Beleza

Perdi a cor do meu cabelo

É uma sensação estranha esta de, pela primeira vez, ter de escolher a cor do meu próprio cabelo. “O mais próximo que temos do seu é este.” Aqui sentada, à espera de que o meu cabelo acastanhe, participo num ritual com uma história muito antiga. Ao meu lado, uma cliente chega em busca “de luz”. Já eu só queria saber de que castanho é o meu cabelo.
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O meu cabelo era virgem, nunca o tinha pintado. Era castanho. Que castanho? Castanho assim para o escuro, nunca pensei defini-lo além disto, nunca pensei muito nele, crescia-me assim naturalmente, o meu cabelo castanho.

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Com os primeiros brancos, ou deverei dizer os segundos e os terceiros, surgiu-me na meia-idade a certeza de que queria pintar o cabelo para não o deixar tornar-se branco, como ele insistia em querer. Mas não esperava que tivesse à esquina uma nova e inesperada questão de tipo existencial: de que castanho é o meu cabelo?

As raras vezes que vinha ao cabeleireiro, antes de ter cabelos brancos tão viçosos, era para cortar o cabelo de forma vigorosa, para cortar muito cabelo, porque não gosto de cá voltar nem do tempo que aqui perco. Essa época da minha vida acabou.

“Vai pintar?” “Sim”, respondo. “Tem preferência de colorista?” E é esta a primeira novidade. Existe uma profissão chamada colorista. Há uma secção no meu cabeleireiro que desconhecia e agora tenho de passar pelas mãos de uma destas profissionais. Acomodam-me numa das quatro cadeiras reservadas a quem vai ser pintado o cabelo. Olho-me no espelho enquanto espero pela colorista que não escolhi e penso nas consequências de me calhar a pior do cabeleireiro. Não é só escolher uma cor igual à minha? Não é só empaparem-me o cabelo com uma mistela malcheirosa e esperar pela transformação lendo revistas sobre realeza de palácios e de ecrãs?

Chegou finalmente a minha colorista, a quem pergunto o nome, é a Raquel, digo-lhe que me chamo Catarina, num tom talvez exageradamente simpático, porque acho que isso poderá criar entre nós uma ligação e quero aumentar a probabilidade de me tratar bem do meu castanho, como aquelas pessoas que dão prendas aos médicos na esperança de que lhes tratem melhor da saúde. A minha colorista abre uma mão sobre o meu cabelo, como se os seus dedos fossem um pente a fazer espargata, levanta-o, estica-o, chama-se a este acto, jargão de colorista, “fazer o diagnóstico”, e pousa-o no seu estado original, acachapado. O espelho, sob a luz intensa dos holofotes, devolve-me alguns dos meus brancos, nunca os vi tão bem iluminados, serão aqueles alguns dos que eu, antes de capitular à coloração, tinha tentado perseguir com uma tesourinha? Cada vez que descobria um caçava-o, isto antes de grupos de cãs se unirem entre si, contra mim, para formarem legiões de tufinhos prateados.

A minha colorista constata que me encontro no espectro de cabelo “com menos 70% de brancos”, ponto que, pelos vistos, se considera sem retorno, algo como os 65 anos e os descontos automáticos no passe social. Para o meu caso recomenda-me a mais impermanente e inconspícua das soluções cromáticas, chama-se “tom sobre tom”. Soa-me bem. Não pinta os brancos, torna-os transparentes. Será no fundo como andar com os brancos à mesma, mas à paisana. Concordo com a solução.

A minha colorista traz-me então um grande volume de capa dura e lombada grossa. É o menu. É uma sensação estranha esta de ter de escolher a cor do meu próprio cabelo. Neste cardápio há uma série de mechas de cabelo perfeito de várias cores onde eu não me encontro. E pergunto-me se, talvez, sendo Portugal um país de morenas, não devesse o inventário ter uma paleta de castanhos mais alargada do que esta.

A colorista palpa uma madeixa e sigo-lhe o exemplo, como se com o tacto pudéssemos sentir a cor: “O seu é assim mais ou menos este.” Mais ou menos este. Tenho de me contentar com uma aproximação. Não acho que o meu cabelo seja daquela cor, mas é ela a especialista, e eu coloco-me nas suas mãos aceitando a sua escolha, avalizada. Vai então pintar-me o cabelo de uma cor “que é mais ou menos a minha”, mas, ressalva, o cabelo nunca fica bem da cor da melena do livro que é mais ou menos a minha. É o primeiro momento em que o castanho que ainda é o meu começa a perder nitidez e em que penso que talvez esteja prestes a despedir-me dele.

Nesse momento, o da pós-escolha, a colorista abandona-me e penso que talvez me devesse ter fotografado neste momento. Percorro o meu passado capilar em algumas fotos. Vejo-me num berço de grades na maternidade onde nasci, que hoje seria proibido, completamente careca; depois na minha foto ao colo do meu pai, que nessa altura usava um bigode à anos 1970, na Praia das Maçãs; eu adolescente na ilha de Faro, na primeira vez que passei férias sem os meus pais, cabelo castanho luzidio com nuances douradas dos dias de praia.

A colorista volta e, depois de me empapar o meu cabelo e de o esconder, coloca-me um cronómetro à frente, daqueles de cozinha, que apita quando o assado no forno já está pronto. Aqui sentada, à espera de que o meu cabelo acastanhe, participo num ritual com uma história muito antiga.

Sebo de cabra, cinzas e plantas

O antropólogo Justine M. Cordwell escreve, no ensaio As Artes muito Humanas da Transformação, que “talvez o corpo humano tenha sido a mais antiga superfície onde o homem aplicou tinta” e que a “preocupação humana com a aparência”, esta necessidade de nos “autodecorarmos” para atrasar o tempo ou para corrigir a natureza, é tão antiga como a humanidade. Tão universal é esta necessidade “que estamos quase tentados a considerá-la um instinto”.

Os antigos egípcios preferiam o preto. Mas não pintavam os cabelos directamente nas cabeças. Rapavam-nas e depois criavam perucas com os seus cabelos que ornamentavam e usavam para proteger as carecas do sol, descreve um artigo da revista americana Atlantic intitulado “Tinta para cabelo: uma história”.

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Por volta do século XII antes de Cristo, o preto perdeu peso. Começaram a usar-se plantas para colorir as perucas de vermelho, azul, verde, também se usava o pó de ouro para dar ao cabelo uma cor amarela. No Império Romano, as prostitutas tinham de se auto-sinalizar pintando o cabelo de amarelo, algumas embebiam os seus cabelos numa solução feita de cinzas de plantas queimadas ou nozes para atingir essa cor de forma química.

Plínio, historiador romano que viveu entre 23 e 79 depois de Cristo, descreve-nos, por seu lado, uma tinta vermelha usada pelos guerreiros germanos para tingir os seus cabelos, feita de sebo de cabra, cinzas e sucos coloridos de plantas, escreve Álvaro Santos em Beleza à Flor da Pele (Plátano Edições). Os antigos também coloriam os cabelos usando açafrão, anil e alfafa. Das tintas naturais, a hena continua a ser usada, ainda hoje, com esse fim.

O problema das tintas naturais era serem demasiado temporárias. Análises a amostras de cabelos de gregos e romanos mostram que se usava tinta preta “permanente” há milhares de anos, misturando substâncias que hoje se sabe que são óxido de chumbo e hidróxido de cálcio. Quando a aplicação directa do chumbo se demonstrou demasiado tóxica, os romanos passaram a produzir a sua tinta de cabelo preta através da fermentação de sanguessugas durante dois meses em recipientes de chumbo, descreve o artigo da revista Atlantic.

Mais à frente no tempo, o livro de dicas femininas Delícias para Senhora, publicado no início do século XVII, revela-nos, por exemplo, que o óleo de vitríolo era recomendado para colorir de castanho o cabelo preto, recomendando-se, contudo, que durante a pintura se evitasse “o contacto com a pele”. “Um conselho sábio, uma vez que hoje se sabe que o óleo de vitríolo se trata de ácido sulfúrico”, ironiza a autora da revista norte-americana.

No século XVIII já o louro tinha feito o seu caminho. Nessa altura, as mulheres venezianas espraiavam-se ao sol em terraços, com o seu cabelo ensopado em soluções corrosivas de lixívia para obter mechas de cabelo dourado.

A chegada à tinta industrial do cabelo foi acidental, continua o artigo da Atlantic. Imagine-se a desilusão quando o químico inglês William Henry Perkin, ali para meados dos anos 1800, descobriu a primeira tinta para cabelo sintética, quando tentava descobrir a cura para a malária.

No meu cabeleireiro, a campainha zune passados 30 minutos, mas é preciso secar o cabelo para saber de que castanho ficou. Mudam-me de cadeira rapidamente para a secção de corte  —  o cabelo ainda oculto sob a toalha  —, secam-no e a minha cabeleireira começa rapidamente a talhar-me o cabelo. Vejo as mechas a encherem-me o colo, num momento inicial fico feliz por já não ver brancos, os fios tombados uniformemente escuros, unos, mas não os reconheço. Se visse uma destas madeixas num catálogo à la carte não escolheria este meu cabelo como sendo meu. Mas depois tento desvalorizar a tristeza sentida. Será que alguém consegue reconhecer um seu próximo a partir de um catálogo de madeixas? Reconheceria eu o cabelo do meu pai? Da minha mãe? Dos meus filhos? A resposta provavelmente seria “não”. O cabelo não é assim tão reconhecível e único. Ou, pelos vistos, até é, porque a minha colorista não acertou com o meu e agora não sei que cabelo é o meu.

Sei que a cor com que fiquei não é a minha, este é um castanho mais escuro, quase preto, com uns brilhos estranhos que nunca tive. Chego a casa e tenho a confirmação: “O teu cabelo não é dessa cor.”

Mas fora de casa a minha mudança não é notada. Passaram-se poucos meses e os cabelos brancos, que parecem sempre mais fortes do que os outros, irrompem-me, de novo. Na indústria da coloração, o adjectivo “permanente” tem que se lhe diga, aplica-se aos fios de cabelo em presença no dia da pintura, porque o cabelo é todo ele impermanência e renovação. Uma cabeleira, e os seus 100 a 150 mil fios de cabelo, pode crescer a um ritmo de 0,5 milímetros ao dia.

Falta-me a disponibilidade para voltar ao cabeleireiro original, que fica fora de mão, e tento um cabeleireiro mais próximo, com a ambição de manter não o meu castanho mas o último castanho com que me pintaram, que é o que de mais próximo tenho do castanho inicial. Os catálogos devem ser todos iguais, pensei.

“O mais próximo que temos do seu é este”. “Mas isto parece ruivo”, “pois, mais próximo do seu cabelo só com reflexos de caju”. E eu fiquei, numa tarde de quarta-feira, com cabelo castanho e reflexos arruivados. E se até aqui tinha passado despercebido que eu tinha começado a colorar o cabelo... “Pintaste o cabelo? Estás diferente?”

É tudo o que não se quer ouvir. Porque toda a indústria da cosmética, toda a parafernália existe para nos fazer parecer, artificialmente, o mais naturais possível. O melhor elogio que nos podem fazer é a mudança não ser digna de nota. Um “ficou tão natural” é em si mesmo uma derrota, porque nos coloca já no terreno de uma boa imitação. Um anúncio americano dos anos 1940 ao champô de coloração Clairol vendia-se assim: “Clairol cobre o seu cabelo grisalho com tons tão verdadeiros e transparentes que rivalizam com a própria natureza.” Slogan: “Clairol mantém o seu segredo.”

Leio que até houve um tempo em que pintar o cabelo podia arruinar a reputação de uma mulher. Era coisa de starlet e coristas, mulheres fáceis, não era para mulheres respeitáveis. Chegou a haver salões de cabeleireiro com entradas traseiras para colorações feitas às escondidas, refere o artigo da revista Elle americana intitulado “Quando e como é que as mulheres começaram a pintar os cabelos brancos”. Imagine-se a revolução que foram, ainda na década de 1950, as tintas de trazer por casa. Mais ninguém precisava de saber. Para os homens, pintar o cabelo mantém ainda estatuto de crime social. Conheço um homem que mantém, ano após ano, um impecável preto antinatura, e que cada vez que o vai pintar manda fechar o salão de cabeleireiro.

Em vias de extinção

Como este meu último castanho não convenceu ninguém e o segredo deixou de o ser, decido que não volto ao cabeleireiro que me pôs a brilhar em tons de vermelho. Regresso ao cabeleireiro onde mais se aproximaram da minha cor para lhes pedir a referência daquele meu castanho, para poder andar com ela na carteira, como uma espécie de palavra-passe que me dá acesso ao que de mais próximo tenho do meu castanho original, e poder decidir onde o pinto. E espanto-me quando me respondem, ainda na recepção, em tom de coisa óbvia, que não me podem dizer qual é o meu castanho. Insisto, e dizem-me que isso está na minha ficha e que não revelam esses dados à cliente. Porque “isso seria como um chef revelar a receita de um prato secreto”.

O meu castanho torna-se assim uma fórmula confidencial. Obedecerá às mesmas regras do sigilo jornalístico? Do sigilo médico? Haverá um código deontológico das coloristas? Aqui me mantêm refém. Esperneio, mas é assim o mercado.

E volto, obediente, a sentar-me na mesma cadeira, com uma outra colorista que me vai tingir com a minha cor, porque tem acesso ao meu “historial”, o que me soa ligeiramente a cadastro.

Volto a tentar obter a referência do meu segredo, que a colorista segura num papelinho que tem na mão. Sinto que me compreende e que até gostaria de me ajudar, mas olha ao longe, um olhar que remete para o alto, e diz que nada pode fazer por mim, “só com autorização superior”. Está acima dos seus poderes de colorista.

Acede, contudo, a dizer-me que o meu castanho não é um, é a mistura de dois que ela amalgama numa tigela tipo sopa, num espaço à parte, escondida de mim, ao estilo alquimista.

E faz, também, mais uma concessão: pode dizer-me qual é o meu castanho-base. Não sei se revelo uma intimidade, mas o meu “castanho fundamental” é o número 5: castanho-claro. Só que o segredo completo tem mais dois números e o 5 de pouco me serve. Imaginem se fosse um cofre.

O segredo completo está nesse outro segundo ingrediente que se encontra, isso pode dizer-me, na página dos “marrons frios”. E logo aí me sinto injustamente catalogada. Porque é que não faço parte da página seguinte, a dos “marrons quentes” (escrito em italiano ainda soa melhor: “marroni caldi”)? Quem é que não quer ter um cálido cabelo “marron mel”, “castanho-violino, “moca”, “café, “marron-conhaque”, “marron-avelã”, “brownie”, “marron-caramelo” ou até “acajou-ardente”?

Conformada, percorro com a minha colorista a lista dos “marrons frios” com ar atento, a ver se lhe apanho um deslize e descubro se o meu será o “marron-tafetá”, o “marron-nacarado”, o “marron-chocolate”, o “louro-escuro-nacarado”, o “carvalho”, o “marron-cristalizado”, o “marron-mirtilo”, o “cristalizado”, “marron-glacê” ou o “marron-frapê” Nada atraiçoou a minha colorista.

As bolandas cromáticas do meu cabelo fizeram com que agora pense que o meu cabelo, o verdadeiro, está a desaparecer, porque o meu córtex já não produz melanina em quantidade suficiente para o ir mantendo da mesma cor, como uma impressora com falta de toner, que imprime umas linhas e deixa outras em branco. Só que eu não sei a referência do meu toner e é como se estivesse a gastar os últimos cartuchos. É como se houvesse uma luta invisível a decorrer na minha cabeça: os castanhos contra os grisalhos, os fios de cabelo que mantêm a minha cor versus os fios de cabelo onde a minha cor se ausentou. O meu castanho, uma cor em vias de extinção.

Se continuar a pintar o meu cabelo do castanho de cabeleireiro, corro o risco de nunca o voltar a rever. Para isso teria de deixar que ele crescesse de novo. Aqui está um dilema. Deixo crescer o cabelo, incluindo os brancos, e volto a ver que castanho é o meu para tentar nova aproximação? São vários os artigos que me informam de que há uma nova moda. Alguns títulos: “Sim, o grisalho pode ser glamoroso”, “Brasa em cinza: maravilhosos estilos de penteados prateados”, “O cabelo da avozinha está na moda”, “Como fazer furor como diva de cabelo grisalho”, “O cabelo grisalho é a grande tendência de cor em 2018”. Ou fico presa a esta aproximação ao meu castanho?

Em precisão de luz

À secção de cor chega uma nova cliente que se senta na cadeira ao meu lado, vê-se que é da casa, “ai Raquel, dê-me aqui uma luz”. Parece-me aquela frase demasiado mística para aquele contexto, mas a cliente continua, “quero aqui um brilho, dê-me luz, estou a precisar de luz”.

E eu, que sou toda queixume interior, calo-me e decido ouvi-la: “Preciso aqui de uma alegria.” A minha colorista assume naquele momento um poder que me parece divino, de, através da cor, conceder a alegria de viver que parece faltar a esta cliente de semblante carregado e raízes escuras. Basta-lhe nesta tarde sombria e chuvosa pintar de louro duas madeixas que segura com as mãos, “são estas”. Não tem, por ora, tempo para mais.

Decido interrogá-la sobre o poder de Raquel em conceder brilho. Esta cliente de cor não tem brancos, ou pelo menos nunca os viu, do que tem saudades é de quem foi. “Eu fui loura até aos 18 anos.” Nas raízes do seu cabelo, que há décadas pinta de louro, o castanho-escuro está a reconquistar terreno e ela quer por tudo afastá-lo da cara, ele que fique lá no fundo: “Junto à cara é que não. Ao pé da cara tem de estar claro. Modifica-me a cara, abre-me o olhar.” Bem sabe que o seu louro de catálogo não é o que era o seu. “Fico fascinada com miúdas de 18 anos com aqueles brilhos, um brilho que nunca volta. Não há tinta que reproduza a cor do cabelo, é impossível. O cabelo fica baço, não é real. Vê-se que é um cabelo pintado.”

Eu quero o meu castanho de há uns meses, esta cliente quer o seu louro dos 18 anos, só que já sabe, de antemão, que, de todas as vezes que aqui vem em busca de luz e brilho, ele nunca regressa bem ao que foi. Mas não deixa de sair dali transformada. “Para mim, funciona, dá-me alegria. Ela dá-me alegria.”

A mim não. “Descontente com a coloração do seu cabelo? Acontece. Não se deixe deprimir”, consola-me Isabel Queirós no seu livro Cabelo a Moldura do Rosto. Conselhos, truques e... segredos, que consulto de forma clandestina, uma vez que me encontro na solene sala de leitura da Biblioteca Nacional, e os cabelos são, como se sabe, um assunto menor. Camuflo-o com a Historia do Belo, de Umberto Eco, que se revelou inútil nesta minha pesquisa sobre cabelos, mas onde, a páginas tantas, leio que “Tomás de Aquino recorda que para a beleza são necessárias três coisas: a proporção, a integridade e a claritas, quer dizer, a clareza e a luminosidade”.

A minha colorista esclarece-me que a senhora em busca de luz não está isolada. Com a idade, as mulheres tendem a querer ficar cada vez mais louras. Diz-me que a opção de cor não tem que ver apenas com estética, mas sim com o poder que o louro tem, melhor do que os cabelos escuros, de camuflar os brancos. Mas será apenas essa a razão para tanta ânsia de louro a partir da meia-idade?

Um artigo do jornal francês Le Monde, intitulado “O fim das verdadeiras louras?”, informa-me de que um terço das europeias pinta o cabelo de uma nuance de louro, face a um rácio de uma em cada 20 mulheres que tem o louro como cor verdadeira. Há, no mesmo artigo, quem advogue que a fixação do louro tem que ver com a sua raridade. Numa experiência em que a vários homens era dada a hipótese de escolherem uma potencial esposa entre várias mulheres atraentes, eram-lhes mostradas três imagens: uma de seis morenas, outra apresentando uma morena e cinco louras, e uma outra com um conjunto de uma morena e onze louras. Resultado: quanto mais rara uma morena no conjunto, mais tendência tinha a ser escolhida face às louras. O que parecia reforçar a tese da raridade.

Já a escritora britânica Marina Warner é citada no artigo a dizer que “ser louro é lembrar a cor da infância, é entrar na conquista da juventude eterna”. E há que ter também em linha de conta “a força simbólica do louro como fruto de dois séculos de supremacia do mundo ocidental, depois das colonização e da expansão americana, com as suas ‘deusas platinadas’”. A minha colega de coloração diz-me que, para si, o louro representa, para além da sua própria juventude, “anjinhos barrocos e bombas sexuais”. O que procurava talvez esteja entre uma coisa e outra.

Já eu só queria que o meu cabelo castanho pintado se parecesse com o meu cabelo castanho não pintado. Quando chego a casa, dizem-me, de novo, “esse castanho também não é o teu”. No livro de Isabel Queirós fala-se de mulheres que “ousam” desde cedo pintar o seu cabelo e descobrir dentro de si “uma nova mulher”, notando que muitas dessas “novas mulheres não se recordarão já da cor original do seu cabelo”. 

Ao que tudo indica, daqui a uns dois meses voltarei ao mesmo cabeleireiro para me continuarem a pintar o cabelo de um castanho que mantêm prisioneiro, até chegar o dia em que eu e quem me é mais próximo não mais nos lembraremos do meu castanho primordial.