A nova temporada da Metropolitana vai dos clássicos a Krzysztof Penderecki

Programação para 2018/19 propõe a redescoberta de grandes obras clássicas famosas, mas também muitas iniciativas para “esconjurar a rotina”.

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O compositor e maestro polaco Krzysztof Penderecki é um dos artistas associados desta temporada da Metropolitana Archie Kent/ullstein bild/Getty Images

A temporada 2018/2019 da Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML), apresentada esta segunda-feira, pretende ser “desafiante” e continuar a “buscar incansavelmente a excelência”. Contará para isso com uma figura de peso da música do século XX, e ainda em plena actividade, o octogenário Krzysztof Penderecki (n. 1933), que será um dos seus artistas associados. O director artístico da Metropolitana, Pedro Amaral, explica ao PÚBLICO a importância de ter Penderecki presente (o compositor e maestro polaco dirigirá também o último concerto da temporada, em Junho do próximo ano): “É o último compositor vivo da sua geração, uma figura mundial que tem a força de propulsão trazida por um artista internacional.”

A temporada começará a 23 de Setembro no Centro Cultural de Belém (CCB). O programa do concerto inaugural inclui uma obra de Penderecki interpretada pela OML e por Adrien Brendel, membro do DSCH – Shostakovitch Ensemble (dirigido por Filipe Pinto-Ribeiro), que é o “agrupamento associado” da temporada. Também o Concerto para Orquestra de Bartók, que Pedro Amaral considera uma obra especialmente apta a mostrar “a excelência técnica actual da Metropolitana, porque põe cada naipe e cada instrumento solista em primeiro plano”, faz parte do alinhamento.

“Surpreender o público”, “estimular a curiosidade” e “esconjurar a rotina” são os principais objectivos do programa vasto e diversificado da Metropolitana para 2018/19, que assenta em três pilares fundamentais: música antiga, música clássica para diferentes formações, e música sinfónica para grande orquestra.

Dispersa por nove concertos que terão lugar ao sábado no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), a temporada barroca estende-se entre Outubro de 2018 e Maio de 2019. O destaque vai para a estreia moderna da cantata A Ninfa do Tejo, de Alessandro Scarlatti, que se ouviu pela primeira vez em Roma no contexto das celebrações do 32.º aniversário de D. João V, a 22 de Outubro de 1721. O concerto será dirigido por Enrico Onofri. 

A temporada “clássica” continuará a ter como principal sala o Teatro Thalia e será um dos eixos mais importantes da programação logo a partir de Outubro: para além de obras  clássicas de Haydn, Mozart, Beethoven, poderemos ouvir várias peças do romantismo (Schubert, Berlioz, Schumann, Brahms e Dvorák, com a sua Sinfonia do Novo Mundo), algumas obras do século XX e até compositores contemporâneos, como Beat Furrer. E Penderecki, claro está, por exemplo com a interpretação do Adagietto da sua ópera Paraíso Perdido.

Os concertos sinfónicos de maiores dimensões realizar-se-ão no Centro Cultural de Belém (CCB), e irão do Concerto para Orquestra de Béla Bartók a obras de Tchaikovsky, Rachmaninov ou António Pinho Vargas. No centenário da independência da Polónia, que se comemora este ano, haverá lugar para uma curiosa Missa que um compositor-aristocrata polaco, Józef Poniatowski, dedicou ao rei português D. Luís I. Em Fevereiro, poderemos ouvir Elisabete Matos a interpretar as Quatro Últimas Canções, a última obra de Richard Strauss, dirigida por Eivind Gullberg Jensen. Em Maio, será a vez de António Rosado tocar o Concerto para Piano N.º 2, de Sergei Rachmaninov. Já em Junho de 2019, a OML volta a Penderecki, com a apresentação do Concerto para Violino N.º 2, Metamorfoses, interpretado pela violinista japonesa Sayaka Shoji.

Prosseguindo uma parceria iniciada em 2017, a Metropolitana retoma a sua relação com a Orquestra e Coro da Rádio e Televisão Espanhola (RTVE). Do programa conjunto consta a Missa Solene de Beethoven, dirigida por Pedro Amaral num concerto de Páscoa que terá lugar em Abril do próximo ano na Igreja de São Roque, em Lisboa. Antes disso, a OML visitará Madrid para interpretar Noites nos Jardins de Espanha, de Manuel de Falla; no mesmo concerto, a formação espanhola ocupar-se-á de uma obra chave do século XX português: Paraísos Artificiais, de Luís de Freitas Branco.

A OML também visitará o Porto, para três concertos no Coliseu, o primeiro dos quais logo em Setembro, com Mário Laginha ao piano. Depois, regressa em Janeiro e em Março para realizar, respectivamente, um concerto de Ano Novo (que também terá lugar em Setúbal, no Barreiro e em Lisboa) e um concerto de Carnaval (também em Setúbal e em Lisboa). O concerto de Ano Novo será dirigido por Evgueny Bushkov e promete trazer “delírios, valsas, galopes e outros sortilégios musicais”.

Muito mais do que uma orquestra

Concertos orquestrais à parte, a OML desdobrar-se-á ainda, como sempre, em diversas formações mais pequenas. A programação de música de câmara a cargo dos Solistas da Metropolitana terá apresentações em diferentes localidades de Portugal e lá fora.

Em Janeiro de 2019, o Ateliê de Ópera da Metropolitana porá de pé Ariadne auf Naxos, de Richard Strauss. Um projecto ambicioso que tem a intenção de revelar novas vozes portuguesas e permitir-lhes a experiência de montar uma “ópera a sério”. Pedro Amaral considera que este Strauss representa “uma nova etapa, tecnicamente exigente e complexa”, de um ateliê que suscita grande entusiasmo da direcção artística. A estreia será no CCB, mas o Ateliê de Ópera percorrerá depois uma série de palcos da Grande Lisboa.

A Metropolitana propõe ainda outros projectos que pretendem chamar mais público para a fruição da música clássica. As Histórias da Formiga Rabiga, para crianças e famílias, no Teatro Thalia, de Outubro a Junho, sempre no primeiro domingo de cada mês, contarão com a participação da Orquestra Juvenil Metropolitana, da Orquestra Clássica Metropolitana e de solistas da Orquestra, interpretando obras clássicas do repertório como O Pedro e o Lobo ou realizando outros concertos com carácter pedagógico, para todas as idades. Existirá ainda a interessante oportunidade de ver O Último Ensaio, abrindo ao público, aos sábados de manhã, a intimidade da orquestra no derradeiro ensaio antes do concerto. De regresso está a iniciativa O dia seguinte, que continuará a convidar o público a viver uma orquestra “por dentro” nalguns domingos de manhã, permitindo que os espectadores se sentem, para variar, com os músicos da OML, numa experiência “imersiva”. Para Pedro Amaral, estas iniciativas são extremamente importantes porque “abrem um plano diferente de contacto com o público, dessacralizando a música clássica e ajudando a quebrar o gelo”.

A Metropolitana propõe ainda outros concertos especiais para “desafiar o imaginário”: em Dezembro deste ano, numa homenagem a José Saramago passados 20 anos da atribuição do primeiro (e único) Nobel da Literatura a um escritor português, um concerto juntará Memorial, uma nova criação de António Pinho Vargas, em estreia absoluta, à Sinfonia de Câmara de Shostakovitch. O concerto, intitulado Saramago, Nobel 1998: Memorial, está marcado para a Culturgest. Haverá ainda lugar, em Junho de 2019, para um Late Night Concert na Lx Factory, marcando o Solstício de Verão com um grande concerto sinfónico

Será uma programação variada, assente no repertório clássico e romântico, mas com um peso significativo de obras do século XX, e desvios para caminhos imprevistos, até à actualidade. Fazendo da aparente desvantagem de não ter uma sala de espectáculos própria uma oportunidade para fazer música em muitos outros lugares: do Coliseu do Porto ao Fórum Luísa Todi, em Setúbal, do MNAA ao Teatro Thalia, do CCB à Culturgest, com passagem por muitos outros lugares no país e algumas saídas de Portugal. "Um hábito de deambular pela geografia, mas também por diferentes repertórios", que, como diz o director artístico da orquestra, “mostra a grande solidez técnica e estética da Metropolitana”.