Opinião

Dava-nos jeito alguns “Constâncios”

A realidade europeia e internacional, depois da crise financeira, da Grande Recessão e dos ventos de proteccionismo que sopram da América, interpela-nos todos os dias. Dava-nos jeito alguns “Constâncios” para melhorar o debate público.

1. Quando estava a ouvir Mario Draghi a fazer a intervenção de abertura da conferência organizada pelo BCE na despedida do seu vice-presidente, o longo percurso de Víor Constâncio em Portugal e lá fora veio-me imediatamente à memória. A intervenção do presidente do BCE não foi de circunstância. Não poderia ser. Foi de quem aprendeu a conhecer bem alguém que, durante oito anos, esteve com ele ao longo da maior crise de sempre do euro, que o banco central se viu obrigado a salvar in extremis. Foram tempos extraordinariamente exigentes de todos os pontos de vista, que só foi possível superar porque, à frente do BCE, estavam duas mentes capazes de entender a realidade muito para além da macroeconomia e das finanças. Draghi falou das suas extraordinárias capacidades intelectuais, da sua eterna sede de conhecimento, da vastidão dos seus interesses que vão da economia à política, à filosofia e às relações internacionais, da sua capacidade de reconhecer os erros e os corrigir. Do seu humanismo, mantendo sempre em cima da mesa a justiça social. Foi um retrato fiel.

2. A conferência era sobre o futuro dos bancos centrais, apontando já para as lições que a crise financeira e a Grande Recessão nos deram. Mas o passado também deve ser recordado, sobretudo numa altura em que cresce a descrença sobre a possibilidade de levar a cabo uma reforma mais profunda da zona euro, de forma a evitar que a próxima crise tenha as consequências dramáticas (provavelmente piores) daquela que vivemos. Draghi levou o mandato do BCE até aos seus limites, o que implicou uma visão e uma coragem que são raras na eurocracia. Com um mandato, ditado pela Alemanha em Maastricht, que se resume a um único objectivo – manter a inflação controlada –, uma interpretação estrita dos estatutos impediria, em teoria, muitas das decisões que foram tomadas para sossegar os mercados e aliviar a pressão sobre os países mais expostos à crise. No dia 1 de Agosto de 2012, com Constâncio a seu lado, numa comunicação que ficou célebre, Draghi disse e repetiu que o BCE faria tudo, “mas mesmo tudo”, para impedir a fragmentação da união monetária. Com a Alemanha paralisada e a crescente desconfiança dos mercados sobre a vontade de Berlim de salvar o euro, a sua intervenção foi decisiva. O que o BCE fez depois, já sabemos, a começar pelo recurso ao quantitative easing (injectar liquidez nos mercados), a que a Fed recorre sem problemas, mas que, no caso do banco europeu, era uma decisão no mínimo controversa. Foram tempos extremamente difíceis, em que o destino da Europa (que não sobreviveria ao euro, como a chanceler acabou por reconhecer) esteve dependente das decisões que foram tomadas em Frankfurt.

3. Antes de ir para Frankfurt, Vítor Constâncio foi tratado em Portugal como “incompetente”, acusado da responsabilidade de não ter antecipado o “caso de polícia” que foi o BPN, nacionalizado pelo Governo em 2010 (com a anuência do PSD), quando a crise desencadeada pelo colapso do Lehman Brothers já provocara o pior. Não me vou perder em pormenores. Direi apenas que o BPN era um banco criado por gente do PSD que tinha trabalhado nos governos de Cavaco Silva, que via ali um futuro promissor e que não teve o menor pejo de deixar correr o marfim. Nada melhor do que um ataque ao então governador do Banco de Portugal para criar uma conveniente cortina de fumo sobre o que realmente se passou. Resultou, como quase sempre, num país em que a mediocridade continua a ser bastante premiada. O contexto internacional e a ideologia dominante até à crise financeira de 2008 não foram levados em conta. Para quê? Ninguém deu pela célebre frase de Alan Greenspan, quando depôs perante o Congresso americano: “Pensei que os mercados reagissem racionalmente, enganei-me.”

4. Conheço Constâncio desde as salas de aula de Económicas, quando foi meu assistente de Teoria Económica, em plena crise de 1969/70, a nossa pequena parte do Maio de 68, ainda sob o regime fascista. A crise no Quelhas teve algumas particularidades novas. Não era para termos melhores condições de estudo ou sebentas mais baratas. Era para outras duas coisas: denunciar abertamente a guerra colonial (o que as associações de estudantes dominadas pelo PCP sempre tentaram proibir) e contrapor à economia burguesa a economia marxista. Era essa a linha de contestação nas aulas e nos “curso livres” organizados para romper com o saber burguês. Do Capital de Marx às mais avançadas teorias de Wilhelm Reich sobre a revolução sexual. Constâncio aceitava o debate (ao contrário de muitos e muitos professores que, ou se iam embora da faculdade, ou se recusavam a dar aulas, para além de alguns directores com o péssimo hábito de chamar a polícia de choque). Do Capital eu não sabia nada, a não ser resumos bastante ideológicos. Constâncio embaraçava-nos, porque já o tinha lido, sendo-lhe fácil rebatê-lo. Enfim, são apenas memórias que servem para definir o que é uma pessoa. Acompanhei-o depois ao longo da minha vida profissional. Foi líder do Partido Socialista com a tarefa impossível de suceder ao seu fundador. Soares pensava, com razão, que não tinha grande jeito para a política, fazendo-lhe a vida difícil. “Eu estava diante das mentes mais brilhantes do país”, dizia-me Soares, “e eles não percebiam o sentido das coisas.” Eles eram Constâncio, Gama, Guterres, Sampaio. Uns percebiam melhor do que outros, mas de facto eram mentes brilhantes. Constâncio foi o seu ministro das Finanças quando, em 1978, no Governo de coligação entre o PS e o CDS, teve de recorrer ao FMI para endireitar as contas públicas. A herança do PREC era demasiado pesada. Geriu o programa negociado pelo FMI sem sobressaltos. Aliás, há uma curiosa narrativa com pouco que ver com a realidade, mas que passa por verdadeira, segundo a qual foi sempre o PS que levou o país à situação de ter de pedir a intervenção externa. Tirando o caso recente, das outras duas vezes coube ao PS endireitar as contas, desequilibradas por forças alheias. Em 1978, mas também em 1983, depois de um governo da Aliança Democrática, coligação entre PSD, CDS e PPM, que deixou o país em situação de pré-falência. Mário Soares contou com Mota Pinto, recém-eleito líder do PSD, para formar um “bloco central” que teve de aplicar um duro programa de austeridade, evitando pôr em causa o calendário da adesão à Comunidade Europeia.

5. Constâncio esteve oito anos no BCE com enormes responsabilidades, entre as quais, a de montar o mecanismo único de supervisão. Nunca passou despercebido na grande imprensa ocidental, do FT ao Wall Street Journal, passando pelos grandes canais de notícias americanos e britânicos. Deve ter cometido erros na sua longa vida profissional, como toda a gente comete. Tem um percurso que foi e é, a todos os títulos, muito relevante para o país. Beneficiei da sua capacidade intelectual durante toda a minha vida profissional. A sua saída do BCE passou quase desapercebida por cá. Cada um que tire as suas conclusões. A intervenção com que encerrou a conferência, Completing the Odyssean Journey of the European Monetary Union, contém uma espécie de “programa mínimo” para garantir a sustentabilidade do euro, mas que continua a ir muito além daquilo que a Alemanha parece disposta a aceitar. Ele próprio não tem a certeza de que haja condições para o levar por diante. A realidade europeia e internacional, depois da crise financeira, da Grande Recessão e dos ventos de proteccionismo que sopram da América, interpela-nos todos os dias. Dava-nos jeito alguns “Constâncios” para melhorar o debate público.

6. Também faria falta contarmos com alguns “Lucas Pires”. Passaram 20 anos sobre a sua morte inesperada. Tive o privilégio de conviver e de aprender com a sua mente igualmente inquieta, nunca satisfeita, capaz de reflectir como poucos sobre a Europa e o seu futuro. Apenas uma pequena história. Durante uma entrevista que lhe fiz, quando era líder do CDS, Lucas Pires começou a responder a uma pergunta, já não me lembro qual, com uma série de argumentos que eu sabia serem contrários a tudo o que ele verdadeiramente pensava. Talvez porque visse estranheza na minha cara, parou, deu uma sonora gargalhada, e disse qualquer coisa como isto: “Pois é, Teresa, não vale a pena, pois não?”