Reportagem

Manifestantes do Stop Eutanásia: "Não se deixem enganar com a morte digna"

"De frente" para a Assembleia da República, oradores quiseram apelar "à consciência de cada deputado" numa altura em que "ainda estão a tempo de decidir rejeitar" a legislação que vai ser discutida e votada na próxima terça-feira.

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A chuva já pouco se notava e a manifestação contra a despenalização da eutanásia juntava duas centenas de pessoas de todas as idades com bandeiras de Portugal e slogans "a favor da vida" quando o primeiro de vários oradores tomou a palavra. O palanque foi montado frente à escadaria da Assembleia da República para assim “falarem à consciência de cada um dos deputados". Eles representam "boa parte do povo português”.

A fundadora do movimento da sociedade civil Stop Eutanásia Sofia Guedes foi quem nesta quinta-feira primeiro falou antes de apresentar, um a um, os oradores: o padre Nuno Coelho, a enfermeira Sara Sepúlveda, que cuida de doentes em fim de vida, o psicólogo Abel Matos Santos, a jurista Sofia Galvão, o juiz Pedro Vaz Patto, entre outras personalidades que marcaram presença, como Gentil Martins. 

O professor e ex-bastonário da Ordem dos Médicos disse que apenas o preocupava aqueles que "não acreditam que a vida é um dom de deus". Criticou a forma "leviana" como se está a tentar tomar uma decisão e apelou aos deputados que não aprovem "os planos que estão a ser discutidos".

“Muito poucas outras leis nos fariam estar aqui num dia de chuva a meio da semana. O que nos move é sabermos que estão em causa os alicerces da nossa civilização e da nossa ordem jurídica. Esta não é uma questão como outra qualquer. Uma questão tão importante como esta não pode ser votada por esta assembleia”, defendeu o juiz Pedro Vaz Patto, antes de a enfermeira Sara Sepúlveda dizer que as pessoas estavam unidas nesta concentração para “exigir [a garantia de] cuidados paliativos em todo o país”.

“Não se deixem enganar com a morte digna", acrescentou a enfermeira do Alentejo. "Dizem-nos que [a morte medicamente assistida] é a pedido de quem sofre. A seguir dirão que que também abrange aqueles que não conseguem pedir" em nome do "direito a todos à eutanásia”. E concluiu: “Nós podemos tratar as pessoas, se nos forem para isso dadas as condiç1ões que nos são retiradas todos os dias.”

Também o psicólogo clinico Abel Matos Santos exigiu para os hospitais recursos que tornem possível “cuidar e ser cuidado”. E notou: "A presença de dezenas de jovens na concentração mostra que eles estão comprometidos com os nossos idosos e que não os querem deixar num qualquer serviço de saúde que execute a morte."

"Não quero viver mais assim"

Quando visita pessoas em sofrimento ou em fim de vida, nas suas casas ou nos hospitais, não é pouco habitual o padre Nuno Coelho ouvir quem diga – "Chega, não quero viver mais". O padre contou que a sua resposta se limitava então a acrescentar uma palavra ao que as pessoas diziam: "Não quer viver mais assim." E enfatizou: "Assim: desta forma solitária, desta forma em que ninguém se interessa por nós." Miriam Assor, autora de “Judeus Ilustres de Portugal” (2014), juntou-se ao protesto lembrando que “a ideia de que a morte pode ser boa é estranha ao judaísmo”. Há sim a crença de quem “quem salva uma vida salva o universo”. Também um representante da comunidade muçulmana lembrou que o sofrimento é parte do “caminho espiritual”. Como tal, “não pode ser afastado das sociedades”, defendeu.

Na manifestação que acabou por juntar pelo menos 300 pessoas, no Largo de São Bento, alguns participantes afirmavam que este é "um tema que está muito acima de qualquer ideologia política ou partidária" e insurgiam-se contra o facto de estes projectos de lei não estarem nos programas de nenhum partido, a não ser do PAN. Um deles foi José Luís Carvalho, 45 anos, que veio do Porto. “Achámos importante vir e estar no local onde vai ser a decisão, quando ainda há tempo para os deputados indecisos não decidirem pela aprovação", acrescentou. "Os deputados têm que sentir o pulso à população. Portugal merece uma boa votação para não ir além de outros países, de forma precipitada".