Aí está mais um Porto Vintage para a posteridade

Depois do excelente 2011 a fasquia dos Porto Vintage ficou muito alta. Foi necessário esperar cinco anos para que voltasse a aparecer uma edição luxuosa. O Vintage de 2016 será mais um vinho para a memória dos grandes Porto.

Vinho do Porto
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Adriano Miranda

No dia 18 de Outubro de 2016, o enólogo Charles Symington, autor dos grandes vinhos do Porto com as marcas Dow’s, Graham’s ou Warre’s fez uma previsão profética. Escrevendo o relatório de vindima desse ano, um hábito que as firmas inglesas conservam há mais de um século, Charles começou por reconhecer que a chuva que caiu no Douro em Setembro desse ano tinha obrigado a adiar a vindima para Outubro, o que “representou um risco bastante grande”. Com o avanço do Outono, a precipitação torna-se mais provável e os enólogos entram em pânico.

Mas, felizmente, nesse mês a vindima progrediu “sem uma única gota de chuva e sob céus limpos”, o que lhe permitiu a Charles  uma confortável conclusão: “Os vinhos são generosos, aromáticos e muito equilibrados e ninguém estranhará se 2016 for declarado Vintage”. Dois anos passados, a profecia concretizou-se. Com excepção da Ramos Pinto e da Niepoort, todas as principais casas de vinho do Porto declararam os seus Vintage sob a égide das principais marcas. E, mais importante, começou-se a criar a ideia de que, entre os vinhos declarados, há estrelas que podem tornar o ano memorável na longa memória da categoria mais emblemática do vinho do Porto.

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Depois de um ano extraordinário como o de 2011, as empresas de vinho do Porto colocavam-se perante um desafio complicado: como repetir um Vintage mítico, comparável ao desse ano? Desde então, vários anos registaram colheitas muito boas, principalmente as de 2012 e 2015. Casas como a Niepoort ou a Ramos Pinto declararam os seus Vintage clássicos (com as suas marcas principais) em 2015 e muita gente acreditou que as outras não lhes seguiram os passos por meras razões de natureza comercial – o Vintage tem por tradição associado um conceito de raridade. Depois de se provarem os vinhos de 2016, percebe-se que não. Os Vintage de 2015 são muito bons, mas não garantem a mesma pureza e profundidade aromática, nem a textura ou a elegância dos de 2016.

Hoje é praticamente consensual que as comparações dos 2016 não se devem fazer com os 2015 mas com a grande declaração de 2011. Serão comparáveis? “Os Vintage de 2016 são muito diferentes dos 2011 porque não têm a concentração própria de um ano quente. Estão mais em linha, por exemplo, com os de 2007. Têm mais frescura, mais elegância e taninos mais finos”, explica David Guimaraens, enólogo da Fladgate Partnership, dona de marcas como a Taylor’s, a Fonseca e a Croft. Luís Sottomayor, enólogo da Sogrape, que este ano produziu três Vintage (Sandeman, Ferreira e Offley) de uma qualidade que os colocam entre os melhores registos da casa em muitos anos, concorda: “Os Vintage de 2016 são mais elegantes e harmoniosos que os de 2011”, nota.

Para lá das marcas clássicas da Sogevinus, da Sogrape, da Fladgate Partnership, da Gran Cruz (outra marca que tem melhorado imenso a qualidade da sua oferta neste segmento com os seus Gran Cruz, Dalva e Quinta de Ventozelo), a declaração de 2016 fica marcada pelo lançamento de um Noval Nacional. No ano em que o enólogo António Agrellos se despede do serviço activo na empresa por ter chegado à idade da reforma, é boa notícia haver um Nacional. Proveniente de uma pequeníssima vinha pré-filoxérica (a filoxera é um insecto oriundo da América do Norte que destruiu as vinhas europeias e obrigou à instalação de porta-enxertos americanos, imunes à sua devastação), o Nacional é sempre um fenómeno até nos anos de declaração generalizada. É como que a quintessência, o ícone mítico do Vintage Port. A sua declaração serve de certificado à excelência do ano.

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Mas, quer o singularíssimo Nacional da Noval ou o refinadíssimo The Stone Terraces da Graham’s, proveniente de duas pequenas vinhas velhas da quinta dos Malvedos, só são o que são se a natureza for bondosa. Todos os grandes vinhos se começam a construir a partir de anos climáticos favoráveis, mas poucos como os Vintage dependem tanto dos caprichos da natureza. Anos quentes e secos dão vinhos mais concentrados, com mais volume e uma estrutura mais poderosa. Anos em que a temperatura média é mais baixa, com chuva mais distribuída pelos meses do Verão europeu, dão vinhos mais finos e elegantes. Nesta equação simples, porém, basta que um dos factores esteja deslocado para que o balanço final seja comprometido. Sendo um vinho cuja arte depende mais da escolha dos lotes que entram na composição dos Vintage, seja na vinha ou, mais tarde, na adega, do que das artes da enologia, o que mais os determina são por isso os caprichos do ano climático.

A prova está na decisão da Ramos Pinto ou da Niepoort de não declararem os seus 2016 sob a égide das suas principais marcas. No caso da Niepoort, a decisão de vindimar com tempo húmido (ou de não correr os riscos assumidos por Charles Symington) pode ter comprometido o potencial de maturação das uvas, uma condição indispensável para proporcionar aos Vintage a sua concentração e estrutura que os tornam opulentos e carnudos quando jovens e, ao mesmo tempo, lhes confere uma longevidade por muitas décadas – ou mais de um século, como o provam Vintage com 120 ou 150 anos que, como o Vesúvio de 1815, se provaram este ano. Já no caso da Ramos Pinto foi um acidente climatérico que esteve na base da decisão dos seus responsáveis em não declarar os 2016: “Tivemos uma tempestade violentíssima de granizo na nossa Quinta de Ervamoira, onde produzimos mais de metade dos nossos Vintage”, explica Jorge Rosas, administrador da casa. “Essa tempestade afectou não só a quantidade como a qualidade dos vinhos e como nos regemos pela enologia e não pelo marketing, verificámos que o nível de qualidade não estava de acordo com o que consideramos indispensável para os nossos Vintage”, acrescenta Jorge Rosas.

Estar fora de um ano clássico como 2016 é uma decisão difícil. Porque os Vintage são, pelos preços muito elevados que atingem, muito importantes para as contas das empresas. E num ano em que marcas como a Fonseca, a Noval ou a Graham’s declaram os seus Vintage, os efeitos são ainda mais dramáticos porque uma declaração generalizada cria uma dinâmica no mercado mundial que arrasta todo o sector. Como se esperam críticas muito favoráveis por parte da crítica portuguesa ou internacional (é o caso da Fugas, como abaixo de pode constatar) qualquer 2016 acabará por ser beneficiado pelo reconhecimento colectivo. O grupo Sogevinus, que produz marcas como a Kopke, a Burmester ou a Cálem, chama a atenção para os “vinhos excepcionais” que produziu, sublinhando o seu “carácter e capacidade de evolução” que os tornam em “valores seguros”.

Provados ainda na sua primeira infância, os Vintage são vinhos explosivos na boca, seja pela potência e riqueza da sua fruta, seja pela estrutura tânica que lhes confere uma garra especial e equilibra a sua elevada doçura natural. Mas sendo esta a regra, é fácil perceber que os 2016 são excepcionais nestas duas dimensões. O seu perfil aromático é mais delicado e floral e o seu músculo menos tenso e dramático. A boca fica “enrugada” pela sua adstringência, mas é difícil encontrar Vintage novos tão fáceis de beber como estes. Será que este maior polimento compromete a sua longevidade? David Guimarães responde: “Os 2016 vão evoluir mais depressa do que, por exemplo, os 2011”. Mas isso não quer dizer que daqui a 30 ou 40 anos tenham perdido a sua alma e a sua graça. O seu volume, tanino e acidez são mais do que suficientes para uma longa vida em garrafa.

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Adriano Miranda

E são-no porque hoje a arte de fazer Vintage está mais aprimorada do que nunca. Durante séculos, as casas britânicas (o Vintage só muito recentemente entrou no capítulo das preferências dos portugueses, por tradição mais devotos dos Tawnies, vinhos que envelhecem em casco e não na garrafa) compravam os vinhos aos produtores do Douro de acordo com os registos históricos das suas casas. Hoje o refinamento na selecção das uvas que vão entrar nos lotes desta categoria é muito superior.

Com a brutal expansão nos últimos anos dos vinhos tranquilos (tintos e brancos com a Denominação de Origem Douro), os produtores e as empresas tiveram de desenvolver diferentes sistemas de cultivo das vinhas. As práticas agrícolas para uma vinha destinada a produzir um tinto é diferente de uma vinha pensada para um Vintage. A Sogrape, por exemplo, tem em curso o projecto Ícone, onde se ensaiam as melhores condições para produzir uvas com potencial para os vinhos com essas condições.

O nível de refinamento aromático, a consistência e o equilíbrio de Vintage como os de 2007 (ano em que um Graham’s obteve 100 pontos em 100 na revista norte-americana Wine Spectator), de 2011 ou de 2016 é consequência de uma combinação de ciência e de saber empírico acumulado ao longo de gerações. Ana Rosas, enóloga da Ramos Pinto, é parte da família que fundou a empresa no século XIX; Charles Symington é filho de Peter, outrora conhecido como “Senhor Nariz”; e David Guimarães descende de uma linhagem de enólogos que trata dos vinhos da Fonseca e, mais tarde, da Taylor´s desde o princípio do século XX. Este conhecimento que passa de pais para filhos ou para primos permite às actuais gerações saber que uma determinada vinha no rio Torto, por exemplo, confere estrutura a um vinho e que outra no vale do Pinhão oferece-lhe um potencial aromático distintivo.

É na conjugação desses saberes com um conhecimento profundo dos atributos das castas, das altitudes e das exposições de vinhos ao sol que determina que cada marca de Vintage tenha o seu próprio estilo. Sim, os Vintage não são todos iguais, mesmo quando, na juventude nos proporcionam sensações aromáticas explosivas ou elevados níveis de adstringência na língua. Há Vintage mais austeros, como os Dow’s ou os Sandeman e há Vintage mais graciosos como os Graham’s ou os Ramos Pinto. É precisamente a origem dos seus lotes que lhes determina a identidade e reforça as diferenças. Os Sandeman têm o seu solar na Quinta do Vau, os Cockburn’s na Quinta dois Canais, os Dow’s na Quinta do Bomfim, ou a Taylor’s na Quinta de Vargellas. Mas, nestes casos pode haver pequenos lotes de uvas de outras proveniências. O que não acontece com os Quinta do Noval ou os Quinta do Vesúvio, com os vinhos de uma vinha como a da Capela da Quinta do Vesúvio ou os Vintages cada vez mais surpreendentes de produtores como a Quinta do Javali, do Crasto ou do Vale Meão.

Para felicidade dos apreciadores de vinho do Porto (e dos produtores em geral, claro), nos três últimos anos a natureza no Douro foi excepcionalmente generosa. Ao excelente 2015 sucede um soberbo 2016 e, tudo o indica, nas caves está já a maturar um extraordinário 2017. Para os amantes de vinho do Porto, as notícias são, por isso, excelentes. Mesmo que a baixa produção destes vinhos, que resultam sempre de uma escolha do melhor entre o melhor que o Douro produz nos anos bons, os torne demasiado caros para muitos apreciadores. É o custo a pagar por um dos mais extraordinários vinhos do mundo.