Maria João Rodrigues

A Itália tem um “dilema impossível”, a Alemanha uma escolha clara

A Itália era dos países mais pró-europeus, agora duvida-se do seu futuro na UE. Há que transformar a zona euro num espaço de prosperidade económica e social – para isso, é preciso convencer a Alemanha, diz Maria João Rodrigues.

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Itália está numa encruzilhada histórica, diz a eurodeputada socialista Daniel Rocha/PÚBLICO/Arquivo

O "dilema impossível" em que se encontra a Itália é, para a eurodeputada Maria João Rodrigues, vice-presidente do grupo dos Socialistas e Sociais-Democratas no Parlamento Europeu, o momento da verdade para os líderes europeus e, principalmente, para a chanceler alemã, Angela Merkel. A urgência de avançar com uma reforma da zona euro, como defendem o primeiro-ministro, António Costa, e o Presidente francês, Emmanuel Macron, nunca foi tão evidente, sustenta. Sem ela, é o próprio futuro do projecto europeu que fica em causa, alerta.

Como avalia a situação de crise e instabilidade em Itália, e a solução política encontrada pelo Presidente Sérgio Mattarella em nome da manutenção do país na zona euro?
A Itália entrou numa grande encruzilhada da sua história que é saber se permanece na União Europeia como o Estado-membro fundador e a grande economia que é, ou se começa a considerar outras hipóteses. E há quem diga que os partidos que ganharam a maioria nas eleições [de Março] têm uma estratégia — não explícita mas implícita — para empurrar a Itália para a segunda escolha.

Mas esta crise que se está a viver em Itália não é só uma crise da Itália. É uma crise da União Europeia como um todo. O dilema italiano surge porque a UE como um todo não tem conseguido construir soluções à altura das crises com as quais se foi deparando: a crise financeira que se transformou numa crise da zona euro; a crise iniciada com a entrada dos refugiados que depois se transformou numa crise mais alargada de imigração; e depois a decisão do Reino Unido de abandonar a UE.

A Itália, que durante muito tempo foi dos países mais pró-europeus, num sentido genuíno, virou-se para uma atitude muito diferente. Há evidentemente uma corrente pró-europeia ainda em Itália, mas há uma maioria larga com muitas dúvidas sobre o futuro da Itália na UE.

Nesse sentido como é que a UE pode ajudar a resolver o problema? Ou cabe à Itália sozinha fazê-lo?
A Itália tem a sensação de estar confrontada com uma escolha impossível: para sair da lógica austeritária, devia sair da zona euro. Ou então, para se manter na zona euro, teria de aceitar uma lógica austeritária. A isto eu chamo um dilema impossível. Porque nem uma opção nem a outra são positivas. Isso torna evidente que precisamos de uma terceira opção, transformar a zona euro num espaço que permita de facto investir no futuro e recuperar condições de prosperidade económica e social.

Há propostas nesse sentido, por exemplo de criação de uma capacidade orçamental no âmbito da reforma do euro…
Estamos a viver uma crise europeia há sete anos, as soluções estão identificadas. Chegou o momento de fazer o debate de forma organizada e tomar decisões. Esta semana, a Comissão Europeia deverá apresentar, com muito mais detalhe, a proposta que tem vindo a preparar, que é a criação de um embrião de um orçamento da zona euro, expressa basicamente em dois instrumentos. Um é o chamado de apoio às reformas estruturais, e outro deveria ser um instrumento de protecção do investimento. O que está em questão é a possibilidade da zona euro retomar a senda de crescimento, de criação de emprego e convergência económica e social.

Na proposta de quadro financeiro plurianual está previsto esse instrumento de estabilização do investimento para proteger os países de choques assimétricos. 
Sim. Mas temos de estar preparados para a reacção dos actores que vão dizer que não precisamos disso. Vamos ver como é que a Alemanha se clarifica. Se prosseguir na atitude de subestimar este problema, alegando que a crise já está ultrapassada, sem perceber que a arquitectura actual da união económica e monetária continua a limitar os Estados-membros na sua capacidade de investir no futuro e a criar desigualdade económica e social, corremos o risco de ter o que estamos a ter em Itália. E de isso poder espalhar-se a outros países. Países como a Alemanha têm de fazer uma escolha claríssima: ou de uma vez por todas reconhecem que é preciso avançar na reforma da zona euro, ou correm o risco de forças anti-zona euro e anti-europeias ganharem expressão crescente e isso levar à fragmentação da UE.

Temos o Presidente francês, Emmanuel Macron, a aplicar enorme pressão nesse sentido. O ministro da Finanças português e presidente do Eurogrupo a manifestar a esperança de que seja possível completar esse processo da união económica e monetária, com passos decisivos já em Junho. O que explica o impasse, é só a posição da Alemanha?
Temos de ver quais são os actores. Portugal conta para este processo porque temos a presidência do Eurogrupo e também um primeiro-ministro muito activo na cimeira do euro, em Junho.Teremos outros países a apoiarem, mas também temos membros da zona euro que continuam a negar que esta reforma seja urgente. O fiel da balança vai ter de ser a Alemanha, que tem uma responsabilidade central dado o peso da sua economia no futuro da zona euro. E a Alemanha vai chegar a um momento de clarificação.

A chanceler alemã está de visita a Portugal, pensa que essa será uma oportunidade para uma acção diplomática do primeiro-ministro para vencer algumas resistências de Angela Merkel?
Acho que sim. A chanceler, que é também uma política com grande experiência e viveu toda a crise na zona euro, tem de escolher. Ou aceita concretizar um compromisso com a família socialista e social-democrata na Europa, visando uma reforma que permita relançar a zona euro com perspectiva de futuro e coesão, ou corre o risco de ver deflagar na Europa forças anti-zona euro e anti-europeias como as que vemos emergir em Itália — e um pouco por toda a Europa  — e têm vindo a reforçar-se. O dilema está claríssimo e ela vai ter de optar.