Com festa de arromba, PT apresenta Lula da Silva como candidato às presidenciais

A cinco meses das presidenciais, esquerda e direita continuam a tentar salvar-se. Temer apresentou Meirelles como candidato e o PT aposta tudo no seu símbolo maior. Mas o mais provável é que tenham de deixar cair os seus candidatos. No meio dos estilhaços há um nome que vai desbravando caminho: Jair Bolsonaro.

Luiz Inácio Lula da Silva, Supremo Tribunal Federal, Sérgio Moro, Tribunal, Supremo Tribunal, Juiz
Foto
Supremo Tribunal Eleitoral toma a decisão sobre Lula em Agosto ANTÓNIO LACERDA/EPA

A menos de cinco meses das eleições presidenciais brasileiras, os principais partidos começam a pôr as suas peças no xadrez eleitoral. O Presidente, Michel Temer, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), lançou o seu antigo ministro das Finanças, Henrique Meirelles, para a corrida eleitoral. Por sua vez, o Partido dos Trabalhadores (PT) vai neste domingo apresentar como candidato o seu símbolo maior, Lula da Silva. Esquerda e direita tentam salvar-se, mas as possibilidades de sucesso são quase nulas.

No início de Maio, e numa altura em que a sua candidatura era ainda uma possibilidade, Temer admitia que podia desistir para apoiar um candidato que unisse o centro-direita. Duas semanas depois apresentou o seu próprio candidato: Henrique Meirelles.

Esta escolha indica a “constatação da incapacidade eleitoral do actual Presidente, que tem um índice de rejeição altíssimo”, diz ao PÚBLICO Renato Perissinoto, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná. Perseguido por casos de corrupção, os níveis de popularidade de Temer estão também em mínimos históricos. E Meirelles tem 1% das preferências de voto segundo as últimas sondagens. 

Meirelles é quem tem na sua posse a principal bandeira eleitoral do actual Governo e que é constantemente agitada por Temer. “Meirelles pelo menos teria a suposta recuperação económica para mostrar em público”, explica Perissinoto.

Mas a escolha de Meirelles pode ser explicada igualmente pelo facto de o antigo presidente do Banco Central do Brasil durante os dois governos de Lula da Silva ter a capacidade de financiar a sua própria campanha, libertando fundos para o MBD apostar no reforço da sua presença a nível local e no Congresso. Este facto ganha maior relevância pois, na sequência do escândalo da Lava-Jato, as empresas terem ficado proibidas de financiarem campanhas eleitorais.

Por outro lado, não faria sentido o partido no poder não apresentar o seu próprio candidato: “Seria um atestado de fracasso”, analisa Perissinoto.

Unir o centro-direita?

Mas a decisão de Temer pode tornar o seu objectivo de unir o centro-direita mais difícil de alcançar, pois Meirelles não é consensual nem dentro do seu próprio partido.

Aliás, quando Temer o apresentou como candidato, avisou: se algum militante não quiser apoiar este candidato que “saia do partido”.

Porém, este aviso pouco ou nenhum efeito terá. “Meirelles vai ser lançado pelo MDB mas na verdade as lideranças regionais do partido vão acabar por apoiar quem acharem que tem maiores hipóteses”, prevê Preissinoto.

“Os candidatos apresentados até aqui não mostraram suficiente viabilidade eleitoral para que se crie um pólo de união. Quem seria então o candidato certo? Não é fácil dizer”, diz ao PÚBLICO Glauco Peres da Silva, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo.

“O centro-direita carece de um candidato que seja capaz de o unir”, reforça Perissinoto. “O centro e a direita já estão divididos. Tudo é uma incógnita, ninguém sabe bem o que vai acontecer”.

O “Pelé” do PT

Para este domingo está preparada uma festa de arromba em alguns locais do Brasil para lançar a campanha presidencial de Lula da Silva. Logicamente, o antigo Presidente não estará: está preso em Curitiba depois de ter sido condenado a 12 anos e um mês de prisão num dos processos em que é arguido na Lava-Jato.

Tal como Meirelles e Temer, as possibilidades de vitória de Lula são quase nulas. Neste caso não é por irrelevância eleitoral, visto que o antigo Presidente surge destacado em primeiro lugar em todas as sondagens (com cerca de 30%). Mas porque tudo indica que seja impedido de se candidatar - a chamada Lei da Ficha Limpa proíbe alguém condenado por crimes cometidos em cargos públicos de se candidatar a eleições; a decisão será tomada pelo Supremo Tribunal Eleitoral em Agosto.

Se a vitória é quase impossível, porque aposta o PT em Lula? “É muito difícil abandonar um nome que tem uma simbologia gigantesca para o partido e para a política brasileira”, diz Perissinotto.

Numa entrevista ao El País Brasil, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, apontou os motivos para o apoio a Lula: "Primeiro, porque ele é inocente”. "E ele é o nosso Pelé. É o melhor que nós temos na equipa”.

As sondagens, a convicção da inocência de Lula e o seu legado histórico deixaram o PT de mãos atadas, mas esta candidatura vai dividir a esquerda e criar um problema ao partido. “A candidatura de Lula  possibilita que outras candidaturas no campo da esquerda tenham coragem de se apresentar. Tudo isto divide a esquerda”, diz Peres da Silva.

“Em determinado momento o sentido de sobrevivência vai vingar dentro do PT e vão fazer uma aliança com Ciro Gomes”, prevê Perissinoto. “É mais um drama que o PT está a viver.”

Caminho aberto a Bolsonaro?

As profundas divisões à esquerda e à direita estão a deixar caminho livre para outros candidatos. Nomeadamente para Jair Bolsonaro, o antigo coronel de extrema-direita, que se tem mantido em segundo lugar nas sondagens (oscila entre os 15 e os 17%).

“Bolsonaro tem sido o mais beneficiado destas divisões à esquerda e à direita”, aponta Perissinoto. “A direita beneficia-o porque não surge um candidato que lhe possa roubar votos. A esquerda porque perde força para combater um discurso de extrema-direita”.

Peres da Silva diz que o eleitorado “localizado à extrema-direita parece ser fiel o suficiente para tornar a candidatura de Bolsonaro viável para disputar a segunda volta das presidenciais”.

Mesmo assim é impossível fazer qualquer tipo de previsão sobre o que se vai passar a 7 de Outubro. Até porque, segundo a última sondagem do Instituto Datafolha, de Abril, 67% dos eleitores ainda não decidiu em quem votar.