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Fernando Teixeira estudou na Faculdade de Direito de Coimbra e é neste momento advogado estagiário

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Somos todos Mário Nogueira

Os professores são agora confrontados violentamente com a falta de reconhecimento por parte do Governo que, por motivos meramente orçamentais, coloca mais uma vez o dinheiro à frente da dignidade

O momento, a convicção e a forma constituem elementos que nos auxiliam a caracterizar as posições que aqui ou ali vão sendo tomadas. De entre muitas que têm vindo a ser tomadas por este executivo, apraz-me tecer uma ou outra consideração sobre a posição de força tomada pelo senhor ministro da Educação. Em primeiro lugar, o momento encontrado para disferir um duro golpe nas pretensões dos professores é péssimo e de mau gosto. Isto porque o ministério toma a atitude já muito noticiada de não contar qualquer ano dos nove em que as carreiras dos docentes estavam congeladas, num momento de forte diálogo com as estruturas sindicais de onde se esperava que saísse uma solução que não comprometesse uma década de trabalho.

Por outro lado, a forma intempestiva como o senhor ministro tomou a palavra para fazer valer a sua superior posição negocial é demonstrativa de que, quando as coisas começam a não soar muito bem aos nossos ouvidos, recorre-se facilmente à atitude mais fácil e mais simplista: não querem o que vos ofereço? Então daqui não levam nada.

Ora, destes elementos caracterizadores, o que mais explicita o significado deste murro na mesa é a convicção com que é dado. Tal anúncio foi feito com a convicção de quem não considera o trabalho de uma década como um contributo insubstituível para a educação no nosso país e para a prossecução de um Estado de direito democrático através de um dos seus mais importantes pilares: a educação.

Poderíamos fazer aqui um exercício sobre a importância deste sector para a vitalidade da democracia portuguesa, ou reflectir sobre o papel da educação no mundo de ontem e de hoje, mas como tenho a forte convicção de que não estaríamos a fazer mais do que a constatação do que é hoje consensual: a educação como instrumento indispensável para a realização das aspirações colectivas e de cada um, prefiro debruçar-me sobre a necessidade de reconhecermos o trabalho de quem dedica a sua vida a determinada função.

É do conhecimento de todos que os anos que antecederam esta luta dos professores foram marcados por grandes cortes salariais, congelamento de carreiras, dificuldade na colocação, horários zero, aulas de substituição, desmembramento de famílias, desemprego e muita dificuldade que estes profissionais tiveram em desempenhar condignamente as suas funções. Depois disto, são agora confrontados violentamente com a falta de reconhecimento por parte do Governo que, por motivos meramente orçamentais, coloca mais uma vez o dinheiro à frente da dignidade.

Os docentes merecem, pelo menos de nós, do povo, o reconhecimento e a solidariedade que o Governo lhes nega, na luta por melhores salários e fundamentalmente pela contagem destes nove anos em que todos os dias acordaram para dar o seu contributo e o seu conhecimento às gerações mais novas deste país. Esta é uma luta de todos, visto que os professores não são os únicos na função pública que vêem neste momento uma borracha a apagar-lhes uma década de vida, de contribuições e descontos. Todos merecemos o devido respeito e reconhecimento por aquilo que fazemos e é da responsabilidade de todos impedir que haja quem tente apagar tudo o que de bom ou até de mau levamos a cabo ao longo de uma década. Por isso sinto-me hoje muito mais Mário Nogueira do que Centeno porque, enquanto que para as lides da União Europeia há quem goste de ser visto como bom aluno, por cá não pugna pelo respeito aos professores.