Prémio Leya entregue este domingo a João Pinto Coelho pelo romance Os Loucos da Rua Mazur

O autor português já tinha sido finalista em 2014, aquando da publicação do seu romance de estreia, Perguntem a Sarah Gross. A cerimónia de entrega do galardão decorre às 18h30, na Praça Leya, na Feira do Livro, instalada até dia 13 de Junho no Parque Eduardo VII.

João Pinto Coelho em Auschwitz em 2015
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João Pinto Coelho em Auschwitz em 2015 RUI GAUDÊNCIO

O Prémio LeYa, no valor de 100.000 euros, o maior prémio para uma obra inédita escrita em língua portuguesa, é entregue este domingo a João Pinto Coelho, pelo romance Os Loucos da Rua Mazur, na Feira do Livro de Lisboa.

A cerimónia de entrega do galardão decorre às 18h30, na Praça Leya, na Feira do Livro, instalada até dia 13 de Junho no Parque Eduardo VII.

O livro foi publicado no passado mês de Novembro e, segundo o escritor Manuel Alegre, que presidiu o júri do prémio, trata-se de um romance "bem estruturado, bem escrito, que capta a atenção quer pelo tema, quer pela construção em tempos paralelos".

Um romance que "não cede ao facilitismo do romance histórico, embora a História seja parte da acção e nos apresente uma visão inédita da tragédia resultante das invasões russa e nazi da Polónia", segundo a acta do júri do galardão.

O júri elogiou "as qualidades de efabulação e verosimilhança em episódios de violência brutal com motivações ideológico-políticas e étnico-religiosas", deste romance inédito de João Pinto Coelho.

A acção narrativa decorre em Paris, em 2001. "Yankel – um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama – recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se vêem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram – e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk – hoje um escritor famoso – está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há-de redimir", segundo nota do grupo editorial.

Para escrever este livro, "precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira".

"Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne – a editora que não diz tudo o que sabe –, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era", segundo a editora.

Essa situação leva os protagonistas da história a "um ponto crítico do passado, um passado comum, que foi um acontecimento terrível que ocorreu numa pequena cidade da Polónia, em Julho de 1941, e esse, sim, é um acontecimento real, aconteceu realmente, é um facto histórico, e esse acontecimento é que vai servir de mote para o resto da narrativa", explicou o autor à agência Lusa.

Trata-se de um conflito que se dá entre dois grupos de vizinhos que conviveram durante séculos, duas comunidades, – os judeus e os cristãos polacos – "que resulta numa tragédia e faz parte do conjunto vastíssimo de acontecimentos que se viveram naquele período na Polónia, e que tem a ver com a perseguição dos judeus", além do que foi a perseguição nazi.

Em entrevista à Lusa, João Pinto Coelho explicou que a sua obra surgiu na sequência do primeiro romance, Perguntem a Sarah Gross, que também aborda uma situação concreta, "igualmente desastrosa", numa cidade polaca que foi ocupada pelos alemães e que se "transformou em Auschwitz".

"Quando terminei o meu primeiro romance, entendi que havia uma parte da história que não estava contada e quis falar um pouco da universalidade do mal, mais do que a sua banalidade", afirmou o escritor.

Considerando que "não foram só os alemães" que "cometeram actos bárbaros" durante aquele período da história, mas também os polacos, e outros povos, João Pinto Coelho diz que "o mal pode tocar-nos a todos".

João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967, licenciou-se em arquitectura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa, tendo passado diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional, perto de Nova Iorque.

Em 2009 e 2011, fez parte de duas acções do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto.

Foi nesta fase que concebeu e desenvolveu o projecto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio.

O escritor tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012.