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Reais parolices

Por mais que as funções dos reis e rainhas de hoje sejam simbólicas, não deixam de ser um conjunto de privilegiados protegidos por um sistema de castas, incompatível com o princípio da igualdade, da liberdade e do mérito

Nos últimos tempos, temos assistido, em Portugal, a alguns exemplos de órgãos do Estado, ou entidades públicas, a terem uma atenção desmesurada para com representantes de monarquias internacionais.

Obviamente que compete ao Estado português seguir os protocolos diplomáticos e ter um tratamento adequado com todas as personalidades representantes de estados estrangeiros que nos visitem. Quanto mais não fosse, era uma questão de boa educação.

Porém, o problema surge quando da cortesia se passa à bajulação ou adoração parolas, principalmente quando estão em causa monarquias.

Neste país, por vezes, parece que as pessoas se esquecem de dois factos básicos da nossa Constituição — somos uma República e um Estado laico.

A RTP — falo desta porque é a televisão pública — parece esquecer-se disso com frequência.

Recentemente, transmitiu em directo o casamento de um inglês com uma americana, só porque o inglês é descendente da monarquia inglesa. O espectáculo “disneylandesco” deste casamento real em Inglaterra, assistido e comentado por cá como se fossemos a parvónia e estivéssemos a adorar a civilização, “os importantes”, enjoa-me.

Anteriormente, já tinha dado coberturas obsessivamente ridículas às visitas papais a Portugal.

Ou seja, a televisão pública não pode estar ao sabor dos interesses das monarquias, nem de nenhuma religião — por mais audiências que esses espetáculos possam gerar.

Também assim, os órgãos do Estado têm de ser contidos e equilibrados.

Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, que é o máximo representante de Portugal, tem de se curvar ou beijar a mão, quer da Rainha de Inglaterra quer do Papa, tanto quanto essas pessoas têm de se curvar e beijar a mão dele. Isto é, ninguém tem de se curvar perante ninguém, nem beijar a mão de ninguém. Basta o respeitoso aperto de mão, ou a vénia mútua, como no Japão.

Enfim, não quero que os meus impostos sejam usados para a televisão pública fazer uma propaganda directa à monarquia, nem que os representantes de Portugal se curvem perante ninguém.

A monarquia é um anacronismo feudal e anti-humanista, que urge acabar em todo o mundo. Mas é um problema dos países monárquicos fazerem essa transição e progresso civilizacional, que nós já tivemos a dignidade de efectuar em 1910.

Por mais que as funções dos reis e rainhas de hoje sejam simbólicas, não deixam de ser um conjunto de privilegiados protegidos por um sistema de castas, incompatível com o princípio da igualdade, da liberdade e do mérito.

E pouco me interessa que tenhamos alguns países monárquicos bem funcionantes — como alguns do Norte da Europa —pois tenho a certeza de que se deixassem de ser monarquias e passassem a república, só veriam o seu bom funcionamento aumentar.

Tenho orgulho em viver numa república, onde qualquer pessoa com mais de 35 anos pode ser o representante máximo da nação, se escolhida por sufrágio directo e universal, e não numa monarquia onde só pode ser o representante da nação quem seja filho de fulaninho de tal…

Portugal foi durante a maior parte da sua existência uma monarquia. Faz parte da história, como a Inquisição, a pena de morte ou as explorações marítimas. Mas esse tempo terminou e espero que Portugal tenha pela frente uma vida ainda mais longa como república.

Nesse sentido, é preciso cultivar a cultura republicana — que muitos políticos têm desrespeitado, demonstrando-se indignos de representarem Portugal — e não efectuar a parola bajulação real.