Crítica

Apaziguar o passado

O romance de João Pinto Coelho é uma excepção à regra da mediania literária dos vencedores do Prémio Leya.

João Pinto Coelho mostra talento para a manipulação do imaginário clássico da ficção e uma invulgar riqueza vocabular
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João Pinto Coelho mostra talento para a manipulação do imaginário clássico da ficção e uma invulgar riqueza vocabular RUI GAUDÊNCIO

O romance Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho (n. 1967), foi o último vencedor do Prémio Leya — já em 2014, um outro romance seu, Perguntem a Sarah Gross, tinha sido finalista do mesmo prémio. A acção desenvolve-se em dois lugares e em dois tempos distintos — o Nordeste da Polónia entre 1935 e 1941, Paris entre 2001 e 2002 — num aparente jogo metaficcional com o leitor. Parte da história narrada, a que ocorreu há mais de meio século, vai sendo contada porque fará parte de um livro que Eryk (agora o escritor Paul Lestrange, cidadão belga) está a escrever recorrendo, em parte, à memória do cego Yankel (agora um livreiro com estabelecimento aberto em Paris), que “resumia a sua vida todos os dias, mas não incluía os anos da juventude nem a tragédia que o fizera fugir”.

Eryk e Yankel, amigos do tempo da infância e da adolescência, cresceram numa pequena cidade no Nordeste da Polónia, um lugar dividido entre cristãos e judeus, mas onde todos conviviam sem problemas de maior. Até ao dia em que, durante a guerra, sob ocupação alemã e soviética, a barbárie irrompeu com toda a sua força infernal; nada voltou a ser como era. A maldade humana, no seu requinte de horror, não precisou da guerra para ser exercida, apenas esperava uma faúlha para que a chama se acendesse e pudesse queimar tudo em redor.

Mais de meio século passado, e depois de não se terem visto durante todo esse tempo, Eryk (que está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o redimirá) visita Yankel, que sempre viu muito para além da sua cegueira. A princípio este recusa, mas depois de algum tempo, e com a presença de Vivienne, mulher e editora de Eryk, acaba por colaborar na escrita daquele livro. Durante meses, na soturnidade da livraria parisiense, mergulham no passado, no dia-a-dia de uma pequena comunidade de cristãos e de judeus (com as suas quase amigáveis quezílias) e nas vidas atribuladas de três adolescentes (eles os dois e Shionka, a muda, filha da bruxa do lugar). Pelo meio vai-se criando um triângulo amoroso — um amor que parece ter ultrapassado os dias dos nefastos acontecimentos.

A personagem de Yankel, e apesar do reencontro conturbado com Eryk, acaba por buscar também no livro que está a ser escrito diante dele algum apaziguamento, não apenas em relação ao amigo mas também às suas memórias passadas, que ele evitava visitar havia mais de cinco décadas: “Contar tudo. É capaz de não ser tão destrutivo.” No seu modo de olhar a vida que transcende em muito as recordações, Yankel vai dando um tom sagaz ao que conta, tendo sempre uma qualquer espécie de máxima para pontuar o discurso, como esta: “Que interessa o que pensei? No fim, só conta aquilo que fazemos.”

No livro que Eryk escreve, o poder evocativo da narrativa transforma-se num ajuste de contas com a memória, não no sentido de a maquilhar, mas de a tentar entender e arrumar, apesar desse passado que fará sempre parte do presente. A escrita, como num doloroso exercício de catarse para as três personagens, parece cumprir assim a sua função.

Os Loucos da Rua Mazur é uma excepção à mediania literária dos romances vencedores do prémio Leya — havia já outras duas: O Olho de Hertzog, do moçambicano João Paulo Borges Coelho, e O Coro dos Defuntos, de António Tavares. João Pinto Coelho mostra neste romance (já o tinha feito no seu livro anterior) o talento com que manipula o imaginário clássico da ficção, e impressiona pela qualidade e pela segurança da escrita. A isto, e destoando um pouco de alguma literatura portuguesa que se tem publicado nos últimos anos, há ainda a acrescentar a riqueza vocabular.