Sánchez forma Governo para unir o partido e enfrentar independentismo

Líder socialista escolhe pesos-pesados do PSOE para o novo executivo espanhol, e preocupa-se com os equilíbrios das forças internas do partido. Sánchez tenta ainda afastar acusações de parceria com os independentistas catalães.

Mariano Rajoy, Espanha, primeiro-ministro da Espanha
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Reuters/Sergio Perez

Já são conhecidas algumas das figuras-chave do novo Governo espanhol liderado pelo socialista Pedro Sánchez. Só na quarta-feira será conhecida a composição do novo executivo na sua totalidade, mas os nomes já conhecidos indicam que quer rodear-se de gente de confiança e de pesos-pesados do partido, deixar claro que não haverá cedências a Barcelona e atribuir maior protagonismo à igualdade de género.

Os jornais espanhóis começaram a avançar os primeiros nomes através de várias fontes do PSOE. O primeiro foi o de Josep Borrell, um catalão que irá liderar o Ministério dos Negócios Estrangeiros. A nomeação deste experiente político de 71 anos lança uma clara mensagem à Catalunha e ao processo independentista, pois Borrell foi um dos críticos mais activos das intenções independentistas catalãs.

E isso ficou bem claro na reacção do PDeCAT e da ERC, dois dos partidos independentistas que apoiaram a moção de censura que elevou Sánchez ao poder e derrubou Mariano Rajoy: “Que vergonha”, foi a expressão utilizada pelos catalães.

O catalão foi ministro das Obras Públicas e Ambiente no Governo de Felipe González, entre 1991 e 1996, e foi também presidente do Parlamento Europeu, entre 2004 e 2007. A larga experiência internacional ao mais alto nível de Borrell foi um dos factores que explicam o convite para chefiar a diplomacia espanhola.

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Josep Borrell é catalão, mas sempre se opôs aos independentistas Ballesteros/EPA

A sua nomeação é uma forma de Sánchez garantir que, apesar de se ter juntado aos independentistas catalães para fazer cair Rajoy, se mantém na luta contra o processo de autodeterminação catalã. 

Meritxell Batet também é catalã e vai ficar com a pasta da Administração Pública. Não é por acaso que Sánchez escolheu para este cargo uma das pessoas que lhe foi mais próxima e leal desde que chegou à liderança do PSOE. A pasta engloba a administração territorial e, por isso, a gestão mais directa das consequências dos processos independentistas. É assim uma das posições-chave do Governo.

Carmen Calvo será a única vice-presidente do Governo e acumulará a pasta da Igualdade. É a primeira vez que um vice-presidente do Governo assume este ministério. O sinal aqui é claro: dar importância às questões da igualdade de género, uma das frentes de batalha políticade Calvo nos últimos anos.  

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Carmen Calvo será a única vice-presidente do Governo JAVIER LIZON/EPA

Doutorada em Direito Constitucional, Calvo seráresponsável, juntamente com Sánchez, pela condução das conversações com a Generalitat. Foi, além do mais, a escolhida pelo líder socialista para negociar com o Governo de Rajoy a aplicação do artigo 155 da Constituição na Catalunha.

A liderar o Ministério das Finanças, e com a responsabilidade de aplicar um Orçamento para este ano que foi elaborado pelo PP, se vier a ser aprovado no Senado, e de construir um novo para o próximo ano, se o PSOE se mantiver no Governo, estará a sevilhana María Jesús Montero. Tendo sido até agora conselheira das Finanças no governo andaluz, Montero é próxima de Susana Díaz, presidente da comunidade da Andaluzia, que esteve à frente dos barões que obrigaram Sánchez a demitir-se da liderança do PSOE em 2016.

O socialista tenta assim unir o partido, que enfrentou uma crise interna aquando do falhanço nas negociações para formar Governo, permitindo que Rajoy renovasse o seu mandato.

Para o Fomento, Sánchez escolheu outro dos membros do seu núcleo duro: José Luis Ábalos, que foi até agora secretário da organização do PSOE e coordenou a moção de censura a Rajoy. Neste ministério, Ábalos tem como missão a coesão do território espanhol através da gestão dos benefícios concedidos às comunidades autonómicas. Nos governos anteriores, os responsáveis por esta pasta foram sempre figuras da máxima confiança do líder. O de Sánchez não foge à regra. É que Ábalos terá a seu cargo uma das armas mais poderosas de Madrid para fazer frente às derivas independentistas.

Com esta composição, Sánchez forma ainda um Governo predominantemente político, ao contrário do de Rajoy, que era visto como maioritariamente tecnocrata.