Áustria quer fazer ponte para Moscovo, mas garante seguir sanções

Vladimir Putin foi recebido em Viena para uma rara visita a um país da UE, afirmando não pretender a divisão do bloco europeu.

Vladimir Putin, Hofburg
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Putin ao lado do Presidente austríaco, Alexander van der Bellen Mikhail Klimentyev/Sputnik/REUTERS

Antes de aterrar em Viena, o Presidente russo, Vladimir Putin, garantia que não pretende fomentar divisões no seio da União Europeia. Mas é precisamente a existência de clivagens na política europeia que dá azo a uma rara recepção a Putin num país da Europa Ocidental, num momento muito conturbado nas relações com Moscovo.

Putin vai encontrar-se com o chanceler austríaco, Sebastian Kurz, que lidera um dos executivos mais controversos na UE, fruto de uma coligação entre os conservadores do Partido Popular (ÖVP) e o Partido da Liberdade (FPÖ), de extrema-direita. O Governo tem adoptado uma postura muito dura em relação à imigração, entrando em colisão com Bruxelas, mas é a proximidade do FPÖ a Moscovo que mais preocupação causa nos corredores das instituições europeias.

A formação de extrema-direita é uma das muitas na Europa que tem acordos de cooperação com o Rússia Unida, de Putin, mas negou sempre qualquer tipo de financiamento.

Durante o fim-de-semana, o líder do FPÖ e vice-chanceler, Heinz-Christian Strache, pediu o levantamento das sanções, que disse serem “exasperantes”. Porém, o Governo tem dado garantias de que não irá furar o consenso europeu, que tem mantido várias restrições económicas como resposta à anexação da Crimeia e às acções dos grupos separatistas que ocupam parte da Ucrânia, que Bruxelas diz serem apoiados por Moscovo. Tal como vários outros países da UE, a Áustria depende do fornecimento de gás da Rússia e mantém vários laços económicos com o país, apesar das sanções.

A visita de Putin a Viena serve alguns dos objectivos dos dois países. Por um lado, o Presidente russo aproveita uma das raras aberturas a ocidente para mostrar que não está isolado em termos geopolíticos, depois de ter sido afastado das reuniões do antigo G-8, em 2014. Há cerca de um ano, Putin foi recebido pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, em Versalhes, e entretanto só voltou a um Estado-membro da UE quando se deslocou à Hungria em Agosto para a abertura do campeonato do mundo de judo.

Para a Áustria, que a partir de Julho assume a presidência rotativa do Conselho da UE, receber Putin reforça um estatuto de ponte entre a Europa e a Rússia que tradicionalmente lhe era atribuído. “A Áustria sentiu sempre que perdeu a sua importância depois da Guerra Fria como um local onde o Leste e o Ocidente se encontram, portanto olham [para estas visitas] como uma oportunidade para mudar isto”, disse ao Politico o analista Ivan Krastev.

Este estatuto remonta aos primeiros tempos após a II Guerra Mundial, quando a Áustria negociou a retirada militar soviética do país, a troco de uma posição de neutralidade face aos dois blocos. Hoje, a época é diferente, embora se multipliquem as comparações com a Guerra Fria por causa das más relações entre a NATO e a Rússia.

Mas o chanceler austríaco diz que o seu país deve funcionar como “uma ponte entre o Leste e o Ocidente” com o objectivo de “manter abertas as linhas de comunicação” com Moscovo.