Os moradores queixaram-se do barulho e o arraial Sardinhas Achadas não se vai realizar

Junta diz que, por “várias vezes”, alertou a organização do arraial das escadinhas da Achada por causa da música alta, mas que esses avisos não foram ouvidos.

Janela, fachada
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O festival decorre das Escadinhas da Achada, na Costa do Castelo Nuno Ferreira Santos
Churrasco, Sardinha, Grelhar
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O festival decorre das Escadinhas da Achada, na Costa do Castelo Filipe casaca

É um arraial típico em tudo: das sardinhas no pão, aos balões e lanternas de papel, e às multidões. Mas o arraial Sardinhas Achadas tem o costume de ir além da tradição. Há música, mas é mais alternativa. Mas há também projecções de curtas-metragens e de documentários. E até quem venha do estrangeiro para participar na festa. 

Este ano, o arraial que acontece nas escadinhas da Achada, na Costa do Castelo, há sete anos, não se vai realizar. A Junta de Freguesia de Santa Maria Maior negou-lhes a licença de ocupação temporária de espaço público, porque diz ter recebido “variadas queixas por parte de residentes, quer no que se refere ao ruído, quer a desacatos”, não só no ano passado, como em anos anteriores. 

Chloé Pais Daquet, de 40 anos, tem uma varanda com vista para as Escadinhas da Achada. E foi daí que começou a pensar numa festa onde pudesse reunir os amigos e celebrar os Santos Populares. A primeira edição foi em 2011. “Começamos com uma bancada pequenina, entre amigos”. As pessoas começaram a aparecer e, a pouco e pouco, começaram a convidar músicos. "Foi assim de uma forma espontânea", conta Chloé, que é francesa e portuguesa, e chegou a Portugal há 21 anos.

O festival foi crescendo. Nos últimos anos, tem juntado entre 300 a 500 pessoas. Já no ano passado, diz a promotora, a câmara de Lisboa alertou-a de que tinham chegado queixas de alojamentos locais por causa do barulho. “Estamos numa área onde há muitos Airbnb”, nota Chloé, que é marceneira e tem um ateliê na rua de São Mamede ao Caldas há dez anos. 

Numa resposta escrita ao PÚBLICO, Célia Mota, Chefe de Divisão de Gestão Territorial da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, diz que as queixas que têm chegado são de moradores e “nada têm a ver com alojamento local”.  E que tem sido verificado o “incumprimento das condições da licença, nos horários, datas de montagem e desmontagem das estruturas e das distâncias de passagem dos transeuntes, lesando assim a segurança do arraial”. 

Entre as queixas apontadas estão a "música ligada até às 6h15 da manhã", "agressões a pessoas que reclamaram" do barulho, "tendo sido solicitada a presença da PSP", "pintura de empenas de edifícios e entradas em coberturas sem qualquer autorização", "tapamento de candeeiros com panos", elenca a responsável. 

Célia Mota diz ainda que a junta alertou por “várias vezes” a organização do arraial, “comprometendo-se esta a cumprir com os horários e distâncias de passagem, o que não aconteceu”. Dadas “as situações de repetido incumprimento”, a junta optou por indeferir, este ano, o pedido de licença. 

“A ideia do arraial nunca foi chatear as pessoas. É pelo apoio à cultura, para tentar divulgar algumas coisas”, reitera Chloé Daquet. Além da comida, da bebida e da música, nos quatro, cinco dias que costuma durar o arraial, há performances e projecções de curta-metragens e de documentários. “Já temos pessoas que vêm do estrangeiro com voos comprados”, nota a organizadora. 

Numa resposta escrita enviada à junta, a promotora diz que durante estes sete anos nunca teve conhecimento de “desacatos” no arraial. E explica que os candeeiros públicos foram “temporariamente cobertos por panos para permitir melhor qualidade da imagem das projecções na empena cega das Escadinhas da Achada”. E apresentou ainda uma programação alternativa para conseguir “cumprir as horas de fecho” propostas pela câmara municipal. 

São recorrentes as queixas de lisboetas pelo excesso de ruído e a música alta madrugada dentro durante as Festas de Lisboa. No ano passado, por exemplo, o arraial do Corpo Santo, organizado pela própria Junta de Freguesia da Misericórdia, durou até 9 de Julho e levantou um coro de críticas de moradores que se queixavam da música alta que fazia abanar as paredes dos prédios e os privava do descanso.

No dia 7 de Junho, garante Chloé, vão voltar a reunir-se nas escadas, mas como forma de protesto. O Coro da Achada vai cantar e vão igualmente projectar documentários. Este ano, convidaram a Associação Lusitano Clube para abrir o arraial e, com outras associações e colectividades da cidade, debater o papel cultural que têm na cidade. Querem ainda projectar um documentário sobre o Lusitano, que foi recentemente forçado a abandonar a antiga casa