Sánchez anuncia governo socialista e já conta com a oposição dos que o puseram no poder

Novo executivo será "paritário e europeísta", diz o líder do PSOE. E terá muitas dificuldades em conseguir apoios no Parlamento.

Pedro Sánchez, Mariano Rajoy, Espanha, primeiro-ministro da Espanha
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O cumprimento de Sánchez a Iglesias no Parlamento, depois da votação JJ GUILLEN/EPA

A frase é da maior aliada de Mariano Rajoy, a sua vice-presidente Soraya Sáenz de Santamaría: “Já começou a festa”, disse nos corredores do Congresso, citada pelo jornal El Mundo. Santamaría referia-se aos cinco vetos à Lei do Orçamento Geral do Estado registados esta sexta-feira por cinco partidos que votaram ao lado do novo primeiro-ministro, o socialista Pedro Sánchez.

Ora, o líder do PSOE e agora do país já dissera que vai cumprir o Orçamento aprovado pelo PP para 2018, o mesmo que descreveu como “um ataque ao Estado de bem-estar” e uma chantagem do PNV, os nacionalistas bascos que votaram ao lado de Rajoy e depois ajudaram Sánchez a derrotá-lo.

Naturalmente, não vem do PNV nenhum dos vetos ao Orçamento: Podemos, PDeCAT (Partido Democrata Europeu Catalão, do ex-líder da Generalitat, Carles Puigdemont), ERC (Esquerda Republicana da Catalunha), Compromís (coligação que inclui o Podemos em Valência) e EH Bildu (bascos pró-independência) foram os partidos que votaram ao lado do PSOE na moção de censura que destronou Rajoy e o levou ao poder, horas antes de registarem esses vetos.

A oposição destes partidos ao Orçamento não terá consequências práticas – o PP já confirmou que mantém a sua aprovação –, mas dá o tom para as dificuldades que esperam o novo chefe de Governo. Como afirmou o veterano Joan Tardà, porta-voz da ERC no Congresso, os votos do seu partido não foram a favor de Sánchez, mas sim “contra” Rajoy.

Pablo Iglesias e o seu Podemos, essenciais para garantir o sucesso da moção de Sánchez, negociando e confirmando apoios nos bastidores, ofereceram-se para integrar o próximo executivo. O abraço entre Iglesias e Sánchez, no fim da votação, podia ser um símbolo para o futuro. Mas o líder do PSOE “agradece e recusa”, optando por formar um governo “inteiramente socialista e paritário” (algo que só José Luis Rodríguez Zapatero conseguiu, em 2004, com oito ministras em 16).

“Espanha necessita de um governo estável e é muito difícil dar estabilidade a um governo com 84 deputados”, afirmou Iglesias, numa espécie de inversão de papéis – afinal, é o líder do Podemos, partido que tantos temem pelo seu suposto radicalismo, a bater na tecla da estabilidade, enquanto Sánchez, à frente de um partido com décadas de história, aposta num cenário mais arriscado.

Para além de “socialista e paritário”, Sánchez, que toma oficialmente posse este sábado às 12h, promete um governo “europeísta, garante de estabilidade orçamental e económica e cumpridor dos seus deveres europeus”. Nada disto se antecipa fácil, principalmente se lhe juntarmos as promessas de “reconstruir” consensos sobre o Estado social, que diz terem sido “destruídos”, a recuperação do carácter universal do acesso ao sistema de saúde pública e uma lei que assegure a igualdade de género no trabalho.

Mais complicado ainda será fazer isto tudo enquanto tenta resolver a crise catalã. Sánchez garante que não prometeu nada a nenhum partido em troca de votos (não precisava, a vontade de derrubar Rajoy aliada ao interesse em adiar eleições do PNV chegariam). Mas ofereceu diálogo a Barcelona sem abdicar um milímetro na questão da independência. Já se sabe que a proposta socialista é próxima da do Podemos e implica uma Espanha federal – e que os independentistas não têm nada contra, querem é um referendo em que surjam todas as possibilidades.

Seja como for, onde as questões nacionalistas se colocam com mais urgência, na Catalunha e no País Basco, os socialistas estão muito mais bem colocados para as discutir do que estavam os populares. A imprensa catalã aposta até que o líder do PS da região, Miquel Iceta, volte a Madrid (já foi deputado no Congresso e responsável do Gabinete da Presidência nos anos 1990), talvez até como vice-presidente.

"Nada será fácil"

Sánchez disse que em democracia a corrupção não é uma banalidade e acertou, como acaba de se ver. A corrupção, defendeu, cria instabilidade. Governar exige um pouco mais e ele já admitiu que “nada será fácil”. O PSOE conseguiu juntar deputados suficientes para derrubar Rajoy, mas, tal como o PP, está num momento de mínimos históricos nas sondagens. Algo que esta moção tenderá a inverter, já que o apoio a Rajoy na questão catalã lhe custou apoios.

Não falta quem enterre o seu Governo, antes mesmo de este anunciar os seus ministros – durantes uns dias, Sánchez vai governar com os ministros de Rajoy. Para além do PP e do Cidadãos (Albert Rivera jogou mal ao apostar que esta moção não passaria e que acabaria por conseguir provocar eleições antecipadas), sobram textos de comentaristas.

“Tentar governar sem apoios ou, pior, com apoios contraproducentes, é uma imprudência”, escreve o diário El País num editorial intitulado Um Governo inviável. Para o mesmo jornal, Sánchez era um líder politicamente morto em 2016. Renasceu. Quem sabe o que mais conseguirá.