Da educação ao trabalho, a desigualdade de género atravessa gerações

Num estudo publicado esta segunda-feira, olha-se para a igualdade de género de dois pontos de vista: geracional e territorial – comparando diferentes idades e países da União Europeia.

Aluna
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MARIA JOÃO GALA

No trabalho sobre o tema Igualdade de Género ao longo da Vida: Portugal no Contexto Europeu, a socióloga Anália Torres (coordenadora) e outros seis investigadores avaliam as desigualdades de género a partir de uma óptica geracional e territorial. O estudo, apresentado hoje no ISCSP — Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, feito para a Fundação Francisco Manuel dos Santos atravessa temas como a educação, o trabalho, a criminalidade, as tarefas domésticas e a saúde. Estas são algumas das conclusões.

Educação

Para grupos etários diferentes, o nível de escolaridade também é distinto. Mais de dois terços (72,5%) dos homens portugueses com idades entre os 50 e os 64 anos só completaram o básico. Para as mulheres na fase tardia da vida esse número é ainda menor (70,1%). Valores que correspondem a mais do dobro da média europeia. No caso dos jovem, a tendência é para uma maior escolarização e já há mais mulheres portuguesas entre os 20 e os 24 anos (23,5%) com cursos superiores do que homens da mesma idade (13,9%). A participação feminina em cursos tradicionalmente masculinizados situa as jovens portuguesas muito acima da média das europeias.

Escolaridade e desemprego

O sucesso académico das mulheres portuguesas não lhes garante melhores condições no mercado de trabalho — nem em termos de salários, nem nas tipologias de contratos, nem no que diz respeito a uma taxa de desemprego menor. Ainda assim, a disparidade na taxa de emprego entre homens e mulheres diminui com o aumento da escolaridade. Nos últimos anos, a disparidade nos números do desemprego — a desfavor das mulheres — tem vindo a diminuir. Mas não porque há mais oportunidades para as trabalhadoras. Deve-se antes a uma perda de emprego mais acentuada entre os homens.

Só na fase tardia da vida é que as mulheres sofrem menos com o desemprego. Quanto à precariedade  laboral, são as mulheres e os homens jovens que são mais afectados — a faixa etária dos 15 aos 29 regista mais de 60% de contratações não permanentes. As mulheres são mais afectadas do que os homens.

Disparidade salarial

Seja qual for a categoria profissional, os homens ganham sempre mais do que as mulheres. As diferenças chegam a ultrapassar os 900 euros, quando se fala nos salários dos representantes de órgãos legislativos, executivos, dirigentes e directores. Para os trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices a diferença ultrapassa os 200 euros. “Estas diferenças exprimem fortes assimetrias de género que de forma transversal penalizam as mulheres em todas as categorias profissionais”, lê-se no estudo.

Saúde e causas de morte

A morte revela um efeito de género. Aos 25 anos, num cenário em que nascem mais rapazes, a população feminina ultrapassa a masculina. Isto porque eles “matam-se mais”, por via do suicídio, mas sobretudo da exposição a comportamentos de risco que levam a acidentes, quedas, agressões, afogamentos. Tudo somado, as causas externas pesam 60% para eles e apenas 40% para elas. É “uma exposição ao risco e à violência que está fortemente associada a uma visão da masculinidade como forma de afirmação de poder e dominação”, conclui o estudo. Entre os 30 e os 49 anos, os acidentes, nomeadamente rodoviários, matam mais homens, a par dos suicídios. Eles resistem mais a tratar-se em situação de doença mental e, por outro lado, recorrem a métodos mais mortais e agressivos. Na fase tardia, elas, mais familiarizadas com a esfera do cuidar, recorrem mais ao médico, mas têm mais doenças crónicas e psiquiátricas, perturbações de sono e sentimentos depressivos, nomeadamente porque, depois de uma vida dedicada aos filhos, têm de se adaptar ao “ninho vazio”. Os homens, “obedecendo a um modelo de masculinidade que lhes dificulta a revelação de fragilidades”, cuidam menos de si.

Valores

A geração entre os 15 e os 29 anos é “mais materialista do que as anteriores”, ou seja, valoriza “relativamente mais o poder e o dinheiro”, segundo o estudo. “Foi uma surpresa”, sublinha Anália Torres. Os contextos em que os jovens vivem, de “maior instabilidade económica e no trabalho e de escassez de bens”, podem explicar esta tendência para que, comparativamente com os mais velhos, os jovens se apresentem menos universalistas, isto é, menos propensos a defender valores como a importância da igualdade de tratamento e oportunidades, da necessidade de apoiar e cuidar do bem-estar das pessoas. No escalão etário seguinte, a família surge como a principal prioridade e homens e mulheres unem-se na defesa de iguais responsabilidades nos cuidados às crianças e na vida doméstica, numa reivindicação, que, dada a assimetria verificada no trabalho não pago, parece não sair do plano discursivo. Na fase tardia da vida activa, ganha terreno a ideia de que devem ser elas quem deve assegurar em primeiro lugar as responsabilidades familiares, mesmo que tal implique sacrificar o  trabalho pago.

Família e condições de vida

Na juventude, as raparigas portuguesas autonomizam-se e saem de casa dos pais mais cedo do que eles. Mas, no cômputo dos países, os jovens portugueses deixam-se ficar em casa dos pais até mais tarde, num adiamento que os autores do estudo relacionam com os salários baixos que não lhes permitem custear uma casa. “Há a ideia de que os nórdicos saem mais cedo da casa dos pais porque não são familiaristas e de que no Sul são muito agarrados à família, mas a correlação mais importante que encontrámos é que os jovens portugueses, mesmo quando trabalham, ganham salários tão baixos que não se conseguem autonomizar. E nisso aproximamo-nos dos países do Leste”, contextualiza Anália Torres. Adianta duas explicações para o facto de as jovens portuguesas tenderem a sair mais cedo do que eles de casa dos pais: “São mais autónomas do ponto de vista de gerir uma casa e também é verdade que entram em conjugalidade mais cedo.”