Teatro
Gabriel Orlando

Cláudia Dias nas trincheiras

Quarta-feira: O tempo das cerejas é uma operação de “desconstrução civil”: debaixo do palco, uma bailarina e um marionetista trabalham para o fim do capitalismo. Que não tem de ser o fim do mundo, antes pelo contrário.

Quarta-feira: O tempo das cerejas, terceiro capítulo da semana de sete dias com que a coreógrafa e bailarina Cláudia Dias decidiu dizer tudo o que tinha a dizer no palco para depois poder descansar da dança e continuar a luta por outros meios (é mesmo irreversível: mais três peças e, chegada a domingo, ou seja a 2022, porá um ponto final na sua carreira), começa em 1971. É o ano em que o dólar americano deixa de ser indexado ao ouro e a política monetária internacional entra num novo paradigma — numa nova “twilight zone”, dá vontade de corrigir, já que o que se segue é a dura realidade geopolítica das últimas décadas, tal como Cláudia Dias a inventaria muito literalmente, mas indexada à liberdade poética da ficção científica, fetiche declarado do seu convidado neste capítulo do ciclo Sete Anos, Sete Peças, o marionetista Igor Gandra.

De 1971, o ano do dólar, avançamos para 1972, o ano de Nixon, e daí para 1973, o ano do golpe militar no Chile. A Indonésia invade Timor-Leste, Kissinger apoia a ditadura militar argentina, Thatcher chega ao poder no Reino Unido, Reagan chega ao poder nos Estados Unidos, a CIA financia os Contras da Nicarágua com a venda de armas ao Irão, e, enquanto o mundo se afunda na espiral da pax americana (risos) e do neoliberalismo facção Chicago Boys, duas “cabeças não reformistas” trabalham underground, como a resistência, para que o fim do capitalismo não tenha de ser o fim do mundo, antes pelo contrário. 

É uma operação de “desconstrução civil”, a luta que essas duas cabeças armadas de máscaras e lanternas, mas sobretudo os dois corpos a que estão agarradas, prosseguem debaixo do palco na peça que esta quinta-feira se estreia no Teatro Maria Matos, em Lisboa (ali fica até sábado, encerrando o Alkantara Festival, um dos co-produtores deste tour-de-force de Cláudia Dias), e que na rentrée veremos no Festival Internacional de Marionetas do Porto, de que Igor Gandra é director. Uma operação de desconstrução civil subterrânea, e portanto condenada a permanecer invisível, como invisíveis estão condenados a permanecer os dos de baixo (pelo menos para os de cima) a não ser quando fazem demasiado barulho.

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Quarta-feira: O tempo das cerejas, terceiro capítulo da semana de sete dias com que a coreógrafa e bailarina Cláudia Dias decidiu dizer tudo o que tinha a dizer no palco antes do ponto final na sua carreira Gabriel Orlando

Cláudia e Igor fazem demasiado barulho em Quarta-feira: O tempo das cerejas. O  barulho é tudo, aliás, durante a primeira metade do espectáculo. Debaixo das legendas, projectadas bem lá em cima, que são o céu (e o céu, aqui, é mesmo o limite) pronto a cair em cima do underground a que estão confinados, apenas o som, ao princípio quase indistinto, depois cada vez mais declarado, até se tornar ensurdecedor, das ferramentas (martelos, serras, tico-ticos…) com que dão início à aventura braçal de procurar uma saída para o fim da História que ano após ano, golpe após golpe, guerra após guerra, parece aproximar-se inexoravelmente. Na verdade — contam ao Ípsilon depois de um ensaio, cobertos de pó e de gesso —, apesar de toda a tralha histórica, política e ideológica que é o centro absoluto, assumido à cabeça, deste conjunto de sete statements, Quarta-feira: O tempo das cerejas descende de um acontecimento muito físico, muito gráfico, e também muito sonoro: “O gesto que fundou esta peça apareceu na primeira residência em que eu e o Igor nos juntámos. Até aí, ao telefone, não tínhamos combinado nada, para que o processo pudesse partir do zero, tanto quanto isso é possível. Foi então que, quando estava a partilhar com ele o meu método de trabalho, arranquei uma fita gaffer do linóleo e apareceu uma fissura.”

Um buraco não tem de ser negro

Meses depois, reencontramo-los debaixo do palco, enclausurados num espaço exíguo e escuro, insalubre, irrespirável. Lembramo-nos dos mineiros em greve nesses anos 80 em que a Inglaterra se tornou pós-industrial e pós-moderna, mas talvez estejamos a ser telecomandados: Thatcher é uma assombração recorrente nas legendas lá de cima, da Guerra das Malvinas ao seu primeiro date com Gorbatchov, outro gesto fundador (e ao mesmo tempo terminal).

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Braços, martelos, serras e tico-ticos trabalham cada vez mais depressa. O pó projecta-se em todas as direcções, placas inteiras de gesso saltam e fazem ricochete, o entulho acumula-se, o tecto por cima das duas toupeiras de serviço começa a inchar, a ceder, vai rebentar: a primeira fissura já os deixa respirar, mas o trabalho só irá acabar quando se abrir uma cratera (lá em cima, nas legendas, é 1988 e ouve-se na rádio The only way is up). Será o tipo de cratera que milhares de mísseis Tomahawk já abriram por esse mundo fora (Cláudia Dias tem esta obstinação de trabalhar com referentes concretos, foi estudar as medidas), a não ser que possamos olhar para o que nos habituámos a interpretar como o day after de um desastre e ver nele o Big Bang a partir do qual tudo é possível — incluindo o fim do capitalismo, que, como às tantas se sugere em Quarta-feira: O tempo das cerejas, citando Slavoj Zizek, não tem necessariamente de parecer um desfecho mais fantasioso do que o próprio fim do mundo.

Também tinha tudo para ser um acidente, a fissura que se abriu nesse primeiro encontro entre Cláudia e Igor (que é na verdade um encontro a três, porque há uma presença que vem acompanhando o ciclo Sete Anos, Sete Peças desde o início, Karas), até se tornar uma metáfora operativa. “Descobrimos o espectáculo a manusear o cenário. Foi literalmente a partir pedra que o construímos”, resume Karas. “Lembrámo-nos da fissura que a Doris Salcedo abriu no chão da Tate Modern e andámos à volta disso. Depois o Igor sugeriu que trabalhássemos com pladur. E a partir do momento em que tivemos o buraco fomos lá para dentro, embora não tivesse sido imediatamente óbvio que o buraco ainda não estaria aberto, que teríamos de ser nós a abri-lo… Foi um processo muito cenográfico”, continua Cláudia, para logo acrescentar que, ao contrário do que aconteceu nos primeiros dois capítulos do ciclo — Segunda-feira: Atenção à direita (2016), em que se juntou ao dramaturgo e encenador galego Pablo Fidalgo Lareo e acabou a fazer boxe, e Terça-feira: Tudo o que é sólido dissolve-se no ar (2017), onde desenhava no chão, com o clown e performer de rua italiano Luca Bellezze, a tragédia que começou com a criação de Israel em 1948 e acabou na crise dos refugiados dos nossos dias —, esta peça também nasceu muito das conversas que foram tendo. 

Quarta-feira: O tempo das cerejas é de facto o compromisso peculiar entre duas vias que podiam ser incompatíveis, concorda Igor, e portanto “uma peça extremada a esse nível”: “Decorre muito da reflexão e do debate sobre o estado do mundo, o que é evidente no texto, mas depois a prática é muito terra-a-terra, está completamente vinculada à relação muito sólida e muito concreta com aquele espaço e com aquele material.” É uma vinculação natural para ele, que vem das marionetas. Tal como é natural para ele, vindo das marionetas, a invisibilidade a que os dois se conformam, no anonimato das trincheiras (“Uma boa parte do espectáculo é aquilo que sem sermos vistos produzimos”); com Cláudia Dias, porém, até essa invisibilidade se tornou ideológica: “A peça começa nos anos 70, o que tem a ver connosco, e o texto também fala do possível desaparecimento do Igor e da Cláudia em 2055, mas a questão autobiográfica, que sempre foi muito importante no meu trabalho, aqui não é central. O drama agora está na relação entre o tempo da nossa vida e o tempo histórico: o capitalismo vai implodir, aquele buraco vai existir, só que nós já não o vamos ver. Felizmente, há um futuro depois de nós. As filhas do Igor, ou talvez os netos, estarão cá.” 

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Então, no tempo das cerejas, um buraco já não terá de ser negro, já não terá de ser o fim do mundo. “Às tantas”, explica Igor, recapitulando o processo, “imaginar o futuro passou a ser uma tarefa em si mesma”. É um futuro revolucionário, em que as transacções deixam de estar indexadas ao dólar, há vida fora da moeda única, Joe Sims chega à presidência dos Estados Unidos, o Tratado de Abolição das Armas Nucleares é finalmente ratificado, a banca é nacionalizada à escala mundial, e o facto de 42 indivíduos possuírem a mesma riqueza que 3,7 milhões de pessoas passa a constituir crime contra a humanidade. Nada disto acontecerá seguramente em 2019, admite Cláudia, mas talvez possa acontecer em 2055. Será da ficção científica (e daí os avatares que os substituem, no pós-apocalipse, materializando o mantra de Igor Gandra de que “quando o assunto é sério os bonecos vão à frente”…), mas ambos fantasiam com o momento histórico em que possam ler parangonas dessas nos jornais, em vez das que nos impõem Berlusconis e Netanyahus: “Sabemos que há ingenuidade nisto, mas é uma ingenuidade que nos interessa explorar.”

Buraco adentro, então, por muito que custe. E custou, diz Cláudia Dias: “Reconheço sempre, no meu trabalho, este gesto de tirar qualquer coisa de dentro e materializá-la no espaço; a partir desse momento, já não é sobre mim, já não se trata de lamber a ferida. Mas quando o que exteriorizas é um buraco, não é fácil. Demorei muito tempo a perceber que o buraco era uma saída. E depois vi que na peça anterior eu acaba a desaparecer no chão e que nesta venho do chão cá para cima.”