Crítica

A mulher invisível

Uma via sacra por uma Rússia moderna mas também eterna, percorrida por uma mulher que ninguém quer ver.

Sergei Loznitsa, Uma Criatura Delicada, Uma Criatura Delicada, Festival De Filmes De Cannes 2017, Vasilina Makovtseva
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“Quadros vivos”: o formalismo permanentemente atento ao pormenor de Loznitsa
Sergei Loznitsa, Uma Criatura Delicada, Festival Internacional De Cinema De Dubai, Festival De Cinema De Cannes 2017, Filme
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Uma Criatura Delicada, Festival Internacional de Cinema de Hong Kong, Festival de Cinema de Cannes de 2017, Filme, Uma Criatura Delicada
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Filme, Curta Metragem
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“Há mais alguém que me possa ajudar?”, pergunta ela já perto do fim do calvário. “Deus nosso senhor”, vem a resposta, e não sabemos se a afirmação é irónica ou apenas desesperada. Pode até dar-se o caso das duas coisas — é essa a sensação com que saímos de quase duas horas e meia de projecção onde Sergei Loznitsa nos encafua no pesadelo de uma sociedade desintegrada, regida pelo caos e pela lei do mais forte.

A sociedade é a Rússia moderna, e Uma Mulher Doce faz dobradinha com A Minha Alegria (2010), a primeira longa de ficção do bielorusso, que já nos mergulhava numa viagem sem regresso à escuridão da alma russa.

Falámos de calvário e não é acaso, há nesta história qualquer coisa de via sacra em direcção à aniquilação, de última batalha contra as forças do mal. Foi por aí que nos lembrámos do Leviatã de Andrei Zvyagintsev (2014), outro retrato impiedoso da corrupção que engole um homem honesto. Aqui é uma mulher, que ao receber devolvido um pacote que enviou ao marido na prisão decide ir à Sibéria saber notícias. Tal como o camionista de A Minha Alegria, tal como o Kolya de Leviatã, também esta “mulher doce” será um carneiro sacrificial atirado aos lobos, à medida que se vê cada vez mais atolada na desintegração das regras sociais. Ela é a mulher invisível, vista pelos outros como vítima, prostituta, inimiga, idiota útil, mas nunca como aquilo que é — uma mulher que apenas quer respostas mas cujas perguntas ninguém ouve.

Vasilina Makovtseva, de presença masoquistamente crística, é sempre o ponto de referência nos “quadros vivos” por onde Loznitsa a faz passar com o seu formalismo permanentemente atento ao pormenor, fotografados com um requinte quase pictural pelo cúmplice de sempre Oleg Mutu. Continuamos a preferir o Loznitsa documentarista, mesmo que reencontremos em Uma Mulher Doce o olhar desapaixonado, de um desespero quase niilista, do observador desencantado do mundo em que vive; a alegoria como a pratica aqui, a meio caminho entre a sátira picaresca e o simbolismo grotesco, torna-se cansativa numa duração tão longa. Mas há flashes extraordinários pelo meio, e sobretudo aquele espantoso plano final da estação de comboios que se encarrega de relançar o tom do filme: talvez nem mesmo Deus nosso senhor consiga ajudar a mulher doce.