Crónica

A solidão da teoria

Há muitos anos que fiquei só com isto: a teoria. Serve-me de muito, para acompanhar-me o desconsolo.

Tenho saudades do tempo em que não só não tinha saudades do caldo verde, como me queixava de haver caldo verde todos os dias, em casa e nos restaurantes todos. Essa fartura nunca mais voltará.

Lembro-me da praça onde havia o homem do caldo verde. Cortava a couve galega à nossa frente. Também vendia azeitonas. Fazia sentido: caldo verde e azeitonas.

Hoje compra-se a couve já cortada. É um grande barrete, porque a couve, depois de cortada, começa logo a envelhecer e a secar. Em vez de caldo verde, fica-se com um chá verde.

Toda a gente era crítica encartada de caldos verdes. Podia-se ter só cinco anos e já nos deixavam pronunciarmo-nos sobre qualquer caldo verde que provássemos. Nem era preciso provar —podia-se fazer julgamentos só a olho: “este é só batata”, “aquele tem chouriço a mais”, ou, taxativamente, “isto não é caldo verde!”

Pensava-se que era fácil fazer caldo verde. Mas é muito difícil. Lembro-me de todos os caldos verdes perfeitos que comi em adulto: foi só um, feito pela grande cozinheira Ana Maria Rainha no restaurante Sacas na Zambujeira do Mar. A conjunção de batatas e couves bem escolhidas, o azeite novo, o chouriço caseiro, a broa de milho de Gouveia... até o alho era perfeito, de chão seco, trazido numa pasta de cabedal por um homem que vinha a pé para vendê-lo.

Era uma sopa leve — por alguma razão se chama caldo. Tem de ser feita no momento e comida logo a seguir. Há muitos anos que fiquei só com isto: a teoria. Serve-me de muito, para acompanhar-me o desconsolo.

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