No PP poucos querem Rajoy e todos temem que recuse sair

Teimoso, nunca desistiu de um combate e soube sempre esperar que as tempestades passassem. O seu "ciclo político" acabou. Mas será que ele sabe?

Pedro Sánchez, Mariano Rajoy, Ana Pastor Julián, Ana Pastor García, Tribunal Constitucional da Espanha
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Rajoy não faltou à tomade de posse de Sánchez Emilio Naranjo/EPA

As suas palavras, curtas, de despedida, mais pareciam um adeus ao Congresso, onde é deputado, ou à própria política. Afirmando-se “honrado” por “deixar Espanha melhor” do que a encontrou, desejou que o sucessor possa dizer o mesmo “no seu momento”. Mas trata-se de Mariano Rajoy, um sobrevivente com 63 anos e 37 de experiência política.

O homem que recusou abandonar a chefia do PP depois de duas vezes derrotado por José Luis Rodriguez Zapatero tem mais certezas do que dúvidas. A seguir à segunda, em 2008, o político galego hesitou. Mas acabou por reunir um núcleo duro de colaboradores que nunca mais abandonou, conseguindo travar as intenções de Esperanza Aguirre, que queria disputar-lhe a liderança. Até 2011, e à vitória com uma maioria absoluta superior às de José María Aznar, fortaleceu o partido e viajou muito por Espanha.

A meio caminho, rebentava nas notícias o caso Gürtel, o mesmo que acabou agora por ditar a sua saída do poder pela porta das traseiras. A investigação era liderada pelo juiz Baltasar Gárzon e os populares iniciaram uma guerra sem tréguas contra o magistrado e contra o então ministro da Justiça, o socialista Mariano Fernández Bermejo. Ambos caíram, de pé ficou Rajoy, enquanto os dirigentes repetiam durante semanas uma frase que voltou a ser ouvida por estes dias: “Isto não é uma conspiração do PP, é uma conspiração contra o PP”.

Rajoy é teimoso (e paciente). Até à humilhação de se tornar no primeiro chefe de Governo alguma vez derrotado por uma moção de censura acreditou que essa característica o beneficiava. Quando, no fim de 2015, venceu as legislativas sem maioria e foi incapaz de formar governo, levando os espanhóis de novo às urnas, em Junho do ano seguinte, admitiu “alguns erros”, essencialmente de comunicação, e continuou como se nada fosse.

É isso que assusta barões, dirigentes territoriais, deputados e senadores ouvidos pelo jornal El Mundo. A possibilidade que Rajoy caia na tentação de ser igual a si mesmo e “não faça nada”. Alguns admitem que entre a organização há um certo “pânico” face a esse cenário.

Aconteça o que acontecer, o PP está em perda constante de eleitores e a lógica diz que para sobreviver tem de conseguir renovar-se profundamente. Não só por causa da sua crise mas porque a ameaça do Cidadãos e a possibilidade de o partido de Albert Rivera (apesar do erro estratégico de não apoiar a moção socialista, certo que seria chumbada) se bater pela hegemonia da direita é real.

Oiça-se Rajoy nos últimos meses e semanas e imagina-se que na terça-feira, dia da reunião do Comité Executivo Nacional, repete que a economia vai bem e é um factor de vantagem para os populares, que, acima de tudo. o que não se soube foi comunicar, que Pedro Sánchez não vai durar dois meses no poder… Se assim for, “o que fazer?”, interrogam-se vários dirigentes sem saber a resposta.

Porque não é bonito bater em alguém que já está no chão, porque nunca, até hoje, alguém ousou contrariar Rajoy no Comité Nacional, porque até a inesperada forma como sai do Governo gerou reacções de apoio e solidariedade de militantes e simpatizantes. “Injustiça” tem sido uma palavra muito repetida.

Ninguém quer que Rajoy saia a correr – já basta ter tido que abandonar a Moncloa em tempo recorde. Mas a maioria deseja que anuncie já o fim do seu “ciclo político”, tratando de pôr em marcha a transição e marcando um congresso extraordinário para eleger o seu sucessor.

Neste campo não há novidades. Ainda Rajoy sonhava voltar a candidatar-se à chefia do Governo em 2020 (será que ainda sonha?) e já se conheciam os dois nomes mais bem colocados para liderar o PP: a sua mais fiel colaboradora, e até sexta-feira a mulher mais poderosa de Espanha, a sua vice-presidente, Soraya Saénz de Santamaría; e Alberto Núñez Feijóo, que desde 2009 governa a Galiza com maioria absoluta – a única que resta ao partido.

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Soraya Saénz de Santamaría ao lado de Rajoy durante o debate da moção de censura Javier Lizon/EPA

“O que [Rajoy] não pode é dar a imagem que se barrica no PP”, diz um responsável dos conservadores ao diário El Mundo. Não será fácil justificá-lo, até porque ninguém o vê de regresso a líder da oposição. E a renovação é urgente, a um ano de eleições municipais e autonómicas. Mas trata-se de Rajoy: o homem que sobreviveu a travessias no deserto, dezenas de casos de corrupção ou à crise política catalã (a mais grave desde a tentativa de golpe de Estado de 1981), sempre como se não fosse nada consigo. Daí o “pânico”. E se Rajoy “não faz nada”?