Investigador cria filme que se adapta à atenção de quem o vê

The Moment é uma curta-metragem, e experiência académica, em que a narrativa é ditada pelas reacções dos espectadores.

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A narrativa do filme muda consoante a actividade neuronal Regis Duvignau/Reuters

Já é possível definir a narrativa de um filme a partir da atenção de quem o está a ver. A curta-metragem The Moment (inglês para O Momento) passa-se num futuro distópico em que é normal controlar aparelhos electrónicos através do cérebro, sem lhes tocar. O que o distingue de tantos outros filmes de ficção científica, porém, é que o espectador também dita o futuro dos protagonistas através de um aparelho colocado sobre a sua própria cabeça que avalia a actividade cerebral e reacções na face. A mesma pessoa pode ver várias versões do filme consoante os detalhes em que se foca no ecrã e o número de vezes que pestaneja (por exemplo, se alguém está sempre a abrir e fechar as pálpebras, as cenas mudam mais rapidamente).

O conceito foi desenvolvido por Richard Bramchurn, 39 anos, um estudante do doutoramento de Ciências da Computação na Universidade de Nottingham, no Reino Unido. Bramchurn passou os últimos três anos a testar técnicas de electroencefalografia (EEG) – em que a actividade cerebral é monitorizada a partir de eléctrodos que se colocam à superfície da pele – para detectar respostas inconscientes de pessoas àquilo que estão a ver num ecrã.

“Quando a atenção do espectador é muito fugaz, as cenas do filme passam mais rapidamente e o foco está na narrativa principal”, explica Branchurn. Cada cena tem seis combinações possíveis, o que quer dizer que o filme de cerca de 25 minutos pode ser visto de 101 maneiras diferentes, e tem vários finais possíveis. Por exemplo, numa das versões (com um espectador mais atento em momentos de diálogo) vê-se uma cena em que os personagens falam do passado, e a câmara foca-se em detalhes nas páginas de um diário. Noutra, em que a atenção de quem está a ver é mais fugaz, o foco vai para cenas de acção com menos diálogo.

“O objectivo era desenvolver uma experiência que facilitasse uma interacção passiva dos espectadores sem interromper a imersão na narrativa”, refere Branchurn num relatório que acompanha o projecto. O estudante diz que queria desmistificar a ideia de que os filmes interactivos são pouco realístas. “A história explora narrativas num futuro distópico em que interfaces controladas pelo cérebro são, simultaneamente, uma fonte de perigo social e uma revelação.”

O aparelho escolhido para recolher a informação foi o MindWave, que custa cerca de 85 euros e é fabricado desde 2010 pela NeuroSky, uma empresa que fabrica biosensores. Assemelha-se a uma bandelete, com um microfone apontado para o centro da testa que, segundo a NeuroSky, recolhe e interpreta a atividade neuronal para controlar algumas aplicações móveis. No projecto de Bramchurn, os resultados são enviados via bluetooth para um programa de computador.

Branchurn admite que não vê os seus filmes a tornarem-se a norma no cinema. O objectivo é que o filme seja visualizado em grupos pequenos (até oito pessoas), nos quais um dos participantes guia a narrativa.

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A história explora um futuro distópico em que interfaces controladas pelo cérebro são uma fonte de perigo e uma revelação Richard Ramchurn

Dar o controlo às pessoas

O investigador não é o primeiro a tentar convencer audiências a interagir com filmes. My One Demand (inglês para, "O meu único pedido") é um filme de 2015, criado pela produtora independente Blast Theory, em que os espectadores na sala de cinema respondiam a perguntas do narrador para definir o futuro da trama. A maioria, ganhava. Em Portugal, a série infanto-juvenil O Diário de Sofia, exibida pela RTP em 2003, utilizava um conceito semelhante, no qual os SMS dos telespectadores no final do episódio com conselhos à jovem protagonista influenciavam os capítulos seguintes da história.

Além disso, cada vez mais empresas tentam analisar os hábitos e preferências dos utilizadores para lhes sugerir conteúdos audiovisuais mais apropriados. Os algoritmos do Netflix analisam as preferências dos assinantes para fazer com que passem o máximo de tempo possível na plataforma. Por exemplo, os espectadores que acompanham a série britânica de ficção-científica Black Mirror são também fãs de documentários.

Numa primeira fase, os interessados podem ver The Moment durante o festival de cinema de Sheffield, no Reino Unido, em Junho.

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