isso.

Transgredir o samba

Kiko Dinucci aproximou-se do movimento do samba paulista depois de “enjoar do rock”, quando na ressaca dos anos 90 começou a achá-lo demasiado inofensivo e excessivamente propenso a uma sonoridade comercial. De repente, Kiko – tal como Thiago e Juçara – encontrou no samba uma música que lhe oferecia o que nenhum outro género garantia. “Mas depois começámos a transgredir o samba à nossa maneira”, confessa o guitarrista.

No caso dos Metá Metá, essa transgressão toma a forma de um samba transfigurado pelo rock, pelo punk e pelo jazz, e casou-se com um interesse comum – descoberto através de conversas hidratadas a cerveja – pelas raízes africanas do candomblé. Foi essa experiência afro-religiosa partilhada pelos três a dar o impulso crucial para o estabelecimento de uma linguagem de invenção da música brasileira. E o encaixe entre o trio foi tão perfeito que Kiko o descreve como “um caso de amor”. “Quando se acha o parceiro ou a parceira ideal e as coisas se encaixam – foi assim o nosso encontro, como Dona Flor e seus Dois Maridos [título de romance de Jorge Amado]”, resume entre risos.

Resgatada a matriz afro-religiosa presente no próprio samba, o candomblé e o jazz uniram-se para dar forma a uma linguagem tão particular que, logo ao primeiro álbum, homónimo, os Metá Metá se estabeleceram como uma das propostas mais entusiasmantes e originais da música brasileira actual. Depois de Metá Metá, vieram MetaL MetaL e MM3, reafirmando essa condição única de uma banda que diz reagir ao que há de “mais pulsante e vigoroso” na música. E se isso é evidente em disco, é ainda mais indisfarçável em palco, como por estes dias se poderá confirmar.