Crónica

Palavras, expressões e algumas irritações: desgoverno

Fica a sensação de que se calhar os governos não fazem assim tanta falta. Mesmo temporariamente sem eles, o mundo pula e avança.

Um dos sentidos para o substantivo masculino “desgoverno” é “falta de governo”, o que, na política europeia recente, pode ser entendido literalmente.

Notícia de sexta-feira, dia 1 de Junho: “Quase ao mesmo tempo que os espanhóis assistiam à queda do Governo de Mariano Rajoy, num processo de que muitos duvidavam até há poucos dias, os italianos seguiam pela televisão uma tomada de posse que já poucos julgavam ser possível. Ao fim de uma semana de impasse, o Presidente Sergio Mattarella assinou os papéis e consumou a chegada ao poder de um Governo nacionalista e anti-sistema, a meias entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas.”

“Descaminho” e “desordem” são sinónimos de “desgoverno” e remetemos para o editorial do PÚBLICO de ontem: “Tudo isto, em Espanha e Itália, apanha a União Europeia num momento sensível, o da saída do Reino Unido, o da negociação do próximo orçamento europeu, o da alegada ‘reforma da zona euro’. Nas próximas semanas, vamos ouvir falar de novo da fragilidade da Europa e do seu projecto. Na verdade, o que está realmente frágil são as democracias nacionais.”

Análise de Jorge Almeida Fernandes: “Não será possível governar durante alguns meses em estilo de pré-campanha eleitoral. De resto, o PSOE tem outro problema, o da ‘nova maioria’. Com 84 deputados, os socialistas são minoritários entre os 180 deputados que votaram a moção.”

Outros significados: “esbanjamento” e “desperdício”. Entre discussões sobre modelos equivalentes à “geringonça” CostaSousa&Martins e sobre alianças entre extrema-esquerda e extrema-direita, lembramo-nos de que a Bélgica esteve praticamente um ano sem governo, em 2010-2011.

E...? Fica a sensação de que se calhar os governos não fazem assim tanta falta. Mesmo temporariamente sem eles, o mundo pula e avança.

“Desgovernar” traduz-se por “não obedecer ao leme”.

A rubrica Palavras, expressões e algumas irritações encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO