Aznar disponibiliza-se para "unir o centro-direita". Rajoy diz que não é preciso

Horas depois de Rajoy ter anunciado a sua saída da liderança do PP, o seu antecessor na chefia do partido afirmou que o centro-direita encontra-se "desarticulado".

José María Aznar, Espanha
Foto
A oferta de Aznar foi rechaçada Kiko Huesca/LUSA

Horas depois de Mariano Rajoy ter anunciado a saída da liderança do Partido Popular espanhol (PP), José María Aznar, antigo presidente do partido e do Governo, ofereceu-se para contribuir na união do centro-direita que, diz, é uma das causas da “delicada situação política do país”. Rajoy não tardou em responder e garantiu que não é preciso unir o centro-direita, que está já ocupado pelo PP.

“O centro-direita espanhol foi desarticulado”, disse Aznar, que liderou o Governo espanhol entre 1996 e 2004, na apresentação de um livro, citado pelos jornais espanhóis. “O que estava unido agora está separado”, acrescentou, falando sem nunca o referir directamente, da actual luta entre o PP e o Cidadãos por este espaço no eleitorado.

“A superação desta situação é fundamental. A reconstrução do centro-direita nacional é indispensável para ver com confiança o futuro de Espanha. Se estivesse disposto a isso, desde a minha posição actual, e de nenhuma outra, contribuiria com muito gosto para que os espanhóis pudessem ter essa maior garantia de estabilidade e de segurança em relação ao futuro”, afirmou, numa indicação de que rejeita um regresso à política activa.

Mariano Rajoy respondeu ao seu antecessor na liderança do PP, recusando a ideia de que o centro-direita precise de ser unido: “Creio que o centro-direita não precisa de ser reconstruído. O partido de centro-direita é o PP, que tem 137 deputados, mais de 50  do que o segundo (PSOE), que não é de centro-direita”, disse numa entrevista à emissora Cope.

Anteriormente próxima, a relação entre Rajoy e Aznar teve os seus altos e baixos nos últimos anos. Em 2016, a fundação de Aznar, a FAES, terminou seu vínculo de 25 anos como motor ideológico do PP, aprofundando o distanciamento entre ambos.

Como explica o El País, na sua despedida, Rajoy acabou por falar de Aznar sem nunca referir o seu nome: “Assumi os meus erros e também os que não eram meus”, disse, falando nos casos de corrupção no PP protagonizados por dirigentes nomeados pelo seu antecessor.

De acordo com o que relata o El Confidencial, as declarações de Aznar não caíram bem a Rajoy mas também a vários deputados e dirigentes actuais do PP, com muitos deles a expressarem-no publicamente através de publicações nas redes sociais.

Rajoy anunciou nesta terça-feira a sua saída da liderança do PP, dias depois de ter sido derrubado do Governo através de uma moção de censura apresentada pelo socialista Pedro Sánchez, que entretando foi indigitado a formar o novo executivo.

Prevê-se uma aguerrida luta interna no PP na sequência da saída de Rajoy. Em disputa está a liderança mas também a reconstrução de um partido profundamente afectado por vários casos de corrupção, nomeadamente relativos ao "caso Gürtel", no âmbito do qual vários dirigentes conservadores foram condenados a pesadas penas de prisão e que serviu de mote para a apresentação da moção de censura que fez cair o Governo de Rajoy.