Entrevista

Frederico Varandas: “O Sporting não está dividido. Está partido”

Apesar de reconhecer virtudes na gestão de Bruno de Carvalho, o clínico sentiu que o clube se desviou dos seus valores e assumiu-se como um candidato em futuras eleições.

Bruno de Carvalho, Jorge Jesus, Sporting CP, André Geraldes
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Varandas ao lado de Bruno de Carvalho no banco do Sporting MIGUEL A. LOPES/LUSA

Frederico Varandas é o primeiro candidato assumido nas próximas eleições do Sporting, aconteçam elas quando acontecerem. Em comunicado, anunciou em simultâneo a demissão do cargo de director clínico dos “leões” e a disponibilidade para ser candidato. Em conversa curta com o PÚBLICO, este militar e clínico de 38 anos reconhece méritos em Bruno de Carvalho, mas aponta-lhe culpas na situação actual do Sporting, que descreve como “um clube partido”.

Quando é que tomou esta dupla decisão de sair do Sporting e declarar-se como candidato?
Vamos por partes. Foi um conjunto de várias situações. A gota de água foi no dia da final da Taça de Portugal, o ambiente que vi, que vivi e que senti, não só como director clínico, mas também como sócio. A decisão foi tomada no momento em que vejo os nossos jogadores sentados no relvado, à espera que o Desportivo das Aves subisse à tribuna para levantar a taça. Caminhei no relvado, pelo meio dos jogadores, e decidi a minha demissão nesse momento. Foi tomada na sequência de acontecimentos nas últimas semanas e meses, em que considero que o clube se desviou dos seus valores. O Sporting é um clube especial, em que os sportinguistas têm orgulho em ser do Sporting, muito para lá dos resultados desportivos. Tem muito a ver com a nossa herança de valores, transparência e dignidade. Senti, nestes últimos meses, um desvio desses valores, e não estaria a ser leal se continuasse dentro da estrutura.

Anunciou a candidatura de manhã. Já passaram várias horas. Que reacção tem tido?
Tem sido muito positiva, mas eu já esperava. De quem me interessa, dos sócios. Muitas vezes as pessoas perguntam, quais são os seus apoios, de onde vem… Eu sou das bases. Antes de ser director clínico do Sporting, era sócio de bancada, ia aos jogos fora, fiz ginástica no Sporting, fui da Juventude Leonina quando andava no liceu. Isto é uma decisão minha, de alguém que acha que tem a capacidade, a competência, a segurança e a confiança para fazer isto. Os ecos durante estas horas têm sido óptimos e como eu queria, transversais. Os meus apoios vêm das bases, não faz sentido para mim um Sporting com aquelas palavras com que eu cresci, queques, notáveis, ilustres. Isso não faz parte do meu Sporting. Mas sportingados também não faz.

Entrou na anterior direcção, onde também estava o seu irmão, transitou para a gerência de Bruno de Carvalho…
Sim. O Dr. Bruno de Carvalho decidiu a minha continuidade. Que isto fique bem claro: sinto orgulho do que foi feito e com alguma responsabilidade na herança material e imaterial que o Dr. Bruno de Carvalho conseguiu, principalmente no primeiro mandato. O mais importante de tudo, para mim, foi ter dado voz aos sócios, ter trazido o clube de volta para os sócios. Mas agora, quando as pessoas dizem que o Sporting está dividido… O Sporting não está dividido. Está partido. Está partido nos órgãos sociais, está partido na bancada, está partido na relação dos adeptos com os jogadores. Se este não é o momento para dar a voz aos sócios, quando será?

O que espera da reunião dos órgãos sociais?
Seja de que maneira for, que dêem voz aos sócios. Espero eleições o mais rapidamente possível.

É o primeiro a entrar na corrida. Espera mais candidatos, ou espera uma união atrás de si?
Sou um democrata e qualquer outro sócio tem o direito de se candidatar. O que sei é que o Sporting não pode continuar como está.