Um herói sem documentos: imigrante salvou criança e vai receber nacionalidade francesa

O jovem de 22 anos de origem maliana não hesitou e salvou uma criança de uma possível queda de um quarto andar. Agora, é o próprio Emmanuel Macron que lhe garante a naturalização.

Emmanuel Macron, Palácio do Eliseu, Presidente da França
Foto
Emmanuel Macron com Mamoudou Gassama THIBAULT CAMUS/EPA

Saiu do Mali em 2013 e chegou a França há alguns meses, sem documentos. Quando viu uma criança em apuros, na iminência de cair de uma varanda no quarto andar de um prédio no 18.º bairro de Paris, Mamoudou Gassama não hesitou: escalou o prédio e salvou-a. Pela sua coragem, foi recebido por Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu, que lhe gabou a valentia. "Todos os seus documentos vão ser regularizados", assegurou o Presidente francês.

O Presidente francês propôs também que fosse posta em marcha a naturalização, que o jovem de 22 anos aceitou, conta o Le Monde. Isso permitir-lhe-ia iniciar uma nova carreira nos bombeiros, sugeriu Macron, o que Gassama aceitou.

"Vou assegurar-me pessoalmente de que o seu pedido de naturalização será aceite rapidamente", escreveu no Twitter o ministro do Interior, Gérard Collomb, responsável por um projecto de lei que endureceu em muito as condições para a aceitação de pedidos de asilo e entrada de imigrantes em França, que deve ser adoptada em definitivo nas próximas semanas.

Tudo aconteceu no sábado, pelas 20h, de acordo com os bombeiros parisienses, e está documentado num vídeo que se tornou viral nas redes sociais. Mamoudou Gassama, jovem maliano de 22 anos, não pensou duas vezes quando viu a criança a balançar de uma varanda: “Não pensei, salvei-o”, contou à televisão francesa BFMTV. “Consegui alcançar a varanda e, graças a Deus, salvá-lo.”

Quando os bombeiros chegaram ao local, o menino, de quatro anos, já estava a salvo. “Por sorte, alguém fisicamente apto teve a coragem de salvar a criança”, disse um porta-voz dos bombeiros à agência AFP.

Os dois foram levados para o hospital na sequência do salvamento. “O homem queixava-se do joelho e a criança estava em estado de choque”, indicaram os bombeiros ao Le Monde.

PÚBLICO -
Foto
No Palácio do Eliseu, com o certificado de ter tido um "acto de coragem" THIBAULT CAMUS/EPA

Os pais não estariam em casa no momento do incidente. O pai acabou por ser detido por incumprimento de obrigação parental. A mãe não se encontra no país. A criança está actualmente ao cuidado de uma instituição de acolhimento. 

A coragem valeu a Mamoudou Gassama a alcunha de “Homem-aranha do 18.º” em referência ao bairro onde aconteceu o salvamento (também conhecido como Butte-Montmartre) e o agradecimento de várias figuras políticas francesas. Emmanuel Macron agradeceu-lhe pessoalmente, nesta segunda-feira.

O “Homem-aranha do 18.º” vai receber ainda uma medalha de ouro pelo acto de coragem e um certificado assinado pelo chefe da polícia parisiense. 

Depois de ser recebido no Eliseu, Gassama dirigiu-se a Montreuil, uma comuna nos subúrbios de Paris onde vive desde que chegou a França, e foi anunciado que se tornaria “cidadão de honra da cidade de Montreuil”, escreve o Le Parisien.

A presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, escreveu no Twitter que lhe ligou a agradecer o acto. No tweet que escreveu, elogiou a coragem do homem. “Ele contou-me que chegou há alguns meses do Mali e que sonha fazer vida aqui. Respondi-lhe que o seu acto heróico foi um exemplo para todos os cidadãos e que a cidade de Paris está obviamente disponível para o apoiar nos seus esforços de se estabelecer em França”, lê-se no tweet.

O porta-voz do Governo francês, Benjamin Griveaux, escreveu no domingo, no Twitter: “Este acto de uma imensa bravura, fiel aos valores de solidariedade da nossa República, deve abrir-lhe as portas na nossa comunidade nacional”.

“Mamoudou Gassama lembra-nos que as pessoas em situação irregular são seres humanos, com (…) imensa coragem, da qual fazem prova durante a perigosa viagem com destino à Europa”, sublinhou por seu lado a organização SOS Racismo. “Uma coragem que continuam frequentemente a manifestar aqui [França]”, realçou a organização, antes de solicitar “ao ministro do Interior para regularizar a situação do senhor Gassama”.