Ensaio

A herança de 1968: uma leitura crítica

Definir 68 como o embate entre uma vanguarda política e culturalmente criativa e um conservadorismo político e societal partilhado à direita e à esquerda, por burgueses e operários, é uma leitura tão intrinsecamente burguesa e liberal que ninguém nos 68 se atreveria a assumi-la. Um ensaio de Manuel Loff

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Mais do que um movimento global, 1968 (isto é, o final dos anos 60) foi feito de 68 tão diversos quanto a contestação à guerra norte-americana no Vietname, a luta pelos direitos cívicos nos EUA, as grandes mobilizações operárias em França (as maiores do séc. XX) e em Itália, a crise do socialismo real na Checoslováquia, a dissidência política e cultural do catolicismo progressista ou os grandes movimentos estudantis um pouco por todo o Ocidente (Portugal incluído), entre os quais os mexicanos não ficaram atrás dos franceses. O que me parece revelador é que, quando nos lembramos de 68, é do 68 estudantil (e especialmente do francês) que falamos. E há razões para isso, sociais, antes de mais: é que quem protagonizou o 68 estudantil teve desde então, por óbvios motivos sociais, de classe, incomparavelmente mais voz (e, portanto, mais poder para escrever a história) do que quaisquer outros herdeiros de 68.

A tese mais comum sobre 68 (que aqui usarei para referir os movimentos de finais dos anos 60) é a da vitória cultural mas derrota política. Advirta-se desde já que esta é a tese central do discurso autorreferencial dos protagonistas do 68 estudantil  e espelha a evolução individual de muitos dos seus antigos ativistas, para os quais, dos primeiros a celebrar o “fim das ideologias” nos anos 1980 (depois de, em 1968, terem sido os campeões delas), as únicas revoluções positivas são as culturais. Como em tudo, a leitura do passado faz-se sempre a partir dos valores do presente, pelo que uma boa parte do que se celebra hoje de 68 (e do estudantil em particular) é constituído sobretudo por pontos de chegada de um processo que, mesmo que se tenha iniciado em 1968, dificilmente se pode dizer que tenha sido desejado há 50 anos. Definir 68 como o embate entre uma vanguarda política e culturalmente criativa e um conservadorismo político e societal partilhado à direita e à esquerda, por burgueses e operários, é uma leitura tão intrinsecamente burguesa e liberal que ninguém nos 68 se atreveria a assumi-la.

Sobre 68, como sobre todos os ciclos que nos parecem representar mudanças revolucionárias, há que perguntar se foi o início ou o ponto de chegada da mudança global a que se o associa. Quando há 50 anos os estudantes universitários parisienses se propuseram encontrar “a praia debaixo dos paralelepípedos da rua” e se lançaram contra a polícia de choque nas ruas do Quartier Latin, a sociedade francesa acumulava 20 anos de mudanças que estavam a alterar substancialmente os padrões autoritários e desigualitários que pautavam as relações sociais no conjunto do mundo capitalista industrializado, que permitiram aos jovens da década de 60, com um modelo de sociabilidade próprio que lhes permitiu atuar (ou assim eles próprios imaginaram), ser ator político autónomo. A socialização da economia que acompanha a reconstrução da devastada Europa centro-oriental (os novos países socialistas), a criação do Estado de bem-estar nas economias capitalistas, apontando para uma (sempre incompleta) democratização da Educação, da Saúde e da Segurança Social, permitiram a muitos dos jovens nascidos depois de 1945 estudar mais tempo do que no passado, adiando a sua submissão à exploração e ao autoritarismo nas relações laborais (então ainda naturalizados, como hoje se volta a querer que o sejam).

Esta nova condição social da juventude criou um evidente fosso cultural que deu origem do generation gap que tanto se discutiu a partir dos anos 50, que ajuda a entender o vigor da contestação antimilitarista que opôs os jovens, mais do que quaisquer outros segmentos da sociedade, a todas as guerras posteriores a 1945 (Indochina, Coreia, Vietname, Argélia e as demais guerras coloniais) e à própria conscrição militar a que continuariam submetidos até finais do século. Que a centralidade da contestação estudantil tenha permitido aos jovens tornar-se os atores mais visíveis da crítica aos sistemas sociais e políticos dos dois blocos da Guerra Fria terá resultado muito mais da experiência (material e biograficamente mais longa) de não submissão a aparelhos autoritários, como a fábrica e o quartel, do que da maioria dos fatores de tipo cultural ou mais estritamente político que costumam ser invocados para explicar 68.

No mesmo sentido, o crescente assalariamento das mulheres e a escolarização generalizada, delas e dos seus filhos, o avanço dos cuidados de saúde pública que fizeram com que o Estado assumisse uma parte essencial do cuidado dos mais velhos foram decisivos na crise da visão sexista que via (e vê) as mulheres como cuidadoras, um estatuto (e uma identidade) que a moral social maioritária sempre presumiu fazer parte de uma natureza feminina. É nessa nova condição material e social das mulheres e na consolidação do movimento feminista como sujeito político e cultural próprio, que lhes foi possível ganhar a batalha do divórcio, da contraceção e do aborto, nos anos 1950/60 nos países socialistas antes ainda de 68, na maioria dos países capitalistas ricos apenas nos anos 1970/80, aqui tornando-se uma das consequências de 68.

Já a reivindicação fundadora do 68 estudantil — a democratização do acesso à e da gestão da universidade, o ataque ao autoritarismo escolar e à pedagogia elitista — teve um evidente sucesso nos 30 anos que se seguiram a 1968, e um retrocesso muito marcado nos últimos 20 anos. É paradigmático que tenha sido um antigo dirigente estudantil de 1969 (Mariano Gago) a desdemocratizar legalmente, em 2007, a gestão universitária em Portugal, ou que Cohn-Bendit aplauda hoje a reforma universitária elitista de Macron e se dessolidarize dos estudantes que, como ele em 1968, têm vindo a ser expulsos à bastonada de faculdades que ocupa(va)m.

A juventude estudantil e trabalhadora dos anos 1960 e 70, bem como as suas novas práticas culturais que lhe deram uma identidade geracional distintiva não são, portanto, simples produtos históricos de uma geração que se descreve hoje, 50 anos depois, como generosa e entregada, como se tivesse descoberto sozinha (ou, pelo menos, contra a vontade de todos os poderes, mas também contra todas as oposições organizadas) a perversão intrínseca do autoritarismo, mesmo quando ele, em muitos lugares, se descrevia como socialista ou comunista; da guerra, mesmo que feita em nome do Mundo Livre; do capitalismo, por mais que ele se disfarçasse de democracia social; ou do colonialismo, por mais que ele se quisesse passar por esforço civilizador.

Os 68 mais radicais (o francês, o italiano, os latino-americanos), estão, contudo, longe desse caráter libertário que se tem considerado ser o seu espírito, e muito mais próximos de Mao e do Che. É que com os vários 68 ocorre o que raramente ocorre com a memória dos processos históricos de mudança radical: ser hoje reivindicado, simultaneamente, à esquerda e à direita. Por motivos muito diferentes, e apenas por segmentos de cada uma das duas, mas, ainda assim, pelas duas. O mais interessante é que aqueles que militantemente abandonaram os valores de que os 68 radicais se reivindicavam os reinterpretem agora sob a mesma luz liberal e antirrevolucionária, mais cultural que política, libertária porque anticomunista (e não tanto anticonservadora e anticapitalista), que iluminou o percurso político de quem transitou, logo nos anos 1970 e 80, para o lado neoliberal, neocapitalista e ocidentocêntrico da vida. Por outras palavras, os que querem procurar uma estranha coerência entre Mao e Bernard-Henri Lévy, entre autonomia operária e Berlusconi.

Os 68 abriram o caminho a uma corrente de pensamento sociológico e histórico (Alain Touraine, Charles Tilly, ...) que procurou a definição dos “novos movimentos sociais” em sociedades pós-industriais, ou que, de alguma maneira, se imaginam como pós-produtivas. Neste novo contexto, “velhos movimentos” como o operário (e a própria luta de classes) teriam perdido a sua centralidade nos conflitos sociais e, pelo contrário, neles teriam ganho espaço “novos movimentos” mais centrados na identidade dos sujeitos que na sua própria natureza instrumental para obter determinados resultados. Neste sentido, os 68 (a identidade social dos seus atores e as modalidades de expressão dos seus valores) são coerentes com sociedades nas quais as identidades de classe tendem a diluir-se. É por se imaginar superadas as identidades de classe que se valoriza o protagonismo juvenil/estudantil, justificado com os mesmos argumentos com que a nova fase da hegemonia burguesa se afirmava: o que agora distinguia os grupos sociais não era mais a sua posição na estrutura produtiva, mas sim a sua qualificação. Na sua batalha por emancipar os operários da “burocracia” sindical e partidária dos comunistas, a abordagem que os “novos movimentos” fizeram então do mundo do trabalho estava em grande medida contaminada por muito do paternalismo que 68 denunciava na sociedade burguesa.

Foi essa a acusação que o sempre herético Pasolini fez aos estudantes que, em Valle Giulia (Roma), se confrontaram com a polícia, naquele que teria sido “um fragmento de luta de classes: e nela, vocês (ainda que do lado certo) eram os ricos”, usando da “prerrogativa pequeno--burguesa” de “saberem ser prepotentes, chantagistas, seguros e descarados”. Pasolini enfrentava-se aos estudantes “filhos da burguesia” a quem os media “lambem o cu [sic]” porque “vocês são filhos deles, a esperança deles, o futuro deles: quando vos criticam, eles não se preparam seguramente para uma luta de classes contra vocês!” “Ignorando (para grande satisfação do Times e do Tempo)” a tradição revolucionária europeia, “com moralismo provinciano, vocês sentem-se ‘mais à esquerda’” (Pier Paolo Pasolini, Il Pci ai giovani, 1968).

No final dos anos 60, os “novos movimentos” foram politicamente derrotados em França, por De Gaulle, nos EUA, por Nixon, na RFA por um SPD que, sucedendo à CDU, geriu com mão de ferro o Estado policial dos anos 70, no México, na Checoslováquia... Onde se conseguira fragilizar seriamente a hegemonia política (França, Itália), foram os “velhos movimentos” como o sindical a obter grandes vitórias no campo laboral e salarial, depois de greves como não se viam desde o pós-I Guerra Mundial. Pelo contrário, a radicalização da nova esquerda armada que se formou, em grande medida, no seio dos 68, quer nos países de capitalismo consolidado, quer em vários latino-americanos (ainda que aqui o processo da sua emergência fosse anterior a 1968), isolou-a das massas, reforçou e legitimou a capacidade repressiva do Estado e da classe dominante, contribuiu para a vulgata do horror da revolução que nela vê sangue e totalitarismo entre os mesmos que não os conseguem ver na dominação capitalista ou neoimperial. Ao retomar a bandeira da legitimidade da violência política e ao concentrar a sua crítica (simultaneamente neolibertária e maoísta) ao funcionamento do movimento sindical de classe e aos partidos comunistas dos países capitalistas, o 68 armado veio acrescentar mais divisão nas esquerdas revolucionárias que ajudaram a acelerar a liberalização da social-democracia e a emergência do reformismo eurocomunista.