Willa Cather, Novelist
Bettmann

A matéria-prima que pode fazer um país

Escreveu sobre a fronteira americana nos anos de expansão como nunca antes se havia escrito. Quis afirmar-se longe do imaginário feminino da época em que viveu, mas as mulheres foram as suas heroínas. Caso de Ántonia, a protagonista Minha Ántonia, livro que marca a edição — espera-se agora com regularidade — da sua obra em Portugal.

O nome Ántonia evoca um país, ou melhor, a matéria-prima que pode fazer um país. E isso, por sua vez, é também a matéria de que é feita a obra de Willa Cather (1873-1947), escritora que explorou a fronteira de um país ainda em construção. Ántonia (assim mesmo, grafado na primeira sílaba) é uma “rapariga boémia” [da Boémia] que, como Willa, cresceu na pequena cidade de Red Cloud, Nebraska, e é a protagonista de um dos seus mais celebrados romances, Minha Ántonia, original de 1918 só agora publicado em Portugal, cem anos depois, quando a sua criadora continua a ser por cá pouco mais do que uma desconhecida. Cather deu a Ántonia a bravura e a nostalgia, a perseverança e o sentido de sobrevivência, bem como a coragem para o desafio de costumes que a transforma numa metáfora.

Não estamos em território autobiográfico, mas a autobiografia está presente. Crescer nas vastas planícies, ou pradarias, da América do Norte moldou o carácter e a literatura de Cather. Na introdução a Minha Ántonia há uma conversa sobre isso: o que é estar, por exemplo, sujeito “a estimulantes extremos climatéricos”, “verões abrasadores em que o mundo fica verde e encapelado debaixo de um Sol brilhante, em que ficamos praticamente soterrados sob vegetação, com uma cor e odor a ervas daninhas pungentes e a colheitas fartas; invernos ventosos com pouca neve, em que toda a região fica despida e cinzenta como o ferro laminado”. Neste mundo, povoado por índios e imigrantes europeus que chegavam para trabalhar a terra e conquistar território a Oeste, Willa Cather encontrou a matéria-prima para a sua literatura. 

Nesse mundo, a que se chegava de uma longa viagem de comboio, vindo de Leste, no final de mil e oitocentos, início de novecentos, o Nebraska continuava a ser “o dia inteiro” o Nebraska, lê-se em Minha Ántonia sobre o dia em que Jim Burden chega a Red Croud vindo da Virginia onde vai viver com os avós numa quinta no sopé das montanhas Blue Ridge. É então que depois do comboio muda para uma carroça e os 30 quilómetros seguintes lhe mostram a evidência onde se sustenta todo o livro, que é também sobre a construção de um país: “Não havia nada excepto terra: não era uma região, mas o material a partir do qual se formam regiões.” Ali, pensa o pequeno Jim, não havia nem lei nem Deus e “o que tivesse de ser, seria”.

Eis o universo literário desta mulher que escreveu o que nenhuma outra escrevera: sobre os desperados, os agricultores que chegavam da Europa pobres e dispostos a tudo em troca de um pedaço daquela muita terra; os pioneiros de um novo país, os lugares de fronteira com tudo o que isso representa ainda na mitologia americana.

Como Jim, também Willa um dia chegara da Virgínia, onde nasceu em 1873, a filha mais velha de uma família de oito irmãos descendentes de imigrantes galeses, e foi viver com os pais para uma quinta junto às montanhas Blue Ridge. “Ao olhar em redor, tive a sensação de que a erva era a região, da mesma maneira que a água é o mar”, sentiu Jim, certamente como terá pensado Willa, a rapariga que seria professora e depois colunista de uma revista e mais tarde editora de outra, em Nova Iorque, até se despedir para escrever um romance como Henry James, o seu herói literário. O livro chamava-se Alexander’s Bridgetown e foi um falhanço. Ela tinha 39 anos e decidiu seguir o conselho que lhe deram: que não escrevesse sobre a alta sociedade e os seus casos de paixão e traição, mas sobre o que conhecia. E ela sabia melhor do que qualquer escritor o que era a vida na pradaria americana. 

Viveu em Blue Ridge só o tempo de o pai se cansar de cultivar terra. Um ano e meio. A família mudou-se então para a cidade mais próxima, Red Cloud, junto à fronteira que agora separa os estados do Nebraska e do Kansas. É uma cidade de menos de mil habitantes onde mais nada de importante  parece ter acontecido desde que lá viveu — e aprendeu a ler já adolescente — Willa Cather antes de se mudar, primeiro para Pittsburgh, Pensilvânia, e depois para Nova Iorque.

As heroínas 

Era uma mulher independente, formada em inglês pela universidade do Nebraska, capaz de se sustentar, um feito, tendo em conta a ruralidade de onde era originária o que complicava  qualquer tipo de ambição feminina que não fosse ser mãe de família, religiosa, professora de colégio interno ou tia. Era uma pioneira nas letras como muitas das mulheres que criou foram na vida dos lugares onde viveram. Fosse Alexandra Bergson, a dona da quinta em O Pioneers! (1913) — livro que, a seguir ao fracasso da estreia, lhe mostrou o seu caminho; Thea Kronborg, a soprano de The Song of Lark (1915) ou esta Ántonia Shimerda, de Minha Ántonia, livro que completa a trilogia de fronteira de Cartier e com o qual a Relógio D’Água dá sequência a um projecto iniciado em 2007, mas que esperou mais de dez anos para ter continuidade: a publicação em Portugal da obra de uma escritora admirada por William Faulkner, por exemplo.

Minha Ántonia é o terceiro livro de Cather por cá, depois de Uma Mulher Perdida (2007) e de O Meu Inimigo Mortal, pequena novela já publicada este ano onde a escritora fala mais uma vez do contraste desses dois universos que aprendeu a conhecer muito bem: a ruralidade do interior Oeste e a ostentação da grande cidade que era Nova Iorque. Neles está a diversidade social, geográfica, religiosa, de mentalidade que faz parte do que se pode chamar a identidade americana.

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Num mundo povoado por índios e imigrantes europeus que chegavam para trabalhar a terra e conquistar território a Oeste, Willa Cather (1873-1947) encontrou a matéria-prima para a sua literatura Getty Images

“Havia então, nos Estados das pradarias, dois estratos sociais bem distintos: por um lado, os colonos, operários e artesãos que estavam ali para ganhar a vida e, por outro, os banqueiros e rancheiros abastados que vinham da costa atlântica para investir dinheiro e ‘desenvolver o nosso magnífico Oeste’, como então se dizia”, escreve em Uma Mulher Perdida. Percebe-se que a família de Willa está mais perto desta segunda classe, enquanto a de Ántonia se encaixa na dos servos. Percebe-se também a ironia e a crítica social na prosa de Cather, que ao longo da sua obra iria reflectir também a babel linguística de uma América interior povoada de colonos de toda a Europa, o convívio com os índios. E, a esse momento, num crescendo de criatividade literária da escritora. Uma Mulher Perdida seria descrito como uma Madame Bovary americana, tendo como centro uma mulher num duelo com as convenções em que vive. Foi o romance que se seguiu ao sucesso de One of Ours, de 1922, com o qual Willa ganharia o Pulitzer e se afirmava com um dos grandes nomes da literatura americana. 

Era uma mulher que trazia para os livros outras mulheres e apresentava-as como personagens principais de um país que vivia fixado no conquistador masculino do Oeste. Elas são personagens inquietas, inteligentes, que, quando silenciosas, encerram uma bravura que encontra paralelo na paisagem. Era gente que “vinha de um país velho para um país novo”, seres quase sempre estranhos a esse ambiente que foram domando, domando-se a si mesmas ou aculturando-se. São mulheres como as via Willa, seres pouco cor-de-rosa, com traços de personalidade que à época eram vistos como masculinos num escrita também mais próxima dos padrões masculinos. Ela admirava sobretudo os homens escritores. Além de James, Charles Dickens, Flaubert, correspondia-se com Scott Fitzgerald e desdenhava de autoras como Jane Austen, por exemplo. Bastante reservada quanto à sua vida pessoal, especula-se que tenha sido homossexual. O mistério manteve-se mesmo após a publicação da sua correspondência, facto que só aconteceu em 2013. Antes de morrer, destruiu muitas cartas, apontamentos, livros completos e deu instruções para que nunca se publicasse a correspondência. Mortos todos os seus herdeiros, a correspondência saiu e, pessoalmente, revelou apenas que os seus primeiros interesses afectivos foram mulheres. 

 Conhecendo o seu perfil não se estranha que tenha escolhido escrever muitas vezes a partir de uma perspectiva masculina para quebrar com o que então se entendia como livros escritos por mulheres. Em Minha Ántonia, para sublinhar o statement político que o livro contém, o narrador também é um homem. É através dele que sabemos de Ántonia mesmo antes de o livro propriamente começar. Admirava-a, conhecedor do contexto social em que viveriam. Ela era uma rapariga do campo e ele sabia que “as raparigas do campo eram consideradas uma ameaça para a ordem social”; como também conhecia a fama das três Marias, “heroínas de um ciclo de histórias escandalosas que os homens mais velhos gostavam de relatar, sentados ao balcão dos charutos, na drogaria”, também elas raparigas do campo; e desprezava os “empregados de escritório e contabilistas de mãos brancas e colarinhos altos” incapazes de assumir a paixão por uma dessas mulheres, preferindo fugir para o abrigo de um casamento amorfo e bem visto. Neste olhar Willa está mais próxima do narrador do que de Ántonia.

Esse narrador é Jim Burden, o tal que chegou ao Nebraska no mesmo comboio em que chegaram Ántonia e a família. Ele encaminhado para o interior da casa da quinta, eles para servir essa casa e depois daí todos para a cidade, mas ocupando a mesma hierarquia social. E o leitor conhece Jim na introdução, quando ele, num comboio a fazer o percurso entre Nova Iorque e aquele estado, confessa a admiração pela rapariga e diz que que escreve os os seus pensamentos acerca dela. Assim nasce o livro que põe fim à trilogia da planície, conjunto de romances que funcionam isoladamente mas traçam um panorama do que foi a colonização e revelam a escrita depurada de Cather que ainda escreveria livros de nota nessa década de vinte, entre eles Death Comes From the Arcebishop (1927).

A década seguinte seria de declínio junto da critica que a considerava conservadora. Pelos temas, politicamente, literariamente longe do experimentalismo de Gertrude Stein ou James Joyce, por exemplo, com uma escrita contaminada, diziam muitos, pelo jornalismo que exerceu durante anos. Recolheu-se desse mundo até à morte, em 1947, aos 73 anos.