Há um novo primo dos mamíferos que viveu há 130 milhões de anos

Cientistas dos EUA descobriram um pequeno crânio de um familiar próximo dos mamíferos que viveu durante o início do Cretácico na América do Norte. Comeria plantas e teria um olfacto apurado.

Pangea
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O Cifelliodon pesaria cerca de um quilo Jorge A. Gonzalez/Universidade do Sul da Califórnia

Numas escavações no estado norte-americano do Utah, um grupo de cientistas encontrou um pé de um dinossauro bico-de-pato. Mas esta descoberta não ficaria por aqui. Mais tarde, os cientistas acabaram por perceber que, por baixo desse pé, havia outro fóssil. “Era uma espécie de ovo da Páscoa”, conta-nos Adam Huttenlocker, um desses cientistas. E esse “ovo da Páscoa” guardava mesmo uma surpresa: era um crânio quase completo de um primo desconhecido (até agora) dos mamíferos. A nova espécie chama-se Cifelliodon wahkarmoosuch, pertence ao grupo dos haramídeos – ordem que integra parentes próximos dos mamíferos – e viveu há cerca de 130 milhões de anos na América do Norte. Esta descoberta, publicada num artigo científico na última edição da revista Nature, ainda nos sugere que o supercontinente Pangeia se terá fragmentado 15 milhões de anos mais tarde do que se pensava.

As escavações no sítio de Andrew (dedicado ao paleontólogo Andrew Milner) começaram em 2005 e deram bastantes frutos. “O sítio tinha dinossauros muito bem preservados, incluindo o dinossauro bico-de-pato Hippodraco, assim como dinossauros Velociraptor, crocodilos primitivos e o novo fóssil”, recorda Adam Huttenlocker, da Universidade do Sul da Califórnia (EUA) e principal autor do trabalho. Depois, o pequeno crânio – de 7,5 centímetros – do Cifelliodon foi examinado ao pormenor com raios X. Também se estudou a sua filogenia. Percebeu-se assim que se tratava de uma nova espécie de haramídeo.

Os haramídeos são um grupo que inclui os familiares mais próximos do antepassado comum de todos os mamíferos actuais, considera esta equipa de investigadores. Os primeiros membros deste grupo terão surgido há cerca de 220 milhões de anos (Triásico) no hemisfério Norte e os últimos terão vivido há 70 milhões anos. “Os fósseis dos haramídeos são incrivelmente raros, apesar do seu longo intervalo temporal”, refere Adam Huttenlocker. Já se encontraram fósseis do Jurássico (entre há 200 milhões e 145 milhões de anos) na Tanzânia e na China. Também se descobriram fósseis deste grupo no Cretácico (entre há 145 milhões e 65 milhões de anos), nomeadamente um dente na Índia e outro em Marrocos.

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O Cifelliodon wahkarmoosuch viveu no início do Cretácico na América do Norte Jorge A. Gonzalez/Universidade do Sul da Califórnia

Até agora, pensava-se que os haramídeos do hemisfério Norte se tinham extinguido no final do Jurássico. “Provavelmente, esta visão é influenciada pela nossa fraca compreensão do registo basal do Cretácico na América do Norte e noutros sítios”, indica Adam Huttenlocker. O Cifelliodon veio assim mostrar-nos que os haramídeos ainda viviam no hemisfério Norte no Cretácico.  

O Cifelliodon wahkarmoosuch pesaria cerca de um quilo. Por exemplo, um Cifelliodon adulto seria do tamanho de uma lebre pequena. Portanto, seria pequeno comparado com muitos dos mamíferos actuais, mas gigante entre os seus contemporâneos do Cretácico.

Como tinha uns dentes semelhantes aos morcegos-da-fruta, deveria conseguir morder, cortar e esmagar os alimentos. Suspeita-se ainda que comeria plantas, que tinha um olfacto apurado e seria um animal nocturno. O nome Cifelliodon wahkarmoosuch vem do apelido do paleontólogo Richard Cifelli, que tem estudado mamíferos do Cretácico na América do Norte. Já wahkarmoosuch significa “gato amarelo” na língua do povo ute, que actualmente vive no Utah (onde foi encontrado) e no Colorado.  

Percebeu-se ainda que o dente do Cretácico encontrado em Marrocos pertencia a um familiar muito próximo do Cifelliodon. Os cientistas relacionaram assim todas as pistas que tinham sobre os haramídeos e o que se sabe sobre a evolução da Terra naquele tempo. O que concluíram?

Ora, sabe-se que há cerca de 200 milhões de anos, entre o Triásico e o Jurássico, o supercontinente Pangeia (até então, as Américas, a Eurásia, África, a Antárctida, a Austrália e a Índia estavam juntas) começou a fragmentar-se e o mundo veio a ficar com a configuração que temos hoje. O intervalo de tempo desta fragmentação tem suscitado um debate científico. Agora, como encontraram um haramídeo na América do Norte e já se tinha encontrado o de Marrocos, ambos do Cretácico, sugere-se que as interacções entre diferentes continentes continuaram a existir durante cerca de 15 milhões de anos mais tarde do que se pensava.

Uma descoberta histórica

“A descoberta do fóssil aponta que os haramídeos e outros grupos de vertebrados existiam em todo o mundo durante a transição do Jurássico para o Cretácico, significando que os corredores de migração através das massas terrestres da Pangeia continuavam intactas no Cretácico Inferior”, lê-se num comunicado da Universidade do Sul da Califórnia.

“A grande raridade de um crânio tridimensional torna a descoberta de Huttenlocker e dos colegas algo histórico”, escreveram Simone Hoffmann e David Krause, do Instituto de Tecnologia de Nova Iorque e do Museu da Natureza e da Ciência de Denver (EUA), respectivamente, num comentário sobre o trabalho na mesma revista. “O Cifelliodon é um dos primeiros crânios preservados a três dimensões da linhagem dos haramídeos. Como tal, é uma peça crucial do puzzle evolutivo.”

Contudo, os haramídeos são uma peça de difícil encaixe no puzzle da evolução, pois há cientistas que os incluem na categoria dos mamíferos e outros que não os consideram mamíferos – como esta equipa, que refere que são primos próximos. “É um grupo misterioso”, disse Zhe-Xi Luo, da Universidade de Chicago e um dos autores, ao jornal norte-americano The New York Times. O paleontólogo acrescentou que se os haramídeos forem mamíferos, então eles surgiram há cerca de 220 milhões de anos. Mas se não forem, os mamíferos terão surgido há 185 milhões de anos.

Para que um dia se consiga completar esta parte do puzzle, os cientistas sugerem que será necessário encontrar e analisar outros fósseis muito antigos.