Startup portuguesa comprada por empresa britânica

Objectivo é desenvolver terapias para o cancro à base de células imunitárias. Valor do negócio não foi revelado.

Células DOT, um tipo de linfócitos T desenvolvido para ampliar a sua capacidade de destruir células cancerosas
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Células DOT, um tipo de linfócitos T desenvolvido para ampliar a sua capacidade de destruir células cancerosas DR

A startup portuguesa Lymphact – Lymphocyte Activation Technologies, uma empresa que nasceu a partir do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM), da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), foi comprada na totalidade esta terça-feira por uma empresa britânica de biotecnologia, a GammaDelta Therapeutics (ligada ao grupo farmacêutico Takeda).

Tanto a empresa portuguesa como a britânica têm desenvolvido investigação para criar terapias com células imunitárias, as chamadas “imunoterapias”, para combater o cancro. Por isso, o objectivo desta parceria é agora o desenvolvimento clínico de uma biotecnologia que pertence à Lymphact, designada por células DOT, para aplicar como uma nova imunoterapia contra o cancro, refere um comunicado do IMM.

Trata-se de usar os linfócitos T gama-delta, um tipo de células do sistema imunitário, que são capazes de reconhecer e destruir células cancerosas. Retirados do sangue do doente, onde existem mas em concentrações insuficientes para a terapia, os linfócitos T são depois cultivados em laboratório, para se obterem não só grandes quantidades destas células imunitárias como para as tornar ainda mais eficazes a matar as células cancerosas.

Foi no laboratório no IMM liderado por Bruno Silva Santos, também vice-director deste instituto e professor na FMUL, que Daniel Correia descobriu durante o seu doutoramento uma “receita” para tornar os linfócitos T gama-delta mais letais para as células cancerosas. Essa “receita” foi depois aperfeiçoada já na empresa Lymphact, criada em 2013 por Daniel Correia e Bruno Silva Santos, juntamente com o empreendedor Diogo Anjos. Este trabalho deu lugar a duas patentes. “É o processo de manipulação dos linfócitos T que tem valor terapêutico. Foram cinco anos até chegar à receita final”, explica ao PÚBLICO Bruno Silva Santos, que, no entanto, diz não poder revelar o valor do negócio. “Com o nosso protocolo, de cada linfócito T gama-delta retirado do sangue produzimos 5000 células DOT, com maior eficácia antitumoral, para serem reinjectadas no doente.”

Para já, esta terapia à base de linfócitos T gama-delta tem como alvo a leucemia mielóide aguda e a leucemia linfocítica crónica. E os primeiros ensaios clínicos, que deverão começar em 2019, serão nestes doentes. Mas os alvos seguintes, acrescenta Bruno Silva Santos, que se manterá como consultor científico da empresa britânica, serão tumores sólidos, como os cancros do cólon e da mama.

“É fantástico constatar como a ciência de topo desenvolvida por um dos nossos grupos pode ser transferida com sucesso para o sector da biotecnologia, rumo à aplicação clínica”, considera Maria Mota, directora-executiva do IMM, citada no comunicado. “Tendo atingido uma elevada maturidade na nossa investigação biomédica, a transferência do conhecimento é, agora mais do que nunca, uma prioridade estratégica do IMM.”