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Chineses põem Fidelidade a investir em cerveja, roupa e turismo

Seguradora detida em 85% pela Fosun e em 15% pela CGD passou a ser accionista, desde Março passado, da cervejeira chinesa Tsingtao. É mais uma diversificação na carteira de investimento da Fidelidade, que nos últimos quatro anos se tornou accionista da cadeia hoteleira Club Med, do operador turístico Thomas Cook e da retalhista de pronto-a-vestir Tom Tailor.
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A Fidelidade é, desde Março, accionista de uma cervejeira chinesa CANCAN CHU/GETTY IMAGES

Por 6,6 mil milhões de dólares de Hong Kong (cerca de 712 milhões de euros ao câmbio actual), o grupo chinês Fosun concluiu em Março a aquisição de 17,99% do grupo Tsingtao Brewery, dono da segunda maior cervejeira da China e uma das maiores do mundo. Os vendedores foram os japoneses da Asahi, que decidiram em final de 2017 sair da produtora chinesa. E um dos compradores, pelo grupo Fosun, foi a Fidelidade.

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O negócio cervejeiro, anunciado no final de Dezembro, envolveu, pelo lado do comprador, a “Fosun Industrial Holdings Limited, a Peak Reinsurance Company Limited, a Fidelidade, a Star Insurance Company e a China Momentum Investment Limited”. A operação foi concluída 19 de Março deste ano, com a Fidelidade a deter 2,55% da Tsingtao, como foi comunicado ao mercado, uma vez que a Fosun é cotada na praça de Hong Kong. E está igualmente reiterado no relatório e contas consolidado da Fosun, que os accionistas do conglomerado chinês analisam e votam no próximo dia 6 de Junho.

No documento, disponível no site da Fosun, é resumido o desempenho da Fosun Insurance Portugal, que representa os activos seguradores do grupo em Portugal: ou seja, 85% da Fidelidade (os restantes 15% mantêm-se na Caixa Geral de Depósitos), 80% da Fidelidade Assistência e 80% da Multicare – Seguros de Saúde. Fosun e Fidelidade detêm, em conjunto, mais de 98,79% da Luz Saúde.

Ao ler o relatório e contas da Fosun de 2017 fica-se ainda com a relação das compras do grupo chinês em que a Fidelidade (adquirida no início de 2014) entrou e as participações que detinha, à data de 31 de Dezembro passado: 19,53% do Club Med (a mais longa disputa de uma cotada francesa, que durou 21 meses e terminou em 98,29% do capital controlado pelo consórcio liderado pela Fosun e os seus accionistas, em Março de 2015), 7,225% do operador turístico britânico Thomas Cook (controlado em 11,16% pelo mesmo universo accionário chinês), e 10,49% da retalhista de vestuário alemã Tom Tailor, da qual o agrupamento controlado por Guo Guangchang tem 28,89%. 

Quando, no início de 2014, a Fosun levava o relatório e contas do ano anterior a assembleia magna de accionista, a cotada chinesa explicava que o agrupamento segurador português que acordara adquirir por mil milhões de euros, que designa por Fosun Insurance Portugal, detinha “cerca de 12 mil milhões de euros em activos de investimento” a 31 de Dezembro de 2013. A compra, acrescentava, permitia “ao grupo aumentar o retorno à Fosun Insurance Portugal ao alavancar a sua capacidade de investimento ímpar”. Um ano depois, no R&C de 2014, a Fosun descrevia a compra da Fidelidade como “uma das mais importantes aquisições" para a holding chinesa "nos últimos 23 anos, adicionando mais de 13 mil milhões de euros de novos activos ao grupo”. No final de 2017, o valor dos activos de investimento da Fosun Insurance Portugal ascendiam a 14,97 mil milhões de euros, segundo as contas da Fosun.

Contactada a Fosun sobre a estratégia de investimento para a Fidelidade, e em que empresas participava além da Tsingtao, Club Med e Thomas Cook, fonte oficial do grupo chinês respondeu, por escrito, ao PÚBLICO: “seria inviável detalhar todos os investimentos feitos pela Fidelidade, até porque desconhecemos esse detalhe”, confirmando apenas as participações no operador turístico e na cervejeira. “Importa referir”, respondeu a Fosun, “que estes investimentos representam, em valor absoluto e em qualquer dos casos, menos de 1% do total dos activos sob gestão da Fidelidade”.

Na mesma resposta, a mesma fonte ressalvou ainda que numa “linha de prudência, a exposição a activos da Fidelidade em que a contraparte era um dos seus accionistas limitava-se, no final de Dezembro 2017, a apenas 3,0% de exposição a activos relacionados com a Fosun e 4,4% de exposição a activos relacionados com o accionista CGD, muito longe do limite que se encontra estipulado nos 10% por cada um dos accionistas". Sobre a estratégia futura da seguradora portuguesa, o grupo chinês disse: “a Fosun não pode responder quanto a futuros investimentos que venham a ser efectuados pela Fidelidade”.

Na onda das privatizações

Em termos de capital aplicado em Portugal, a Fosun rivaliza com o Estado chinês, dono de 28% da EDP via China Three Gorges (CTG) e CNIC – lançou agora uma OPA via CTG para dominar mais de 50% da eléctrica – e de 25% da REN através da State Grid. E, tal como o Estado chinês, a Fosun aproveitou a onda das privatizações para entrar no mercado nacional.

Em Janeiro de 2014, já com Pequim a afirmar-se como o maior accionista da EDP e da REN, a Fosun tornou-se conhecida em Portugal ao ganhar a corrida aos 80% da Fidelidade vendidos pela Caixa Geral de Depósitos (deixando de lado o fundo norte-americano Apollo).

Após a oferta de 5% para os trabalhadores ter ficado quase deserta, a Fosun acabou por ficar com perto de 85%, cabendo ainda os outros 15% ao banco público, que se tornou numa espécie de parceiro silencioso. Logo em Abril desse ano, a Fosun, via Fidelidade, entrou no capital da REN (ao lado da State Grid), da qual detém hoje 5,3%. Cinco meses depois, em Setembro, a Fosun, novamente através da Fidelidade, entra na corrida à Espírito Santo Saúde (hoje Luz Saúde) protagonizada após o colapso do BES. Depois de ter dispersado 49% do capital em bolsa em Fevereiro, a empresa viu-se alvo de uma OPA, lançada em pleno Agosto pelos mexicanos da Ángeles e que envolvia também a compra dos 51% detidos por entidades ligadas ao BES/GES, já sob gestão controlada.

Esta acabou por ser tornar na OPA mais concorrida de sempre em Portugal, com a entrada em cena do grupo José de Mello e da Fidelidade, além de uma proposta directa, fora de bolsa, dos norte-americanos da Unitedhealth. No final, ganhou a Fosun através do factor preço. Hoje, é dona de 98,78% do capital da Luz Saúde, estando em curso uma operação de compra do resto das acções para tirar a empresa da bolsa, reduzindo assim sua presença no mercado de capitais a pouco mais de quatro anos.

O preço que a Fosun oferece aos pequenos accionistas é de 5,71 euros por acção (o valor final será determinado pelo regulador do mercado de capitais, a CMVM) o mesmo que foi praticado numa operação dentro de casa: em Janeiro deste ano, a Fidelidade vendeu 49% do capital à Fosun International, o que gerou a entrada de 267 milhões de euros nas contas da seguradora.

“Quanto à venda de 49% do capital referida”, respondeu agora a Fosun ao PÚBLICO, a operação “mais não é do que uma realocação de participações dentro do grupo, e não implica qualquer alteração do modelo de gestão da Luz Saúde, ou da estratégia de parceria há muito estabelecida entre a Luz Saúde e a Fidelidade”.

A influência da Fosun alargou-se também à banca, com o grupo chinês, após ter falhado o controlo do Novo Banco, a assumir uma posição de relevo no BCP no final de 2016. Através de um aumento de capital exclusivo, e com a instituição financeira a precisar de liquidez para reembolsar o empréstimo do Estado, a Fosun pagou 175 milhões por 16,7% e assumiu-se com o maior accionista. Hoje, já detém 27%, com autorização para chegar aos 30%. Em segundo lugar está a petrolífera Sonangol, com 19,49%, seguindo-se depois a EDP a larga distância, com 2,11%.