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Sai um refresco para a fotografia europeia

A fase do aquecimento de motores já passou. Agora, a plataforma Parallel, uma rede pan-europeia ligada liderada a partir de Portugal, já só quer acelerar a fundo. No Festival Format, em Derby, a segunda exposição do projecto cumpriu um dos seus principais desígnios – encontrar sangue novo na fotografia europeia.

Estávamos naquela parte protocolar em que o anfitrião diz umas palavras de circunstância. Há elogios ao que se vai ver e começam a fazer-se os agradecimentos do costume. Louise Clements disse “obrigada” a várias pessoas: à curadora, aos artistas e às instituições que tornam possível a existência de um festival de fotografia como o Format, em Derby, no centro da Inglaterra. “Obrigada” também ao hotel que, além de ter cedido o espaço para a exposição Being/Seeing, simpaticamente oferecia café a toda a gente depois de cortada a fita. E no meio dos agradecimentos, um engasganço. Foi quando chegou a vez de cumprimentar a União Europeia pelo apoio financeiro àquela exposição e ao projecto Parallel, que fez com que ela existisse. Clements — directora artística do Format — ultrapassou o deslize na desportiva e disse uma piada (ou algo parecido) num inglês de sotaque tão cerrado que não a conseguimos apanhar. Mas o suspiro que veio logo a seguir é coisa para toda a gente perceber sem precisar de nenhum Google translate. Foi um suspiro do tipo “ainda não acredito bem que isto nos aconteceu”.

“Isto” é o "Brexit", a saída do Reino Unido da União Europeia. Mas o que se viu a seguir àquele soluço na voz de Louise mostra como, querendo, não há fronteiras que travem a vontade de cruzar saberes, olhares e maneiras diferentes de nos vermos, a nós e aos outros, e de os outros nos verem a nós. E nisso a fotografia pode ajudar. Que o diga a curadora holandesa Nikki Zöe Omes que, através dos trabalhos de sete artistas emergentes de toda a Europa, pôde problematizar questões como a formação de identidade, a tomada de consciência do que é pertencer a um lugar ou a um tempo (a certeza da nossa fisicalidade) ou a forma como “moldamos as nossas vidas em função das ideias preconcebidas dos outros”.

Neste exercício, ganharam peso na exposição que se mostrou ao público de 21 de Abril a 6 de Maio as abordagens introspectivas (In The Truth, Byzantium), prospectivas (The Meaning of Things Will Inevitably Change), íntimas (Thank You Mum), sensoriais (Iri) ou aquelas fundadas no subconsciente mais profundo, como o dos sonhos (Mnemosis) ou o das ligações emocionalmente comprometidas (Persona(L)). Foi essa procura do que significa “ser” que juntou em Derby, sob orientação de Omes, as propostas de Ramona Güntert (Alemanha), Toms Harjo (Letónia), Andrej Lamut (Eslovénia), Glorija Lizde (Croácia), Charlotte Mano (França), Mark McGuinness (Irlanda) e Sofia Okkonen (Finlândia). Os trabalhos destes artistas emergentes são fruto dos primeiros passos, dados em 2017, da plataforma Parallel, uma rede liderada a partir de Portugal, cuja acção se estenderá ao longo de quatro anos e que é co-financiada pelo programa Europa Criativa da Comissão Europeia, aquele a que Clements dirigia o seu “obrigada”. Ao todo, são 18 os agentes culturais ligados a esta teia pan-europeia de 16 países, entre festivais, galerias, museus, escolas, editoras e outros protagonistas que estão de alguma maneira relacionados com a fotografia, e que vão desde a Kaunas Gallery, na Lituânia, ao Le Château d’Eau, histórico espaço expositivo de Toulouse, França.

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Em Mnemosis, Andrej Lamut tenta dar visibilidade a estados de consciência alterados

Uma das condições de partida para tudo quanto acontece (ou acontecerá) no seio da Parallel é a busca permanente de novos intervenientes no panorama artístico europeu mais especificamente voltado para a imagem fotográfica. Ou seja, de sangue novo que permita “refrescar” um circuito que, nas palavras de Nuno Ricou Salgado, da Procur.arte, associação que concebeu a Parallel, tem oferecido “mais do mesmo”, provocando uma “normalização dos discursos visuais”. Por outro lado, defende Salgado, é preciso tentar “resolver problemas existentes”, como o da falta de visibilidade do trabalho de criadores e curadores em início de carreira.

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Perante a doença incurável da mãe, Charlotte Mano lançou-se em Thank You Mum

"Muitos trabalhos bons”

Plataformas como a Parallel podem ajudar decisivamente quem está a dar os primeiros passos na arte, diz Nikki Zöe Omes. Esta holandesa que teve em Derby a sua primeira experiência curatorial sublinha o “debate” gerado entre quem está a participar nas várias tutorias, apresentações de portfólios e oficinas, bem como a riqueza do arquivo que se vai constituindo à medida que os trabalhos forem sendo escolhidos, discutidos e mostrados em contexto expositivo. “Pode funcionar como uma montra para que outras instituições possam descobrir talento”, vaticina Omes, que estudou Cinema e Fotografia na Universidade de Leiden. Em conversa com o Ípsilon, mostra-se realizada com o resultado da primeira exposição por si concebida, mas assume que talvez possa ter exagerado no número de artistas escolhidos, tendo em conta o tempo disponível para preparar todos os trabalhos e para conhecer o espaço onde foram mostrados, um anexo semi-acabado e amplo de um edifício recente que alberga, entre coisas, um hotel. Mas antes do resultado final houve que ultrapassar outros desafios, sendo o maior de todos “o da selecção”. Porquê? “Surgiram muitos trabalhos bons.”

Nikki Zöe Omes gosta de cruzar disciplinas e isso nota-se em Being/Seeing, onde a diversidade de registos formais e soluções expositivas não é apenas um exercício circense, mas um esforço de aproximação ao que cada trabalho pede para se fazer notar. Seja através de grandes impressões coladas directamente na parede (The Meaning of Things…), seja através de nichos intimistas, onde convivem escultura, vídeo e fotografia (Thank You Mum), ou de imagens que parecem ter obrigado o espaço que as abriga a moldarem-se a elas e não o contrário (Iri – Where we Stand, What we See). “Quis juntar trabalhos radicalmente diferentes, porque creio que isso provoca relações estimulantes e contrastes interessantes sobre um mesmo tema. Quando cada artista começa um trabalho na Parallel, há total liberdade criativa. Cabe aos curadores encontrarem depois um fio condutor. Podia fazer simplesmente uma exposição de grupo e dizer ‘eis uma exposição de grupo’, mas isso significaria pouco ou nada.”

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Glorija Lizde compôs um autoretrato a partir de bocados de imagens dos seus familiares

A construção da imagem

Para além das reflexões já enunciadas, e que estão mais próximas daquilo que significa “ser” (Being), Omes seguiu outra linha de reflexão mais próxima do acto ver (Seeing), ou, mais especificamente, sobre o fim da ideia de uma visão “natural” e “inocente”, rumo a um olhar culturalmente construído, em que a fotografia assume um papel determinante como um dos principais protagonistas (e contaminadores) do tecido visual contemporâneo. Persona(L), de Glorija Lizde, é talvez o trabalho que mais se aproxima dessa assunção, já que propõe diferentes níveis de construção de imagem: quer a que fazemos de nós, quer a que os outros fazem. Apesar de ser constituído, na sua maioria, por fotografias da própria artista, Persona(L) não é um auto-retrato panorâmico, mas antes um ensaio sobre a imagem que os outros têm dela (entre vários exercícios, Lizde convidou cada membro da família a escolher as suas fotografias preferidas onde ela aparece e pediu-lhes que escrevessem sobre essa selecção). Num retrato em collage, a artista croata “não só aponta para o carácter fragmentado da imagem que temos de nós mesmos, como sublinha que algumas das nossas características físicas estão pré-definidas, como as parecenças no rosto que foram inevitavelmente esculpidas pelos nossos pais” (Omes).

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A série In The Truth, de Toms Harjo, problematiza o desejo de pertença, a fé e a religião

Na mesma sintonia conceptual, In the Truth, do letão Toms Harjo, implica ainda mais quem vê, colocando-nos num ponto de espectador-actuante, como se estivéssemos dentro das imagens, a comungar das mesmas inquietações, estranhezas e sensações (a escala agigantada de algumas delas ajuda a essa intromissão). Aqui joga-se ainda na tensão entre o singular e o colectivo, na fronteira de contaminação entre um estádio e outro. Harjo tenta levar-nos para dentro dos seus pensamentos para, a seguir, nos provocar com situações estranhas e de suposta alienação, com sinais de pureza e impureza, de religiosidade e de rito, naquilo que parece ser uma tentativa de perceber como reagimos ao que não compreendemos bem.

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A alemã Ramona Güntert interessou-se pela textura e pelas formas

Ramona Günter, na mais impressionante instalação da exposição, com grandes impressões transparentes coladas às paredes ainda em cimento, também nos baralha o olhar num pequeno labirinto visual, que emula formas umas a seguir às outras até desembocar num corredor sem saída. Inspirada pelo fenómeno da iridescência (mudança de cor consoante o ângulo ou a perspectiva da luz), a artista alemã chama a atenção para o efeito circular em que hoje estão a ser criadas as imagens, como se todas as formas já tivessem sido registadas e como se o que estamos hoje a ver não passasse de uma repetição, um movimento giratório onde “a aparência [de novo] se torna realidade”.

Regressando ao “ser”, num esforço para ultrapassar a realidade e dar visibilidade a algo que em nós é mais insondável, Andreij Lamut tenta, em Mnemosis, conduzir-nos até aos territórios desconhecidos do subconsciente a partir do que chama de “experiência parahipnagógica”, um estádio de “sonolência criativa e repleta de imagens que precede o sono ou que antecede o acordar”. Fugindo a qualquer tipo de representação que possa indiciar um tempo, um espaço ou um universo pessoal explícito, o artista esloveno procura transmitir a atmosfera de um estado mental inflamado e esfuziante, a transbordar de imagens desconexas de carácter sensorial puro e abstractizante. Perante imagens assim, dificilmente situáveis, tendemos a tomá-las como nossas, um pouco como se estivéssemos a entrar no sonho de Lamut, tornando-o pessoal.

Embalados pelo movimento hipnotizante dos líquidos de revelação nas tinas (num vídeo carregado do vermelho da câmara escura), percebemos então que esse sonho pode não ter sido assim tão bom e que estamos num lugar confuso, sem saídas evidentes. Um cenário que podemos colar à realidade do “Brexit”, com a diferença de que nesta coisa consumada pode já não haver hipótese de retorno – de um acordar do pesadelo.

O Ípsilon viajou a convite da Parallel