Triângulo
Rui Soares/Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas

Na experiência de um lugar, com a memória de um arquivo

No Centro de Artes Arquipélago, em São Miguel, uma exposição apresenta o espectador ao trabalho dos 13 artistas que, até Março do próximo ano, darão corpo ao projecto Geometria Sónica. Inspirados pela realidade viva de uma geografia e pelas imagens e pelos sons do passado arquivado pela RTP.

Lugar, arquivo, experiência, sons, matéria. Até Março de 2019, no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, nos Açores, Geometria Sónica promete construir-se com os significados destas palavras. Composto por trabalhos de 13 artistas e com a curadoria de Nuno Faria e Nicolau Tudela, é mais do que um projecto expositivo: constitui-se como uma sequência de momentos – investigação, produção, exposição e circulação – que coloca os artistas num espaço (o Arquipélago) e numa paisagem (a de São Miguel e da Ribeira Grande), mas ao mesmo tempo diante de sons e imagens provenientes do arquivo audiovisual da RTP.

Estas são as condições, sem prejuízo da liberdade individual, afinal a grande condição do gesto artístico, que cada artista revindicará para pensar, fazer e mostrar. Mas antes de revelar os primeiros desenhos, Geometria Sónica tem um prólogo – ou antes, um índice – na exposição que, até 5 de Agosto, apresenta os artistas no espaço e o espaço aos artistas, através de obras recentes e de outras mais remotas. Ocupando as três salas do edifício principal do Arquipélago, e estendendo-se às caves da antiga Fábrica de Tabaco Micaelense, Índice declina-se numa série de experiências dirigidas aos sentidos, nomeadamente à audição. “A importância do trabalho com o som foi um dos critérios para a selecção dos 13 nomes, tal como a experimentação e a colaboração. Recordo que alguns destes artistas trabalham juntos. São os casos da Mariana Caló e do Francisco Queimadela ou da Sara Bichão e da Manon Harrois. Ou colaboraram em projectos, como o Miguel Leal e o Pedro Tudela”, diz ao Ípsilon Nuno Faria.

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Tomás Cunha Ferreira levou aos Açores desenhos da série A picture book of invisible worlds, que evoca a história da arte moderna e a poesia concreta Rui Soares/Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas

A disponibilidade, a abertura para trabalhar num território diferente, no âmbito de residências, explorando a geografia do lugar, com as suas particularidades, também contribuiu para escolha, a par de outro factor não menos importante: “Uma questão com que muitas das obras vão lidar é a preponderância de outros sentidos face à visão”, elabora o curador. “Não que a imagem não seja importante, pois a geometria também a convoca. Nesse sentido, aquilo que me interessou foi a não-especialização dos artistas, o facto de conseguirem operar entre diferentes disciplinas, muitas vezes ligando-as entre si, de uma forma mais ou menos inusitada”.

Paisagem e transformação

As residências realizam-se até ao final deste ano e darão origem a três ciclos expositivos, o primeiro incluindo obras de Francisco Janes, Laetitia Morais, Manon Harrois e Sara Bichão, aos quais se seguirão, até 31 de Março, os nove nomes restantes. Alguns artistas que vivem nos Açores também serão convidados a colaborar e haverá uma programação paralela musical e performativa que terá o contributo da equipa do Festival Tremor. Quanto ao arquivo sonoro e audiovisual da RTP, constitui um dos aspectos mais singulares do projecto. Os artistas vão poder explorar as suas imagens, os seus sons (nas suas diferentes modalidades), investigando a História do arquipélago açoriano ou do país. “A direcção [do Arquipélago] já tinha estabelecido um protocolo com a RTP, que agora procurámos expandir e aprofundar. Haverá não apenas a possibilidade de investigar, in situ, o território, como de trabalhar sobre um arquivo que se confunde com a nossa memória, com o magma da nossa modernidade e pós-modernidade.”

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Sobre o papel, o gesto de Pedro Tropa deixou, a carvão, manchas nervosas, repetitivas, que abordam a paisagem — tema que aliás admite retomar ao longo do projecto Geometria Sónica, fazendo “uma pequena incursão à volta da ilha” Rui Soares/Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas

Em Índice, a relação com a memória que a televisão pública foi erigindo encontra-se representada num conjunto de pequenas salas. A cada uma corresponde um programa televisivo sobre os Açores: há vistas da erupção do vulcão dos Capelinhos, em 1957, imagens de Agostinho da Silva e das festas do Divino Espírito Santo, um documentário sobre o panorama socio-económico de São Miguel, realizado em 1989. O cariz etnográfico das imagens (selecionadas por Nicolau Tudela e Nuno Faria) e as questões de ordem social, cultural e política que o arquivo a priori levanta não sugerem uma relação óbvia com os interesses e as sensibilidades do grupo de artistas escolhidos. Outros nomes seriam à partida mais previsíveis, dada a natureza mais “política” ou politizada das suas abordagens e a presença do documental.

“Essa é uma boa observação”, considera Pedro Tropa, um dos artistas participantes. “Não me parece de facto que vamos nessa direcção. No meu caso, não gosto de pegar em imagens e sons pré-existentes. Nunca tive esse desejo de apropriação. Gosto de começar de uma experiência que, com frequência, nem é visual, e transformá-la. Se pegar em imagens e sons já existentes, creio que vai haver alguma transformação.” Na exposição, o artista apresenta uma série de 11 trabalhos, dos quais se destacam imagens fotográficas e uma série recente de desenhos. A propósito destes, reflecte: “Vou encontrando variações e vão surgido sequências segundo essas variações. Por isso, há uma intensidade quase mecânica. Parto sempre de uma experiência fora do estúdio. O primeiro impulso é andar a pé, fazer caminhadas. Muitas vezes em montanha. E os desenhos passam por ser impressões dessas experiências.”

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Filmes como o de Francisco Queimadela e Mariana Caló, que o espectador encontra nas caves do Arquipélago, fazem o som propagar-se pelos corredores e atravessar paredes, tornando bem concreto o título do projecto Rui Soares/Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas

Sobre o papel, o gesto do artista deixou, a carvão, manchas nervosas, repetitivas, por vezes geométricas, que representam paisagens. “Há uma certa radiação no traço, uma coisa que se repete. Um vocabulário de gestos intensos e repetitivos. Olho para eles como se fossem desenhos de paisagem, mas de uma paisagem feita por um desenhador que também é um operador.” Destes trabalhos há nexos a explorar durante os próximos meses: “É possível que traga essa dimensão do caminhar. Talvez faça uma pequena incursão à volta da ilha, separando o trabalho em estúdio do trabalho no exterior. Gosto das montanhas, do facto de não haver vegetação. É mais agreste, mais rarefeito e sente-se a transformação a deixar marcas, rasgos.”

Estar na ilha

A paisagem é também um tópico de Helena e Olivier (2018), filme realizado por Laetitia Morais na fronteira entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. Um homem interpela uma mulher e juntos descem uma duna, afastando-se, até se transformarem em dois pequenos pontos. Vemo-los ao longe, enquanto à sua volta o vento levanta a areia. Dois planos nascem, então, diante do espectador: o da paisagem do deserto, cada vez mais pictórica e bidimensional, e o das duas personagens, cujos movimentos se tornam quase imperceptíveis. “Não é nada encenado”, esclarece a artista. “Estava entretida a gravar o som da areia, quando o guia quis explicar-me o modo como a percepção do deserto se altera. No fim, por acaso, ficou este distanciamento da câmara, em que não se ouve a conversa, apenas o barulho da areia.”

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Os objectos de Sara Bichão remetem para uma tensão formal e física: “Há uma ameaça latente em todas as obras, tanto quando as faço como quando as exponho”, diz-nos Rui Soares/Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas
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Rui Soares/Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas

A relação entre o Ocidente e o Oriente, os seus pontos de intersecção, o modo como coisas e materiais diferentes se complementam, se encontram, se encaixam, são tópicos que atraem o interesse da artista e que deixam entrever a sua aproximação a Geometria Sónica. “Não venho com ideias pré-definidas. O interessante é estar na ilha, ver as combinações ou as tensões entre o que podem ser, neste lugar, o passado, o presente, um possível futuro. O meu trabalho lida com muito com a noção de experiência incorporada e faço quase o exercício de não pensar demasiado. Mas certamente que irá haver uma adaptação ao lugar, uma relação com o espaço. Uma materialização desse arquivo, de forma mais plástica ou material.”

Já as peças e os objectos de Sara Bichão remetem para uma tensão formal e física. “O meu trabalho está cada vez mais relacionado com uma noção do corpo. O ponto da gravidade e dos limites físicos tornou-se importante. Há uma ameaça latente em todas as obras, tanto quando as faço como quando as exponho.” A presença da manualidade é outro elemento incontornável. “Preciso de ter tempo com as peças, tenho uma história, uma relação com elas que é manual.” Sobre a relação com o arquivo da RTP, a artista prefere deixar o futuro em aberto, sem orientações prévias ou constrangimentos: “Numa residência, reagimos aos estímulos, ainda preciso de vir para aqui. O que me interessa é estar na ilha e perceber como fisicamente se relaciona comigo. O arquivo poderá funcionar como uma espécie de background sonoro e visual, mas não tenho vontade de trabalhar com uma matéria específica.” 

Tomás Cunha Ferreira, que tem colaborado com Mike Cooter (outro dos 13 artistas), contribuiu com A picture book of invisible worlds (2018), uma série de desenhos feitos de fios que evocam a história da arte moderna e a poesia concreta. E revela expectativas mais claras acerca do arquivo da RTP: “Conheço algumas pessoas que têm trabalhado com os seus materiais, nomeadamente no âmbito da rádio [mencione-se que o artista tem, com Matilde Campilho, um programa na Antena 3, Pingue Pongue], mas também no vídeo. Isso tem-me despertado muito o interesse na edição, na montagem, na colagem. Ao contrário que acontece na exposição, em que só mostro uma faceta, espero vir a misturar música, gesto, palavra, som e até pintura. Por isso, posso dizer que, mais do que o lugar, o arquivo vai ser a minha ilha.”

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Laetitia Morais realizou o filme Helena e Olivier na fronteira entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita Rui Soares/Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas

Na primeira sala, os trabalhos de Francisco Janes compõem uma constelação de imagens de lugares e paisagens. Há Avistamento, a série iniciada em 2006, dedicada ao fenómeno da glaciação, filmes sem título que mostram planos de água, e Regada, filme que, aludindo ao lugar onde actualmente vive o artista e músico Rafael Toral, mostra uma floresta destruída pela passagem do fogo. “É a primeira vez que reúno estes trabalhos numa exposição. Procuro validar qualquer experiência em termos de duração, independentemente do tempo de cada trabalho. Quero que as combinações entre as diferentes imagens possam oferecer um índice de um todo, que só tem uma existência concreta e material para quem passa pelo espaço.”

Uma experiência semelhante é sugerida pelas propostas fílmicas de Jonathan Uliel Saldanha e de Francisco Queimadela e Mariana Caló, que o espectador encontrará nas caves do Arquipélago. Das imagens, os sons propagam-se pelos corredores e atravessam paredes, aflorando o conceito de geométrica sónica que dá o título ao projecto. “Tem uma dimensão científica e ao mesmo tempo esotérica, não se trata de um neologismo”, esclarece Nuno Faria. “Remete para uma relação entre certos padrões ou frequências sonoras e a construção, a edificação de monumentos primitivos, arcaicos, que de uma certa forma espelham constelações, configurações estelares.” É esta relação entre o visível e o som que Geometria Sónica começará a desenhar. Com 13 artistas a colocarem-se entre a experiência de um lugar e a memória de um arquivo.

O Ípsilon viajou a convite do Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas