Análise

Identidade partidária não é essencial nas relações com Espanha

Foram Cavaco e González, um conservador e um socialista, que tornearam escolhos bilaterais com mestria

A identidade política do primeiro-ministro português e do presidente do Governo de Madrid não foi determinante para as relações dos dois países nas tradicionais cimeiras. Se a volatilidade da política de Espanha não consumir o mais recente líder do outro lado da fronteira, Pedro Sanchez, é com o seu colega socialista que António Costa reunirá no 30º encontro ao mais alto nível.

Na história das 29 cimeiras, há um marco ilustrativo de que não pertencer à mesma família política não é óbice. Foi em 25 e 26 de Outubro de 1986, na cimeira de Guimarães, entre Cavaco Silva e Felipe González, que se lançou a semente de encontros bilaterais regulares, com preparação de agenda e a presença de vários ministros.

A escolha da cidade minhota não foi um acaso como, recentemente, precisou o embaixador António Martins da Cruz, assessor diplomático de Cavaco: foi para destruir fantasmas. Parece um paradoxo convocar o parceiro peninsular para a cidade símbolo do país, mas na verdade era mais importante o futuro do que reivindicar o passado. Em cima da mesa estavam a construção europeia, os fundos comunitários e uma aproximação dos dois países na cena internacional. A Espanha ainda aparecia como o maior país dos mais pequenos da adesão.

Foram Cavaco e González, um conservador e um socialista, que tornearam escolhos bilaterais com mestria: a entrada da banca espanhola em Portugal, primeiro do Banesto no Totta, viria a ter como contrapartida a abertura do autárquico mercado bancário de Espanha à pública Caixa Geral de Depósitos. Pouco importa se o destino dos investimentos foi díspar, aos políticos coube a iniciativa de desbravar caminho.

Sinal da estabilidade política reinante nos anos 80 e 90 do século passado, Cavaco e González reuniram-se por oito vezes, entre 1986 e 93, anos fundamentais de afirmação em Bruxelas. O espanhol com 12 presenças e o português com oito são os dirigentes com maior número de cimeiras. As outras quatro de González repartiram-se com António Guterres e Mário Soares, embora com este num formato diferente do actual.

Não pertencer à mesma família política não impediu manter laços de bom entendimento pessoal, como ocorreu com Guterres e José Maria Aznar, numa aproximação fruto das vicissitudes familiares do primeiro-ministro português. Com Durão Barroso, Aznar reivindicava um ascendente tornado evidente quando, em 2003, avançou com as Lajes para a cimeira dos Açores anterior à invasão do Iraque.

Ter a mesma orientação política terá aplanado dificuldades na relação de Rodriguez Zapatero com José Sócrates, que avançaram com o Laboratório de Nanotecnologia de Braga. Zapatero e Sócrates encontraram-se por quatro vezes, tendo ainda o espanhol mantido uma cimeira, em Outubro de 2004, com Santana Lopes.

A crise económica internacional adiou as reuniões de 2010 e 2011, alterou os temas da agenda e introduziu novos protagonistas. Passos Coelho e Mariano Rajoy foram do Porto a Vidago, de Madrid a Baiona, com as experiências das respectivas austeridades. Que atrasaram planos, como as sempre inacabadas ligações transfronteiriças.

Há dois anos, salto no calendário: a crise espanhola inviabilizou a cimeira de 2016, tendo António Costa e Rajoy reunido, em Maio de 2017, em Vila Real. Na agenda, a cooperação no gás natural, que já vinha de Badajoz, em 2006, e um plano para estender até aos 25 quilómetros de ambos os lados da fronteira a cooperação na luta aos incêndios. A questão de Almaraz ficou fora da agenda.

Resta saber se, aquando do encontro dos socialistas Sanchez e Costa, ainda não marcado e cuja realização cabe a Espanha, a proximidade política abrirá o debate nas questões ambientais, dos rios à exploração de urânio em Salamanca, passando pela vetusta central nuclear da Estremadura. A polémica de Aldeadávila foi em 1987, com Cavaco e González, e Lisboa venceu na esgrima.