Opinião

A Nakba

Nos dias de hoje assistimos à libertação da palavra que não hesito em qualificar de antissemita. Israel tornou-se o judeu das nações. Outra vez?

Para quem tenha estado desatento, principalmente no momento em que tanto se fala de Gaza e do “massacre” por parte de Israel, a palavra Nakba significa tragédia, catástrofe, em árabe. É a designação associada à partilha da Palestina pelas Nações Unidas em 1947, seguida pela criação do Estado de Israel e ao subsequente êxodo de cerca de 700 mil árabes da Palestina. Mas para além do qualificativo, importa perceber quais as razões deste êxodo massivo.

Para certos comentadores, tratou-se muito simplesmente de uma expulsão, de “uma limpeza étnica” programada de antemão pelo sionismo “racista e colonialista”. Mas na realidade, depois da recusa árabe da partilha da Palestina decidida pela ONU, as populações árabes palestinianas privadas de uma direcção politica e militar remetem-se nas mãos dos exércitos dos Estados árabes. Com efeito, na época não existe nenhuma instituição representativa dos árabes da Palestina.

A razão é simples: durante todo o período do Mandato Britânico, é o pan-arabismo que está no centro da luta contra o sionismo. Para o movimento nacionalista árabe, a Palestina é a parte sul da Síria. Em nenhum momento se coloca a questão de um Estado palestiniano. Em nenhum momento os dirigentes árabes, apesar de largamente maioritários no quadro das fronteiras do Mandato Britânico na Palestina, tentam criar estruturas de um futuro Estado árabe na Palestina. Em 1947, na ONU, opondo-se à formação dos dois Estados, o delegado do Alto Comité Árabe dirá: “A Palestina faz parte da Província da Síria (...) politicamente, os Árabes da Palestina não são independentes ao ponto de formar uma entidade politicamente separada.” Esta convicção é tão profunda que ainda em 1956, Ahmed Choukeiry, que fundará a OLP em 1964, declara: “É do conhecimento público que a Palestina mais não é do que a Síria do Sul.”

Assim, será a própria guerra que tinha como fim impedir a formação do Estado judaico que acabará por levar ao êxodo de centenas de milhares de árabes. Este começa em Dezembro de 1947 e, em Março de 1948, escreve o historiador Benny Morris: “Com a fuga de uma parte das classes superiores e médias de cidades como Haifa e Jafa destinadas a fazer parte do futuro Estado judaico (...). Esta fuga das elites contagia e atinge as comunidades rurais.”

A imprensa da época comprova-o: o jornal jordano Filastin escreve a 19.5.1949: “Os Estados árabes encorajaram os árabes da Palestina a deixar temporariamente as suas casas para não perturbar o avanço dos exércitos árabes.” Mahmud Darwich, poeta nacional palestiniano, também confirma esta versão dos factos: “Para os meus pais, a nossa estadia no Líbano era temporária; estávamos de visita ou em passeio. Na época tinham recomendado aos palestinianos que deixassem a sua pátria para não atrapalhar o desenvolvimento das operações militares árabes que deviam durar apenas alguns dias e permitir o nosso rápido regresso. Os meus pais descobriram rapidamente que essas promessas não passavam de sonhos ou ilusões.”

O abandono da Palestina pelas elites árabes e o incitamento dos Estados árabes junto das populações árabes da Palestina para saírem temporariamente do país são factos históricos. Mas não esgotam as suas causas: o Exército israelita também levou a cabo a expulsão de árabes da Palestina em zonas consideradas estratégicas do ponto de vista militar, nomeadamente vias essenciais de comunicação e zonas fronteiriças. Segundo Benny Morris, estas expulsões atingem 5% do total de refugiados.

Em 1949, Ben-Gurion aceita o regresso de 100.000 pessoas, mas é confrontado com a recusa lapidar dos Estados árabes que, mesmo depois da sua estrondosa derrota na guerra por eles próprios desencadeada, continuam a proclamar a ilegalidade fundamental do Estado judaico e a sua total destruição ao mesmo tempo que exigem a readmissão total e incondicional de todos os refugiados. Pressionado por todos os lados, incluindo pelos americanos, Ben-Gurion clama que no limite poderão destruir Israel, mas não obrigar o país ao suicídio... porque é disso que se trata. A Resolução da Conferência dos Refugiados Árabes em Homs, na Síria, a 11 de Julho de 1957, é cristalina: “Qualquer discussão para uma solução do problema palestiniano que não seja baseada sobre o direito dos refugiados de destruir Israel será considerada como uma profanação do povo árabe e como um acto de traição.” Em 1960, o Presidente Nasser dirá: “Se os refugiados regressarem a Israel, Israel deixará de existir”...

Esta será a essência da política dos Estados árabes para quem os refugiados serão a arma ideal contra Israel, impedindo a sua integração nos seus próprios países e bloqueando sistematicamente todos os projectos da UNRWA escalonados entre 1949 e 1959 destinados a conferir uma base económica própria aos refugiados. É o próprio director da organização, Ralph Galloway, quem o afirma cruamente em Amã, em 1951: “Os Estados árabes não desejam resolver o problema dos refugiados. Querem mantê-lo como ferida aberta, uma afronta às Nações Unidas e uma arma contra Israel. Que os refugiados vivam ou morram, é a última das preocupações dos líderes árabes.” As consequências desta politica far-se-ão sentir duas décadas mais tarde: nos campos em que são mantidos como párias, vivendo da caridade internacional e onde se multiplicam com estatuto de refugiados por gerações sucessivas, nascerá um nacionalismo palestiniano alimentado pelo ressentimento e pelo ódio...

No quadro da vitória fulminante na Guerra dos Seis Dias, guerra que nunca desejou, Israel conquistou a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, que desde 1949 estavam nas mãos da Jordânia, e Gaza, até então pertencente ao Egipto. É bom lembrar que na resolução 242 das Nações Unidas aprovada em Novembro de 1967, pedindo a Israel para se retirar de territórios recentemente ocupados, as palavras “Palestina” e “Palestinianos” não constam do texto da resolução. Os territórios a devolver tinham como destinatários os países aos quais tinham sido conquistados e não a um eventual Estado palestiniano...

Devia Israel ter saído unilateralmente dos territórios árabes? Talvez com isso tivesse conquistado a simpatia da opinião pública mundial, mas não certamente a dos países árabes nem da OLP, cujo ódio e ressentimento duplicaram com a humilhante derrota. Logo no primeiro dia de Setembro teve lugar a cimeira de Karthoum, na qual é reafirmada a posição dos países árabes e da OLP fundada em 1964: “Não à paz com Israel, não ao reconhecimento de Israel, não à negociação com Israel.” Face a este impasse, Israel foi-se habituando progressivamente a um status quo que de provisório se tornou permanente. Começa assim lentamente a instalação judaica nos territórios para além da “linha verde”, alimentada pela radicalização árabe e palestiniana, pelo sentimento de insegurança israelita e pelo despontar de um nacionalismo messiânico apologista da instalação judaica no berço do judaísmo bíblico: a Judeia-Samaria. Enquanto estes três ingredientes não forem ultrapassados por ambas as partes, as tragédias como a que acaba de acontecer em Gaza continuarão.

Mas para todos os que criminalizam Israel é preciso relembrar que a retirada unilateral de Gaza em 2005 decidida por Ariel Sharon teve apenas uma consequência: a vitória do grupo terrorista Hamas nas eleições para o parlamento palestiniano em 2006, que depois de expulsar a Autoridade Palestiniana do território mantém a sua população refém do seu ódio e determinação em aniquilar Israel. Uma organização terrorista que não hesita em utilizar a sua população como alvo para deslegitimar Israel aos olhos do mundo.

A morte de vidas humanas causada pela resposta do Exército israelita à provocação do Hamas indignou a “comunidade internacional”. Mas estranhamente esta não se questiona como é possível uma mãe levar um bebé de dois meses a manifestações violentas mesmo depois dos sucessivos alertas do Exército israelita. Uma União Europeia que não tem uma palavra contra o Hamas e que, em nome de um processo de paz inexistente, prefere o status quo que eterniza o conflito entre as partes. Que não entende que a vitimização que dura há 70 anos apenas prejudica as suas “vítimas” e que não há reconhecimento internacional capaz por si só de edificar um país. E, finalmente, que a pior arma escolhida pelas boas consciências sempre em paz consigo próprias é o boicote absurdo precisamente à consciência mais crítica de Israel, como são os seus académicos, escritores, artistas e pensadores.

Nos dias de hoje assistimos à libertação da palavra que não hesito em qualificar de anti-semita. Israel tornou-se o judeu das nações. Outra vez?