Monte Cenário, Vegetação

Como em pouco tempo Portugal passou também a país de brancos

Em menos de duas décadas, Portugal deixou de ser um país de tintos para passar a ser, ou a começar a ser, também um país de vinhos brancos. As condições já existiam: foi só beneficiar da democratização da tecnologia e conjugar as condições climáticas com a existência de uma riquíssima diversidade de solos e de um notável espólio de variedades de uva.

Portugal é ou não um país de vinhos brancos? Se fizermos a pergunta a um consumidor brasileiro, provavelmente vai responder que não, que a “terrinha” é boa a produzir tintos. E é. Mas, se perguntarmos o mesmo a clientes de supermercado nos Estados Unidos e na Alemanha, por exemplo, é possível que só associem Portugal a vinho branco, em concreto ao Vinho Verde.

É uma questão de percepção. Mas mesmo para um português não é fácil dar uma resposta imediata. Até há duas décadas, ou um pouco menos, “Portugal era um país de tinto, ponto”, sublinha o crítico João Paulo Martins (Expresso e Vinho-Grandes Escolhas). Antes, já se faziam brancos. Sempre se fizeram brancos, na verdade. Porém, nunca com a dimensão e a qualidade de agora. A cada ano que passa, cresce o número de produtores e de novas marcas de vinho branco.

É muito mais fácil produzir vinho tinto do que vinho branco. Os brancos requerem mais tecnologia (e esta só começou a democratizar-se há relativamente pouco tempo) e são mais exigentes em termos climáticos. Por norma, os brancos dão-se melhor em regiões mais frias - o que explica a preponderância destes vinhos em países como a Alemanha ou a Áustria. Ora, Portugal é um país do sul da Europa, já muito influenciado pelo Mediterrânico. Como pode ser então um país de vinhos brancos?

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Pode, porque também é banhado pelo oceano Atlântico e o oceano, como explica o maior geógrafo português, Orlando Ribeiro, no seu indispensável livro Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, é o grande regulador da atmosfera. “Do Atlântico provêm as massas de ar tropical húmidas, trazidas pelas perturbações ciclónicas em direcção ao Oriente”; durante a sua passagem, o tempo fica “instável, chuvoso, morno mesmo de Inverno” e, quando “atiradas de encontro às montanhas, determinam precipitações abundantes”. Daí o Noroeste do país, onde fica a região dos Vinhos Verdes, ser tão húmido. Mais para o interior, menos influenciado pelo Atlântico, o clima torna-se mais quente e seco, atingindo nos vales mais apertados características claramente mediterrânicas. É o caso da região do Douro. Essa influência mediterrânica é igualmente notória no sul (Alentejo e Algarve), de paisagem mais plana e onde chove pouco.

A definição mais correcta do clima português é, pois, de clima temperado mediterrânico com influência atlântica e continental (da meseta espanhola). O contraste do relevo e a própria latitude também desempenham um papel importante e ajudam a explicar a grande diversidade do país e a sua beleza. Portugal, sendo um país pequeno, consegue o prodígio de ter um pouco de tudo: mar, rio, montanha, planície, ilhas, zonas áridas e zonas húmidas, xisto, granito, argila, calcário, basalto….

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Esta notável diversidade é até intrarregional. O Douro, por exemplo, viveu durante muito tempo só do vinho do Porto, mas a região está longe de ser homogénea. As zonas mais baixas dos vários vales da bacia do Douro diferem muito das terras mais altas. Entre umas e outras chega a haver uma diferença de altitude de mais de 600 metros. Há até uma “ilha” de granito no meio do mar de xisto em que medram as vinhas durienses. Essa ilha, situada no concelho de Carrazeda de Ansiães, na transição para o Douro Superior, é um dos melhores lugares da região e mesmo do país para a produção de vinhos brancos. Ao lado do Douro, na Beira Interior, a vinha está plantada a cotas ainda mais altas e tem também grande potencial para brancos. Mas, por ser uma região periférica e desertificada, a Beira Interior tem-se renovado a um ritmo mais lento.

No Douro, a mudança tem sido avassaladora. Em pouco mais de 20 anos, foram reestruturados mais de 26 mil hectares de vinha. A região abandonou a monocultura do vinho do Porto e passou a fazer alguns dos melhores vinhos tranquilos de Portugal. Como aconteceu um pouco por todo o país, a aposta inicial incidiu nos tintos. Foi fácil: bastou recorrer às mesmas uvas que eram usadas para o vinho do Porto.

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O incremento dos tintos reflectiu a vocação natural do Douro para estes vinhos e a hegemonia das castas tintas. As castas brancas existiam, sobretudo, misturadas com as tintas nas vinhas mais velhas. A corrida à plantação de castas brancas é recente e corresponde a um interesse crescente do mercado. Mas bastou uma década para se perceber que o Douro do vinho do Porto e dos tintos tranquilos também pode fazer vinhos brancos extraordinários a partir de castas com tradição local, como a Rabigato, a Viosinho ou a Gouveio, entre outras. 

O caso do Douro não é isolado. O fenómeno estende-se a todas as regiões do país, ilhas incluídas (ao Pico, sobretudo, através da aposta nas castas Terrantez, Arinto e Verdelho). O Alentejo, por exemplo, é provavelmente, a seguir aos Vinhos Verdes, a região que mais tem apostado em vinhos brancos, apesar do seu clima quente e seco. A água da barragem do Alqueva abriu novas oportunidades e os produtores alentejanos começaram também a investir mais na faixa costeira, onde a brisa marítima favorece os vinhos brancos. Ao mesmo tempo, a serra de São Mamede, a maior elevação do Alentejo, tornou-se numa espécie de Terra Prometida. É lá que estão a ser produzidos os brancos mais singulares da região, boa parte a partir de vinhas velhas.

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Por ser um movimento transversal a todo o país, tem crescido a percepção de que Portugal também é um país de brancos (a percentagem deste vinho na produção nacional já ultrapassa os 30%). “Não tipificaria o país dessa maneira. Como um todo, Portugal está mais vocacionado para tintos. Mas temos zonas onde podemos fazer brancos de excelência”, defende Frederico Falcão, o presidente do Instituto da Vinha e do Vinho. Ainda não somos, mas “estamos a começar a ser um país de brancos”, precisa João Paulo Martins. “Os produtores foram descobrindo os melhores lugares para estes vinhos. Mesmo em regiões onde se julgava só ser possível produzir bons tintos, como no Douro, também já se fazem bons brancos”, salienta. No entanto, na opinião deste crítico, tirando pequenas zonas como Colares, Bucelas ou Pico, só há três grandes regiões de brancos em Portugal: Vinhos Verdes, Bairrada e Dão.

Vinhos Verdes é consensual. Não há região portuguesa tão associada a vinho branco, nem que produza tanto como a dos Vinhos Verdes. A região já é responsável por quase 10% do total das exportações de vinho português. Nem tudo o que produz é bom. Desgraçadamente, ainda faz demasiado vinho com açúcar e gás, para vender a baixo preço. Mas também há bons exemplos, sobretudos associados à casta mais famosa dos Vinhos Verdes, a Alvarinho. É com esta variedade que estão a ser feitos os melhores brancos, em especial nos concelhos de Monção e Melgaço, a pátria da Alvarinho. E, à boleia do prestígio da Alvarinho, têm vindo a ganhar notoriedade variedades como a Loureiro ou a Avesso.

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No Dão, onde o sistema montanhoso Estrela-Caramulo-Montejunto fornece a frescura que distingue os vinhos daquela região, a variedade estrela é o Encruzado. Sozinha ou em lote com a Malvasia Fina ou a Uva Cão, uma casta com uma fabulosa acidez natural, faz vinhos admiráveis e longevos, de que são testemunhos vivos os lendários brancos do Centro de Estudos Vitivinícolas de Nelas. Por sua vez, a Bairrada é a nossa Borgonha. Os seus solos de argilo-calcário, associados à proximidade do Atlântico, são perfeitos para a produção de grandes brancos. A Bical, a Cercial e a Maria Gomes podem não ter o mesmo prestígio do Chardonnay, mas são castas igualmente notáveis e bem adaptadas.

Há uma outra região com características semelhantes em solos e clima: Lisboa. Perde para a Bairrada por ter investido mais em variedades estrangeiras. Mas o potencial está lá e há vários produtores que estão a fazer belos vinhos. Alguns têm a assinatura de Diogo Lopes, enólogo na Adegamãe e que vê em Portugal tanto ou mais potencial para brancos do que para tintos. “As nossas variedades brancas são mais interessantes e originais do que as tintas. E estão mais estudadas. Temos também uma diversidade de solos riquíssima. Se adaptarmos as nossas melhores castas aos nossos melhores solos, podemos fazer brancos de altíssimo nível”, advoga.

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