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Ofensiva de Sánchez e ameaça do Cidadãos fazem tremer Rajoy

Sentenças do “caso Gürtel” põem Governo do PP em causa. PSOE avançou com moção de censura, mas não será fácil reunir apoio suficiente. Capitalizado pelas sondagens, Albert Rivera quer eleições já.

Mariano Rajoy, Espanha
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Reuters/PAUL HANNA

O Governo de Mariano Rajoy treme com duas frentes que o ameaçam, mas, para já, não cai. No mesmo dia, o PSOE anunciou que vai avançar com uma moção de censura e o Cidadãos pediu eleições antecipadas. O primeiro-ministro resiste, atacando o líder socialista Pedro Sánchez. 

Era uma nuvem negra à espera de rebentar aquela que pairou, durante os últimos nove anos, sobre a cabeça do Partido Popular espanhol (PP) e do seu presidente e chefe do Governo, Mariano Rajoy. Na quinta-feira acabou por cair a bomba: vários dirigentes do PP ficaram a conhecer as pesadas sentenças de que foram alvo no chamado “caso Gürtel”.

Confirmando aos jornalistas a apresentação da moção de censura, Sánchez enumerou uma série de razões que o levaram a avançar com esta ferramenta constitucional e os seus objectivos. Entre pedir responsabilidades políticas a Rajoy pelos anos de corrupção que tomaram conta do PP ou recuperar a “dignidade da democracia”, o líder socialista acabou por afirmar que a meta é, no fundo, “constituir um governo do PSOE” para que depois sejam marcadas eleições antecipadas. Contudo, Sánchez não deu qualquer indicação sobre o prazo para uma eventual marcação de eleições.

Mas a tarefa não se adivinha fácil para Sánchez. Para que a moção seja aprovada é necessário o voto favorável de pelo menos 176 deputados. O único partido que confirmou a sua disponibilidade para a aprovar foi o Podemos, que conta com 67 deputados. Ora, juntando-os aos 84 parlamentares socialistas, chega-se a um total de 151, o que não é suficiente para derrubar Rajoy.

Sánchez tem duas opções: conquistar o apoio do Cidadãos, que tem 32 deputados, que, a juntar aos dos Podemos, chega para aprovar a moção; ou reunir o apoio do conjunto dos partidos regionais independentistas com representação no Parlamento nacional (catalães e bascos).

Sánchez não abordou estes cenários, afirmando apenas que se “dirige aos 350 deputados” para lhes pedir “responsabilidade, generosidade e que entre todos retirem Espanha do lamaçal de corrupção em que o Partido Popular a meteu”. Sem o referir, o socialista acabou por indicar que aceitará o apoio de quem quer que seja para fazer cair Mariano Rajoy.

Moção assente numa “falsidade”

Rajoy aproveitou a deixa para a lançar contra Sánchez: “A moção procura apenas que Sánchez seja presidente a qualquer preço e com quem quer que seja.” “Para ele, tanto faz”, atirou. “Qualquer dia vemo-lo a fazer um pacto com Puigdemont.”

O presidente do Governo espanhol ignorou os pedidos de eleições antecipadas e argumentou, numa declaração no Palácio da Moncloa depois de se ter reunido com o conselho de ministros, que a moção assenta numa “falsidade”, pois “não foi condenado nem julgado nenhum membro do Governo”. Rajoy disse ainda que a condenação do PP enquanto pessoa jurídica deveu-se à “responsabilidade civil e não penal”.

Na quinta-feira, várias personalidades dos conservadores foram condenadas, incluindo o ex-tesoureiro Luis Bárcenas (a mais de 33 anos de prisão). Em causa está um esquema de corrupção e financiamento ilegal, que durou pelo menos duas décadas, que ligou vários líderes políticos do PP no poder, sobretudo locais e regionais, a empresários.

Rajoy, que garantiu sempre que nunca teve conhecimento destes actos, desempenhou várias funções dentro do partido ao longo deste período, incluindo director de campanhas eleitorais. Em 2013, o nome de Rajoy surgiu em documentos que sugeriam que o agora chefe do Governo recebeu pagamentos, entre 1997 e 1999, provenientes desta contabilidade paralela do PP. Nessa altura era ministro da Administração Pública e da Educação do Governo de José María Aznar.

Eleições já

A primeira reacção do Cidadãos foi pedir a marcação de eleições antecipadas, afastando assim o apoio à moção do PSOE. Para que isso aconteça os socialistas terão de recuar, pois a Constituição impede o primeiro-ministro de marcar eleições antecipadas, enquanto estiver uma moção de censura em cima da mesa.

O partido liderado por Albert Rivera, motivado pelas recentes sondagens que indicam uma queda histórica de PP e PSOE e uma subida em flecha do seu Cidadãos, sabe bem o que quer e não se desvia da intenção de avançar já para eleições. Assim, não apoiará qualquer moção socialista que não preveja isso mesmo.

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“Tomar decisões a quente, como fez o senhor Sánchez, é irresponsável. Quer fazer o seu projecto de país com os independentistas e por isso não falou connosco”, disse o deputado do Cidadãos Toni Cantó. “O Cidadãos pede publicamente ao PSOE que retire a sua moção de censura para que se apresente outra que permita aos cidadãos tomar a decisão nas eleições.”

Da parte dos partidos independentistas as respostas divergem. O Partido Nacionalista Basco disponibilizou-se para falar com os socialistas, mas é pouco provável que apoie a moção. O Juntos pela Catalunha descartou o apoio, argumentando que Sánchez não é diferente de Rajoy – pois ambos apoiam a aplicação do Artigo 155 na Catalunha – e que por isso essa alteração na liderança do Governo não traria benefícios aos catalães.

Por outro lado, partidos como a Esquerda Republicana ou o PDeCat estão inclinados para aprovar a queda de Rajoy.

O único apoio seguro e significativo que Sánchez tem é do Podemos. Pablo Iglesias afirmou que o apoio do seu partido chega “sem condições”, mas deixou escapar um pequeno desejo: Sánchez tem de decidir se quer formar um governo solitário com os seus 84 deputados, “algo insólito na história de Espanha”, ou se pretende governar com uma maioria mais alargada de 151 deputados, apontando aqui a uma coligação governamental entre PSOE e Podemos.

O desfecho do “caso Gürtel” a moção de censura do PSOE fazem tremer o Governo espanhol, mas ainda não o derrubaram. Os socialistas começaram a empurrá-lo para o precipício, mas viram-se eles próprios encurralados. Sánchez quer evitar ceder à exigência do Cidadãos, mas começam a faltar-lhe opções para fazer cair Mariano Rajoy.

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