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vitorino coragem

Julia Bernat está fora e dentro das suas personagens

Esta quinta-feira, a actriz volta a pisar os palcos lisboetas em espectáculos de Christiane Jatahy. Depois da trilogia da mudança, em Ítaca – Nossa Odisseia I voltamos a encontra-la entre a realidade e a ficção.

Ao longo da trilogia em torno da possibilidade e da instigação da mudança com que a encenadora Christiane Jatahy iniciou a sua condição de Artista na Cidade 2018, alguns fios atam as várias pontas e unem as três peças. Mais evidentes são, sem surpresa: a origem que Julia, E se Elas Fossem para Moscou? e A Floresta que Anda têm nos textos clássicos de Strindberg, Tchékhov e Shakespeare, torcendo-os cada vez mais e transformando-os em objectos distintos e sempre mais próximos do público; a invasão pelo cinema do espaço teatral; o questionamento constante das estruturas de poder, desde um ponto de vista da intimidade e da relação de um-para-um até à manipulação e opressão dos destinos colectivos. Comum às três peças é, igualmente, a presença da actriz Julia Bernat – a menina burguesa e privilegiada de Julia, a irmã mais nova, politizada e verdadeira crente no poder transformador e revolucionário da mudança em Moscou, o corpo anónimo que se arrasta até não poder mais, que mistura depois Lady Macbeth e as bruxas, e termina a partilhar uma leitura de Macbeth com o público.

E é uma presença magnética. Julia Bernat é a extensão perfeita de uma linguagem que Jatahy desenha para confundir realidade e ficção, resgatando as personagens de tomos sagrados do cânone teatral para lhes dar uma carne viva, um corpo que chora, dança, copula, se automutila, morre até – está disponível para tudo. O lugar que Julia ocupa nas três peças é também aquele que Jatahy define como possibilidade de um seu alter-ego que lança para o palco, é a transportadora da voz mais política e reivindicativa da encenadora, porque é também Bernat que quase sempre quebra de uma forma mais visível o dispositivo ficcional e rasga esse espaço para plantar sementes de realidade.

Na recente apresentação de E se Elas Fossem para Moscou?, no Teatro Nacional Dona Maria II, a mesma Julia Bernat que trouxe para o texto as referências às activistas-punk Pussy Riot ou a Petr Pavlensky, artista russo que coseu a boca em frente na Praça Vermelha em protesto pela falta de liberdade de expressão, havia de usar a brecha que se abre na ficção para apontar a lupa sobre o mapa do Brasil e acusar a falta de vontade política na investigação do assassínio da socióloga e vereadora Marielle Franco, acusando a falta de investimento numa sociedade plural e a sempiterna protecção dos privilegiados do costume, mas também apontando o dedo ao “golpe” que constituiu a destituição da Presidente Dilma Rousseff. “Acho que desde o início a Chris [Christiane Jatahy] tinha essa ideia clara de que a personagem da Irina pudesse representar alguém que quer agir no mundo, fazer a diferença e não sabe como, e quer se relacionar com as coisas que estão acontecendo. Claro que quando a gente estreou a peça, em 2014, o mundo – e o Brasil, principalmente – não era ainda o que é hoje”, contextualiza Julia ao Ípsilon.

PÚBLICO -

Daí que Jatahy tenha previsto também uma natureza maleável para a sua trilogia e tenha depositado, antes de mais, em Julia Bernat a expressão dessa qualidade mutante em palco. Se, em 2014, o discurso passava sobretudo pelas manifestações durante a Copa do Mundo contra os gastos exorbitantes na construção de estádios – que levaram ao encarceramento de dezenas de pessoas, entre as quais Igor, um dos protagonistas videográficos de A Floresta que Anda –, o debate em torno das questões mais prementes de cada momento vai produzindo afinações constantes no texto. Afinal, que seria de uma trilogia dedicada à mudança que não acolhesse essa mesma hipótese de transformação na sua natureza artística?

Dilma acaba por estar também presente, embora de forma implícita, como um fantasma permanente em Ítaca – Nossa Odisseia I, primeira parte de um díptico de Jatahy a partir de Homero que tem estreia nacional no Teatro São Luiz, de 7 a 11 de Junho. Tal como em Moscou, Julia estará em palco com Stella Rabello e Isabel Teixeira; tal como em Moscou, Jatahy divide o público: metade assiste à travessia de Ulisses no seu regresso a Ítaca depois da Guerra de Troia – pelas mesmas águas onde hoje os refugiados arriscam a sua vida; a outra metade acompanha a espera de Penélope e os ataques de que é alvo. “Não é dito de forma explícita”, comenta a actriz, “mas acho que existe uma relação muito forte com o Brasil na peça e penso que as pessoas conseguem estabelecer essa ligação entre Penélope e Dilma, uma mulher destituída pela pressão de uma oligarquia correpta e desejosa de poder. E, para mim, foi um golpe extremamente misógino, tal como é muito machista a relação entre os pretendentes e Penélope.”

Mais uma vez, Julia segue Jatahy neste novo assomo de vida dirigido a um texto clássico. Para Bernat, os clássicos são definidos pelo seu “carácter humano” e é em busca dessa essência e dos seus reflexos na contemporaneidade que o teatro deve operar. “Acho super importante que a gente possa tratar essas obras a partir de um lugar pouco sagrado, sem as deixar ligadas a um sentido oculto e em que só quem estuda as questões ao fundo sabe desvendar o que aquela obra significa. Cada obra deve existir sempre disponível para o diálogo e aberta a interpretações – a obra se constrói na interpretação que alguém faz quando a lê.” A odisseia de Ulisses continua, assim, a ser narrada, sem ter de soar bafienta. E as outras odisseias de hoje tratam de soprar-lhe o pó.

O viés político

Quando Julia Bernat foi chamada para fazer uma audição com Christiane Jatalhy para uma peça baseada em Menina Júlia, de Strindberg, tinha então 21 anos. Estava ainda na faculdade, embora tivesse uma considerável experiência de televisão e teatro, exactamente aquilo que lhe contaram que a encenadora procurava: “uma actriz que tivesse já alguma maturidade, mas que pudesse aparentar ser muito jovem em cena”. Esse encontro de características entre o que Christiane buscava e o que Julia tinha para oferecer, resultou, desde logo, numa peça extraordinária que respondia também aos anseios da actriz por projectos mais experimentais e de investigação – até então, as suas experiências mais marcantes tinham sido três “musicais bem ao estilo Broadway” e a participação numa temporada da telenovela juvenil Malhação.

Para a encenadora terá sido mais reveladora a participação de Bernat no filme Ressaca, de Bruno Vianna, um filme que só acontece na presença do realizador, uma vez que em cada projecção Vianna edita a obra em tempo real, a partir de três horas de material. “Ele faz o filme na hora”, resume Julia, num processo que lembra um pouco a metodologia seguida em Moscou. Devido ao seu dispositivo, Ressaca foi apresentado em vários festivais de cinema mas nunca chegou a ter uma distribuição comercial (seria complicado pedir a Vianna que estivesse em todas as sessões).

Bem mais mediática foi a participação de Julia em Aquarius, impressionante filme-retrato social do Brasil assinado por Kleber Mendonça Filho, a partir de uma mulher a quem Sonia Braga empresta voz e corpo. Ao lado de outros filmes como Aspirantes ou Campo Grande, a actriz reconhece que é particularmente sensível a obras com “um viés social e político fortes”. “Também estou aberta para coisas que não sejam necessariamente políticas ou sociais – desde que não me firam na minha consciência”, diz. “Não tenho nenhum problema em apenas contar uma história. Mas acho que a vida vai trazendo muito daquilo em que a gente acredita e que a gente busca. As coisas que me interessam acabam tomando esse caminho.”

Esse viés político invade muitas das escolhas artísticas de Julia Bernat. Mas não apenas enquanto actriz. Ela que vemos em Moscou cantar e tocar guitarra, compõe as suas próprias canções, viaja sempre acompanhada pelo seu baixo eléctrico e já arriscou um espectáculo em que dava voz a temas de Los Hermanos ou Novos Baianos, é filha de cantora e passou infância e adolescência a aprender instrumentos e a estudar música. No ano passado, juntou-se à mãe e a alguns amigos, e formou uma banda que tocou em vários encontros no Rio de Janeiro declaradamente de motivação política, em que só interpretavam músicas de protesto “série B”. Por exemplo, de Belchior, cuja música acabou também na banda sonora de Ítaca. É também isso que Julia Bernat transporta para cada palco ou ecrã e que alimenta a porosidade entre a realidade e a ficção. Há uma verdade que transpira da actriz e que nos faz duvidar em que momento sai ou entra da personagem. Nunca é evidente quando está dentro e quando está fora – e isso é raro e precioso.