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Sánchez já ganhou, agora falta o mais difícil

Rajoy cai por fim e é a corrupção e o líder de um partido em quarto lugar nas sondagens que o derrubam.

Chegou a ser dado como morto político, depois da decapitação organizada pelos barões socialistas no final de 2016, expulsando-o da liderança por ousar escolher o Podemos, de Pablo Iglesias, à abstenção para permitir a Mariano Rajoy continuar à frente dos destinos de Espanha. A vingança demorou mas chegou: Pedro Sànchez soube aproveitar na perfeição as consequências de uma sentença de corrupção que deixou Rajoy numa situação insustentável.

A “contabilidade paralela”, as confissões do ex-tesoureiro Luis Bárcenas, entre outros processos, e as suspeitas sobre a cúpula do PP arrastavam-se nas notícias e nas conversas desde o primeiro mandato dos conservadores. Mas Rajoy usou a maioria absoluta que obteve em 2011 como escudo contra tudo e contra todos. Recusou ir ao Congresso responder por este e outros, tantos, casos de corrupção que envolviam o seu partido. Queria, podia e mandava.

Mesmo agora, com a sentença do caso Gürtel, que condenou o próprio Partido Popular como agente da corrupção, Rajoy pensou que tinha tempo. Afinal, o PSOE de Sánchez nunca esteve tão mal nas sondagens (surge em quarto lugar) e não interessaria ao líder socialista ir a votos. Ao mesmo tempo, Albert Rivera, líder do Cidadãos (direita liberal), grande vencedor da crise catalã entre os anti-soberanistas, via-se a liderar inquérito atrás de inquérito e desejava eleições o mais depressa possível sem aliados para as conseguir provocar.

Sánchez fez aquilo que nenhum outro líder espanhol conseguira: derrotou no Parlamento um primeiro-ministro, reunindo apoios suficientes para fazer aprovar uma moção de censura. Isto, sem os votos do C’s. Teve a coragem que poucos lhe reconheciam. Teve o apoio do Podemos e o abraço de Iglesias, mais os votos dos nacionalistas catalães e bascos. Agora, recebe os parabéns dos mesmos barões que o derrubaram há menos de dois anos.

A corrupção provocou, por fim, mossa. Parecia estranho que não fizesse. Mas Rajoy era um sobrevivente que se fingia de morto a cada crise, conseguindo passar sempre entre as gotas da chuva. Faz sentido. Afinal, o PP perde eleitores de forma mais ou menos constante desde que o tradicional bipartidarismo espanhol foi destroçado pela irrupção do Podemos e pela entrada do C’s na corrida nacional (o partido nasceu na Catalunha para combater o independentismo). Mas se o PP estava em declínio, Rajoy era a cola que o mantinha unido, como admitiam os seus dirigentes.

Não havia quem o substituísse e Rajoy tinha como grande virtude “a doutrina da resistência passiva”, descrevia em Janeiro o colunista Rubén Amón (El País). Ao mesmo tempo, antecipava Amón, o primeiro-ministro estava numa situação cada vez mais frágil e podia, sem saber ou, simplesmente, recusando ver, ter passado de ser “a virtude do PP” para ser o seu “grande problema”.

Esta sexta-feira, Sánchez provou isso mesmo, derrubando Rajoy e deixando o PP em crise profunda. Resta saber como se sai agora o socialista. O mais fácil foi, afinal, derrubar Rajoy. Governar, em minoria, como diz pretender, ou com o apoio do Podemos, será o mais difícil. A Catalunha não se vai resolver por milagre. O resto dos problemas dos espanhóis, como o desemprego ou os preços da habitação, também não.