Primeiro-ministro indigitado desiste de formar governo em Itália

Liga exige novas eleições e 5 Estrelas fala de possível destituição do Presidente, que rejeitou o nome proposto para a Economia e Finanças — Paolo Savona, um eurocéptico.

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Mattarella não permitiu que se pisasse a linha vermelha da permanência no euro
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Guiseppe Conte ALESSANDRO DI MEO/EPA

Giuseppe Conte, o candidato designado para primeiro-ministro de Itália, desistiu de formar Governo depois de o Presidente, Sergio Mattarella, vetar o nome de Paolo Savona para ministro da Economia e Finanças pelas suas posições eurocépticas. O Presidente diz que ainda vai esperar antes de decretar novas eleições, mas o líder da extrema-direita, Matteo Salvini, já as estava a exigir.

A recusa do nome proposto para levou Conte a declarar que desistia da formação de um Governo que iria incluir Salvini. Antes mesmo de terminar a reunião entre Mattarella e Conte (próximo do 5 Estrelas), já Salvini fazia a sua declaração: “Numa democracia, se é que ainda estamos em democracia, a única coisa a fazer é deixar os italianos decidir”, declarou. E disse ainda: “Se temos um ministro que não é apreciado em Berlim, isso quer dizer que é o ministro certo.”

Salvini encontrara-se antes informalmente com o Presidente e o líder do 5 Estrelas, Luigi di Maio, para tentar encontrar uma solução para este impasse.

Di Maio também reagiu com críticas à decisão do Presidente. Num vídeo na sua página no Facebook  classificou-a de “inaceitável”: “É um choque institucional sem precedentes”, disse. “Para que serve votar se são as agências de rating quem decide?”, questionou. O 5 Estrelas já falou mesmo em iniciar um processo de destituição do Presidente.   

Mattarella declarou que ninguém o pode acusar de não ter tentado, nos últimos dois meses, fomentar a formação de um Governo, mesmo que na combinação entre o partido anti-sistema 5 Estrelas e a extrema-direita da Liga. Foram os partidos mais votados nas eleições de Março.

Mas sublinhou que a permanência no euro é “fundamental para o país”, que como Presidente a sua função é também proteger as poupanças dos italianos, e que estas já foram afectadas, tanto no caso de pessoas singulares como de empresas. Savona, sublinhou, falou sobre uma possível saída de Itália do euro, e isso foi uma linha vermelha para Mattarella.

O mais recente livro de Savona, de 81 anos, defende que a Itália deve desenhar um “plano B” para sair do euro, e as suas críticas às políticas do euro assustou ainda mais os mercados, que já antecipavam problemas com a vontade do próximo Governo lidar com a dimensão excessiva da dívida pública italiana.   

Paolo Savona tentou afastar as preocupações com as suas ideias, fazendo uma declaração pública: “Quero uma Europa diferente, mais forte, sim, mas mais igual”, disse. O responsável sublinhou ainda que a sua posição em relação à dívida pública era a mesma que os partidos que formariam o Governo – de que a dívida deve ser reduzida não através de austeridade ou cortes fiscais, mas investimentos e políticas que fomentem o crescimento económico.

Savona já ocupou cargos no Governo – foi ministro da Indústria nos anos 1990 – e teve ainda cargos importantes no Banco de Itália e na associação de patronato Confindustria. 

O ministro cessante da Economia, Pier Carlo Padoan, declarou que o problema não era Savona mas o plano económico da coligação, “claramente insustentável”.

Reagindo à decisão do Presidente, o primeiro-ministro interino, Paolo Gentilloni, disse apoiar Mattarella. Agora é altura, defendeu, “de salvarmos o nosso grande país”.  

A Presidência anunciou que Matterella se irá reunir esta segunda-feira com Carlo Cottarelli, antigo alto responsável do FMI (Fundo Monetário Internacional), o que sugere que poderá pedir-lhe para liderar um Governo tecnocrata.