“A grande igreja sem paredes é Fátima”

Para frei Bento Domingues, é através de Fátima que se percebe o que se passa com a religião dos portugueses. O teólogo anda à procura de que é feita esta religião no tempo pós-cristão. E o santuário para onde todos os outros convergiram vai ter, pela primeira vez, um cardeal a tutelá-lo.

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Daniel Rocha

“O que é isto?” Tantas vezes frei Bento Domingues faz a pergunta ao olhar para Fátima, tantas são as respostas a que chega e as que estão ainda por descobrir. Na “grande Igreja sem paredes”, no “cais do país todo”, onde se vive uma “religião do coração” e que se “foi impondo”, há sempre mais uma pergunta. “É um enigma”, diz o teólogo dominicano, que chegou a Fátima pela primeira vez por volta de 1947. Trinta anos depois passou a livro essa reflexão, agora reedita-o, em versão revista e aumentada, com textos inéditos. A Religião dos Portugueses (ed. Temas e Debates) marca desde então a reflexão antropológica, sociológica e teológica sobre a religiosidade portuguesa e sobre Fátima, em particular.

Começou por achar o fenómeno “uma tristeza” e por problematizá-lo de forma negativa, conta ao PÚBLICO. E não era pela falta de estética, à qual “deram depois muita volta” até Fátima ser hoje uma praça ampla de duas basílicas e uma capela.

O que o impressionava nesse tempo na história das aparições era “a ameaça do inferno e o desonrar a memória de uma rapariga que morrera”. Lúcia escreveu que perguntou a Maria pelos amigos que tinham ido para o céu e a Virgem respondeu que uma rapariga do grupo ficaria no purgatório até ao fim do mundo. “E eu pensava ‘como é que ela sabe onde é o fim do mundo?’”

Ao longo dos anos várias vezes passou ou parou em Fátima, quando estudou e mais tarde deu aulas, no convento dos dominicanos na Aldeia Nova. Nos tempos de seminarista, com os colegas, questionava celebridades convidadas a fazer conferências a explicar o milagre.

Um dia perguntaram a Gabriel Marcel, filósofo do existencialismo cristão, como era possível que Maria tivesse aparecido numa azinheira, ao que este respondeu que “se for nossa senhora, ela vem como lhe apetecer”. Lembra-se também do riso na sala.

Passaram os tempos do regime de Salazar, da emigração, da guerra colonial, do Concílio do Vaticano II, da revolução do 25 de Abril, da descolonização, e chegou o chamado pós-cristianismo. “As imagens de Fátima também se foram modificando, cada vez havia mais gente, e eu interrogava aquilo tudo: ‘O que busca esta gente?’”

Um dia – recorda – um outro frade dominicano, professor no Canadá de visita a Fátima, definiu-a como expressão “mesmo anti-marxista: a super-estrutura ideológica, e não a infra-estrutura, fez uma cidade”. Era uma imagem tão diferente.

Frei Bento, por seu lado, continuava atraído pelo mistério das pessoas em Fátima: “elas é que vão, ninguém as obriga, o que há dentro delas que, uma vez ali, resolvem o problema?”

Captou, entretanto, que “o catolicismo sofreu uma grande mutação com o Papa João XXIII e com o Vaticano II, e nada disso tinha influência em Fátima". "Continuava conforme se foi desenvolvendo a partir das chamadas aparições, agora chamadas visões”, desde o documento do cardeal Ratzinger sobre o “segredo de Fátima”, em 2000.

“Catolicismo rural”

Vaticinou-se ainda vida breve a Fátima depois do 25 de Abril, porque era “catolicismo rural” e apostava-se que “a ruralidade portuguesa, por causa da emigração, ia acabar, era coisa de gente idosa”. Até a televisão passou a concorrer com o tempo do terço ao fim do dia. Mas sucedeu tudo ao contrário, remata frei Bento.

“Pouco a pouco tudo se concentrou em Fátima”, os outros santuários foram-se esvaziando. E “é cada vez mais gente” a convergir para a chamada última grande peregrinação do Ocidente. Recebeu em 2017, ano de visita papal, mais de 9,5 milhões de pessoas, de outras religiões igualmente, como os hindus.

“A grande igreja sem paredes é Fátima. Andou-se a discutir uma igreja sem paredes, mas ela existe, as pessoas ali reúnem-se – porque a igreja são as pessoas – e não precisam de paredes” . Nota que essa condição, tão física quanto simbólica, se antecipou às propostas da arquitectura de hoje dos locais de culto.

Por isso, acrescenta, “não há um fenómeno Fátima, há muitos". "As pessoas ouviram muitas vezes a história mas não é isso que lhes interessa.” É a sua própria vida, dirá. “Cada um tem um problema com Fátima, é uma doença, são problemas familiares, são sofrimentos, são esperanças”, com uma eventual confissão, longe do padre da paróquia.

O que isso representa, sublinha, é que Fátima “começou a ser o lugar de uma individuação da religião, a relação com o cristianismo passou a ser algo pessoal, individual, cada um tem a sua religião debaixo do mesmo céu”. Fora do cânone da Igreja Católica, embora nela enquadrada, o santuário abriu a porta a uma liberdade individual. E não só, também a um “grande sentido de grupo, de povo”.

Velas num “mar de luz”

Na Procissão das Velas, os peregrinos esperam pela noite para erguerem as velas num “mar de luz” que, para este dominicano, é “uma alumiação, iluminação também dentro das pessoas”. Depois chega a Procissão do Adeus e, com ela, “o fundo de Fátima”, ao transformar-se no “cais do país todo”. No momento mais simbólico da peregrinação, “as pessoas choramingam, abanam os lenços e dizem adeus. Já sabem que não é nada adeus, elas vão voltar. É a interiorização inconsciente de todos e de tudo o que nos despedimos na vida” .

Em Fátima, “estão ali de coração com Nossa Senhora, de coração umas com as outras, a rever toda a sua vida”, são milhões de pessoas, “ninguém agride ninguém”. “É o nosso céu possível”, conclui. É quase uma pausa na viagem quando assinala “tanta ameaça que há nas aparições e no final [Maria] diz ‘o meu coração vencerá’. Finalmente o coração é que vence.”

Com tantos santuários marianos no mundo, o que faz a diferença neste? Uma resposta “foi não haver milagres”. O primeiro milagre que levou à canonização dos pastorinhos demorou 100 anos a chegar. Frei Bento prefere falar de um “milagre das pessoas” que “em Fátima descobrem sentido de viver, mesmo no meio do sofrimento e da dor (...). Não é se os pastorinhos viram ou não viram, as pessoas é que estão a ver”.

Em A Religião dos Portugueses – Testemunhos do tempo presente (organização de António Marujo e Maria Julieta Dias), frei Bento torna o “catolicismo do coração” um tema central de muitos anos de caminho a “problematizar”, como gosta de fazer. Recupera textos de edições esgotadas desde os anos de 1990 que abordam temas actuais, outros que foram crónicas no PÚBLICO e inclui ainda um inédito, no qual até entra o Presidente dos “afectos”.

“O trabalho político dele é o resultado da acção social, as pessoas pensam que há alguém que pensa nelas, isso é a essência da religião, é pensar que alguém pensa em nós, que não estamos sozinhos”. Em vez das percentagens de popularidade, a importância de Marcelo Rebelo de Sousa mede-se pelo “contágio”, na sua opinião.

Após a muita investigação das últimas décadas sobre a religião em Portugal, frei Bento crê que as ciências humanas vão começar a estudar domínios mais próximos da psicologia, da antropologia, do imaginário, e a olhar para o tempo pós-cristão. Um tempo que pode ter começado ainda com Salazar, quando se opôs à inclusão do nome de Deus na revisão constitucional de 1959 – uma hipótese de várias décadas e que ainda não teve resposta.

O que lhe interessa também é ver que “a recomposição religiosa do catolicismo português e da sua religião está a ser caldeada em Fátima” e como o Papa Francisco a pode tocar. “Será que a peregrinação do Papa Francisco a Fátima e os textos das suas intervenções conseguirão convencer as lideranças da Igreja em Portugal de que, sob o ponto de vista do Evangelho, Fátima seja o desassossego da sua religiosidade?”

No ano passado, o Papa Francisco procurou um novo conteúdo para Fátima, “queria que fosse o lugar de uma Igreja de saída, renovada”, mas frei Bento admite que nesta parte não teve eco, tendo para isso uma explicação: “O Papa é peregrino de Fátima, não é Fátima que é peregrina do Papa”.

Acredita que o efeito de Francisco na Igreja vai chegar a Fátima por outro caminho. Um ano depois da sua visita papal é anunciado que o bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, será nomeado cardeal no próximo consistório, marcado para 29 de Junho, no Vaticano.

“Ainda não realizámos a revolução do Papa Francisco, que introduziu o pensamento, as mãos, o coração, a misericórdia, um ano todo a falar de misericórdia de Deus! Foi a religião do coração durante um ano inteiro, pregada por todo o lado, e veja a resistência dos legalistas, das pessoas que querem a reafirmação do catolicismo ortodoxo, que se organiza para dizer que ele já caiu em oito heresias.”

O coração mete medo? “Sim, porque se não, não podes controlar”.
Parece a discussão do regresso do tempo religioso, mas “não, é uma capacidade de menos auto-ilusão”, uma “percepção da precariedade”. “O mundo que construímos não é a imagem do mundo invisível que confessamos, é por nossa conta e risco. O cristianismo é uma espécie de religião de saída dessa religião que tinha já tudo previsto”.

A Religião dos Portugueses será apresentado por José Tolentino Mendonça, na próxima terça-feira, em Lisboa.

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