Opinião

Fazer grandes escolhas

O envelhecimento pode ser o tema de uma revista que se quer dedicada à beleza, ao bem-estar, ao luxo? Pode.

Cinco anos. A fotografia que vê aqui em cima tem cinco anos e picos. Se me vir passar na rua, o leitor dificilmente me reconhecerá. Hoje, a minha cara é mais redonda, pois as maçãs do rosto não resistiram à gravidade e ladeiam o queixo.

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Quando o jornal decidiu que os leitores deveriam associar um nome a uma cara, não mostrei qualquer objecção, mas confesso que me demorei na sessão. “Não se vê o duplo queixo?”, insistia com o fotógrafo Enric Vives-Rubio, e espreitava para o ecrã da câmara, só para confirmar. Agora, não valeria a pena insistir, nem esticar o pescoço e baixar os ombros, porque lá está, à vista de toda a gente, a herança da minha bisavó, da minha avó, da minha mãe e, infelizmente, a que deixarei à minha filha.

O envelhecimento pode ser o tema de uma revista que se quer dedicada à beleza, ao bem-estar, ao luxo? Pode. A ideia não surgiu quando estava em frente do espelho a ver as rugas de expressão a serem vencidas pelas permanentes, mas sim a partir da notícia de que Isabella Rossellini, 23 anos depois, voltaria a ser a cara da Lancôme porque as consumidoras não se revêem em rostos jovens a vender cremes anti-rugas. E se juntarmos na capa três mulheres que envelheceram à nossa frente?, lancei o desafio. Mulheres com idades e com experiências de vida diferentes. Um trio improvável? O repto foi aceite pela Bárbara Reis, que conseguiu a hercúlea tarefa de conciliar agendas de uma ex-primeira-dama, uma cantora e uma modelo internacional. Numa longa tarde no Teatro São Luiz, em Lisboa, a conversa fluiu e houve partilha de memórias, de expectativas, de medos e dos seus segredos para envelhecer bem – a importância de chorarmos e rirmos, sublinham. Em suma, de sermos felizes.

Mas como posso ser feliz quando não sei o que fazer com os óculos? Ora os encavalito no nariz, ora olho por cima deles. O que é feito da minha visão fantástica?, irrito-me, sempre me orgulhei de ler as letras todas na tabela na consulta de oftalmologia. Há uns meses, a mesa de jantar ficou gelada quando a jovem namorada de um amigo, uma futura optometrista com pouco mais de 20 anos, debitou a matéria dada e nos disse que era natural perdermos a visão a partir dos 40... “Sim, nós sabemos”, respondeu a maioria, descontente, que usa truques como aumentar o tamanho da letra no smartphone para evitar puxar dos óculos de ver ao perto. 

O Elixir da Eterna Juventude faz cada vez mais sentido, mas, ao contrário de Sérgio Godinho, não me pergunto se “escolho o baço ou o almoço”, mas, sim, se escolho o fígado ou as farturas, os pastéis de nata, as filhoses. Tenho optado mais vezes pelo fígado... “Quero ser para sempre jovem”, canta Godinho, e não é o único. Fazemos de tudo para que os anos não levem o que temos de melhor. Por exemplo, a Catarina Gomes foi até ao cabeleireiro na tentativa, mal-sucedida, de encontrar o castanho do seu cabelo; já a Susana Pinheiro foi até às termas, no continente e nos Açores, para descobrir que há cada vez mais público que procura as águas termais porque mais vale prevenir. É lá que, além dos tratamentos, fazem massagens, caminhadas, passeios de bicicleta e respiram muita, muita natureza – sempre com o propósito de agarrar a juventude por mais tempo.

Mas a morte é inevitável e é preciso sabermos vivê-la, como testemunha a Sandra Barão Nobre numa homenagem aos seus avós e que nos lembra aqueles que nos deixam saudades e que continuam a viver nas nossas palavras. O medo da morte leva a que muitos persistam na procura de maneiras de fintar o fim, como nos revela o João Pedro Pereira sobre os gurus da tecnologia que gastam rios de dinheiro à procura da imortalidade, e que recorda uma frase de Steve Jobs: “A morte é muito provavelmente a melhor invenção da vida. Lembrar-me de que todos estaremos mortos em breve é a ferramenta mais importante para me ajudar a fazer as grandes escolhas na vida.”

Esqueçamos as rugas e façamos pois grandes escolhas!