Portugal está mais pobre

De uma só vez perdemos António Arnaut e Júlio Pomar.

O título do meu artigo não é engano, Portugal está realmente mais pobre, e não falo na perspetiva financeira nem dos indicadores económicos, quanto a esses estamos bem.

Refiro-me ao ativo mais importante de um povo, aos nossos maiores, aos maiores dentre todos, às pessoas de génio que ajudaram pela sua persistência, pelo seu rasgo, pela sua determinação a construir o Portugal que hoje somos. De uma só vez perdemos António Arnaut e Júlio Pomar.

António Arnaut deixa-nos um legado ímpar. Este ser humano absolutamente extraordinário, que colocou sempre o interesse das pessoas acima do seu próprio, e que ficou carinhosamente eternizado com o cognome de ‘pai do SNS’. Poderíamos dizer que este epíteto caberia a outros, não tivesse sido exclusivamente pela sua ação, pela sua determinação, e podemos dizer até pela sua rebeldia, que ficasse irrevogavelmente estabelecido o direito ao Serviço Nacional de Saúde por todos quantos dele necessitassem independentemente da sua condição social ou económica.

É justo afirmá-lo como o ‘pai do SNS’. É mais do que merecido guardarmos boa memória de um dos nossos maiores entre os melhores, de um dos que fundou em 1973, na cidade alemã de Bad Münstereifel, o Partido Socialista. É obrigatório rendermos homenagem ao Homem que marcou de forma tão vincada um dos pilares do Estado Social pela sua determinação quando, na qualidade de ministro dos Assuntos Sociais do II Governo Constitucional, decretou a criação do Serviço Nacional de Saúde estabelecendo dessa forma o direito universal dos cidadãos aos cuidados de saúde.

Deve ainda destacar-se que além de um Homem bom era também um Homem justo. A propósito do epíteto de ‘pai do SNS’ que tanta polémica criou nos primeiros anos da nossa democracia, António Arnaut afirmou:

“Eu assumo orgulhosamente a responsabilidade política do SNS. Foi na lógica das minhas convicções e de um compromisso que sempre tive com o povo português, como cidadão e como socialista, que tomei essa decisão política. Mas quero dizer, em nome da verdade, que não tenho a responsabilidade técnica. O modelo e as linhas doutrinárias estavam traçados na Constituição e a responsabilidade técnica e a organização pertencem a uma comissão, e especialmente a Mário Mendes e a Gonçalves Ferreira, também médico, que em 1971 começara verdadeiramente a fazer o SNS, ao criar os primeiros centros de saúde.”

Justiça seja feita, não tivesse tido a sua determinação em acabar com aquilo que o próprio designava como “uma situação de gritante injustiça e desigualdade social”, provavelmente o SNS não tivesse ainda passado de umas “linhas traçadas na Constituição”. A maior homenagem que podemos fazer à sua memória é defender o legado que nos deixa, o Sistema Nacional de Saúde.

Júlio Pomar era um dos ícones maiores da nossa cultura. Arrojado, inovador, irreverente, rebelde, genial, são apenas alguns dos adjetivos que lhe são atribuídos. Podemos sintetizar todos num só... partiu um Mestre. Um artista completo que foi considerado o mais talentoso da sua geração e que marcou de forma profunda a história da arte em Portugal.

Apesar da sua incursão pela vida política ter sido breve, foi também dos que estiveram do lado da resistência à ditadura. Chegou a ser preso como membro do Movimento de Unidade Democrática juvenil, ao qual pertencia também Mário Soares.

Não deixa de ser curioso que uma das suas obras que representa muita da sua genialidade e da sua irreverência seja a pintura de Mário Soares que figura na Galeria dos Retratos Oficiais dos Presidentes da República.

Sobre a morte, afirmou: “Penso na morte, ah sim! E por estranho que pareça, não me desagrada um repouso absoluto. E prefiro isso a uma existência com limitações imperdoáveis.”

Partiram dois dos nossos maiores, dois dos nossos melhores. Partiram dois mestres. Portugal está de luto. Choremos.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico