Entrevista

Faltam especialistas em circulação pedonal

Falando de mobilidade, o geógrafo Rio Fernandes acha “estranho que não haja especialistas em circulação pedonal”.

Administração de Empresas
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Nelson Garrido

Esta semana organizaram-se várias iniciativas em torno da mobilidade. Falou-se muito de transportes e pouco de peões. Vê isso como um problema?
Não diria que é um problema. É uma realidade. Acho muito estranho que não haja especialistas em circulação pedonal. Da bicicleta já vai havendo.

E até há associações de ciclistas. Já quanto a grupos de peões...
Não conheço, de facto. E, no entanto, é um modo de circulação extremamente importante. Como dizia um autor francês, a pé todos andamos. Temos de cuidar do espaço para este tipo de circulação, mas o que vejo por aí é uma postura passiva. Ser proactivo significaria ver quais são os percursos de que os peões mais gostam, quais as constrições existentes, que espaços públicos devem ser multiusos e que espaços devem ser jardins, com bancos confortáveis, por exemplo. Em Oslo foram instaladas umas cadeiras grandes, que dão para um tipo se deitar, espreguiçar, voltado para o mar, sem pagar nada. A circulação a pé para mim é central. É a circulação mais urbana que temos, a que permite mais bem-estar e a que acontece nas cidades mais interessantes. E que, além disso, nos obriga a tornar os espaços mais interessantes, para serem percorridos pelas pessoas — o que significa construir passeios mais largos, dar prioridade aos peões, em relação aos automóveis, desenhar percursos fáceis, com zonas de descanso que não sejam apenas as esplanadas, onde se paga. Eu acho que este tipo de resposta dá mais conforto às pessoas que vivem na cidade — seja ela Lisboa, Porto, Rio Tinto, Amadora ou Loures, ou qualquer uma das nossas pequenas e médias cidades. Esta é a política do futuro, até porque o investimento é muito pequeno para os efeitos que tem na qualidade de vida das pessoas.

Em Portugal investiu-se muito nos centros históricos, onde já temos muito espaço público pedonal até.
O investimento, feito com os nossos impostos, é mais útil quando chega aos mais frágeis, estejam eles onde estiverem. Esse investimento nos centros históricos, nos espaços turísticos, não pode impedir que se cuide dos que não têm um espaço público, e às vezes nem sequer passeios para andar. Isso é contraproducente, é a ausência de política. Espero que aprendamos alguma coisa com os escandinavos e passemos a cuidar mais dos nossos, e a preocuparmo-nos menos com o turista, ou com o grande investidor que vem aí fazer um negócio, mas que só o faz se lhe derem isto e aquilo. É óptimo gerar emprego e produzir riqueza, o turismo é óptimo — eu gosto muito de ser turista —, mas não pode é haver deslumbramento. Isto tem de ser apenas um dos pilares de uma política. Faz-me imensa impressão que nos centros históricos fortemente inflacionados pela procura turística não se pague IMI na habitação. É património da humanidade, mas é onde se fazem mais negócios. E então sou eu que estou a patrocinar os negócios do imobiliário na Rua das Flores, no Porto? Isto é um contra-senso.

Um disparate sem lógica. A medida poderia ter feito sentido há dez anos — e mesmo aí é discutível — mas hoje? E, com toda a informação que temos, devemos ser capazes de, perante a mudança de circunstâncias, mudar a política e direccionar esse incentivo para zonas que precisem efectivamente dele.