Crítica

A sociedade actual num espelho baço

As personagens de Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos são gente comum em vidas melancolicamente triviais. Onze contos em que Mário de Carvalho escarnece do actual padrão social.

Há o ritmo e algum desconforto no riso que tudo provoca a quem lê
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Há o ritmo e algum desconforto no riso que tudo provoca a quem lê ENRIC VIVES-RUBIO

As personagens dos 11 contos que compõem o novo livro de Mário de Carvalho são, sobretudo, burgueses e aqui, por burguês, talvez se deva entender gente comum, conforme a um padrão; gente fora da margem, pouco desafiadora de convenções sociais — a não ser muito secretamente, muito intimamente; gente que questiona pouco, gente banal com quotidianos mais ou menos iguais, um desejo de conforto e apreciação. Gente que, mais ou menos, pode ser cada um de nós, ou talvez nem tanto. Dessa perspectiva, em Burgueses Somos Nós Todos ou Talvez Menos, o escritor olha-os/nos e ficciona-os/nos à luz de um poema do então muito jovem Mário Cesariny, Litania Para Os Tempos de Revolução, que contém uma ironia que se assume inspiradora para Mário de Carvalho: “Burgueses somos nós todos/ ou ainda menos./ Burgueses somos nós todos/, desde pequenos”. Escrito nos anos 40, faz parte do livro Nobilíssima Visão que o poeta surrealista publicou em 1959 e onde falava, no essencial, da vidinha, o real do dia-a-dia na vida de gente com pouco que contar.

Esse é o desafio arriscado. Como escrever sobre esse quotidiano de pouca acção onde o enredo tem lugar secundário face à forma de o contar, ou seja, onde o ambiente, as circunstâncias, os estados de alma merecem mais atenção do que o que se poderia chamar de trama ou mesmo desenlace, porque já sabemos que no fim se morre e irá certamente haver uma doença e, se não for doença, haverá uma traição? Enfim, o comum com algumas peculiaridades. E isso na vida de uma cidade, Lisboa, com pessoas de classe média, média alta, homens e mulheres, em teias urdidas de forma a que haja espaço para silêncio e perplexidade de modo a que o leitor as possa complexificar com a sua própria experiência. E ele, o leitor, está convocado para isso desde o início pelo próprio autor, numa espécie dedicatória. “A autoridade autoral (passe o étimo pleonástico) tem limites. Mas vós haveis de levar o texto a vastidões que o autor nem vislumbrou. Fareis deste livro o que ele vier a ser. A tal burguesia, sabe-se lá, poderá, afinal, ter os seus encantos...”   

E, dito isso, burgueses e abjectos, somos, pois, todos nós ou ainda menos no provocador jogo de espelhos que o título propõe, ou pressupõe, e que está implícito nos contos, todos percorridos por uma ironia mais negra do que aquela a que Mário de Carvalho já habituou quem o lê. No primeiro, a amante de um recém-viúvo cheio de culpa entrega-lhe os diários que a mulher dele lhe confiou justamente a ela. Nesses cadernos, ela escreve sobre homens com quem se envolveu, semente para uma paranóia em crescendo onde se questiona a intenção e o conteúdo de tais escritos com o homem a embarcar numa investigação enlouquecida para descobrir quem foram esses amantes e a razão daquela “agressão póstuma tão perversa”. Noutro, um homem, também recém-viúvo, propõe-se reencontrar as suas oito melhores amigas, no regresso ao seu país que é também a tentativa falhada de um ilusório regresso à juventude, as crises de sexualidade, o homem que estranha encontrar-se num almoço de antigos colegas de liceu, outro que contrata pela primeira vez uma prostituta aos 64 anos; alguém que vê os últimos dias de um amigo, e outro ainda que vai a um funeral peculiar, o da ex-mulher, e só por isso a peculiaridade, porque os funerais são trivialidades na vida de um homem de certa idade bem como a paisagem que os circunda. “Luz pungente a dar-lhe, pertinaz agressão do branco, os recortes, vistos ao longe, teia de linhas cinzentas em quebradas geometrias. Agora, a surpresa da franja abatida dum anjo a chorar numa esquina, uma proclamação republicana — falta-lhe uma letra — escondida numa frontaria, a reboada de solas, tosses, rumorejos, dando tempo ao tempo e ao bocejo, já que não se pode dar à eternidade. Cumprido pois o rito, uma e outra vez. Deveria era ser ele mais espaçado nesta altura da vida, cada funeral em sua alínea, chavetas bem arrumadas, para que as pedras e as figuras, os mortos e os vivos não se confundissem tanto. E cada qual fosse tratado como o ser especial e único garantido em todo o nascimento.”

São histórias de médicos, engenheiros, professores, todos às voltas com o desencanto, a amargura, a traição, o tédio e o cinismo. Casais com pouco assunto e a ganância dos filhos na hora da morte; gente em crise como a de que falava o poema de Cesariny, em narrativas perpassadas por uma melancolia quase permanente que torna o tal humor, ou sarcasmo, mais sombrio e que é o verdadeiro filtro para ler estas histórias comuns de gente mais ou menos comum, gente conforme, convencional que Mário de Carvalho descreve no estilo que aqui nunca se confunde com outro: a linguagem, a escolha de cada palavra para que seja a certa e tudo se ajuste só por causa dela, há o ritmo e algum desconforto no riso que tudo provoca a quem lê.