Angola dá sinais de que lusofonia não é prioridade

Nos últimos dias, Luanda fez saber que quer entrar na Organização Internacional da Francofonia e na Commonwealth. No périplo do novo Governo pela Europa, Portugal não foi incluído. O que significa esta mudança?

João Lourenço, Luanda, eleição legislativa angolana, 2017, Presidente de Angola
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João Lourenço, Presidente de Angola Reuters

A intenção foi divulgada esta quarta-feira pelo ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, mas não terá espantado a diplomacia portuguesa: Angola vai pedir adesão à Commonwealth, a comunidade de países de língua inglesa.

A notícia surge dias depois de, em Paris, o novo Presidente angolano, João Lourenço, eleito em Setembro, ter anunciado que Luanda também vai pedir adesão à Organização Internacional da Francofonia.

Diplomatas ouvidos pelo PÚBLICO notam o facto de João Lourenço não ter sequer incluído Portugal no seu primeiro périplo europeu e, uma vez no continente, ter feito uma aproximação explícita aos clubes anglófono e francófono, relegando a comunidade lusófona para terceiro lugar.

“Angola escolheu Paris e agora Bruxelas”, concorda o deputado social-democrata Paulo Neves, membro da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da República e que acompanha a política africana e a CPLP. “Se a lusofonia fosse a prioridade, a primeira visita teria sido a Portugal e à sede da CPLP”, disse ao PÚBLICO.

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Para além de serem dois clubes gigantes — 53 na Commonwealth e 57 na Organização Internacional da Francofonia —, Angola é vizinho de vários dos Estados-membros dos dois organismos. Mais do que isso, no entanto, este novo posicionamento é visto como uma forma de Luanda tentar afirmar-se como potência regional (África) e sub-regional (África Austral). Essa é uma velha ambição, que vários especialistas em política africana conhecem. Nos bastidores da diplomacia, há anos que Luanda se afirma por oposição à África do Sul, sublinhando três das suas forças: tem água e petróleo e não tem um problema racial por resolver.

“Sinto um misto de alegria e tristeza”, diz o deputado Paulo Neves. “Vejo que Angola tem finalmente uma política externa clara e ambiciosa, mas vejo também que a nova estratégia de afirmação regional não passa pela lusofonia. Isso deve obrigar-nos a pensar: porque é que a lusofonia não é suficientemente atraente, porque é que a lusofonia deixou de ser a prioridade angolana, como trazer Angola de volta? O problema não é Angola querer estar com os outros. Isso é natural. O problema é não ter começado pela lusofonia. Temos que perguntar: o que é que se passa com a CPLP?”

Nenhum dos embaixadores dos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) contactados pelo PÚBLICO quis comentar as intenções de Luanda, incluindo os governos angolano e português.

São Tomé e Príncipe e a Guiné-Bissau pertencem à Organização Internacional da Francofonia e Moçambique pertence à Commonwealth. A existência dessas novas alianças, em acumulação com o vínculo histórico à lusofonia, ajuda a reduzir o eventual efeito surpresa que a vontade de Luanda poderia ter. Ao mesmo tempo, na próxima XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP — que este ano é em Cabo Verde — espera-se a confirmação formal da entrada com o estatuto de observador associado da CPLP da França, Itália, Andorra, Luxemburgo, Argentina e Sérvia.

É cedo para antecipar os possíveis resultados desta expansão do multilateralismo ou os benefícios para as relações internacionais. Para dois dos diplomatas ouvidos, no entanto, a motivação angolana de se aproximar dos clubes da francofonia e da anglofonia junta à ambição imperial um outro factor: as emoções. “Chatear Portugal.”