Crítica

A máscara de Lyndon Johnson

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Lyndon B. Johnson, LBJ, Festival Internacional de Cinema de Toronto, Estados Unidos, Filme
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Ensanduichado entre dois presidentes que a História lembra praticamente todos os dias, John Kennedy e Richard Nixon, Lyndon Baines Johnson vive numa zona cinzenta do imaginário colectivo e, em particular, do imaginário cinematográfico, que embora com significativas excepções (os curtos e severos filmes de Santiago Alvarez, LBJ, e de Ward Kimball, Escalation, ambos de 1968, que o leitor pode facilmente encontrar no YouTube) nunca se interessou por ele da mesma maneira que se interessou pelos seus antecessor e sucessor na Casa Branca. O filme de Rob Reiner vem para corrigir esta lacuna, e lembrar Lyndon Johnson pelos aspectos mais positivos dos seus mandatos — nomeadamente o trabalho em prol da promulgação da lei dos direitos cívicos, herdado de Kennedy e levado em frente mesmo com a oposição dos sectores mais reaccionários do próprio Partido Democrata (corporizar essa oposição é o que faz a personagem de Richard Jenkins, o senador texano como Johnson mas que, ao contrário dele, não percebeu que, como cantava Dylan, “the times they were a-changing”).

Esta luta é o essencial do argumento filmado por Reiner, num didactismo curto e simplificador que deixa o Vietname praticamente reduzido a uma legenda do genérico final — assim perdendo a possibilidade de explorar (e nem dizemos politicamente, apenas dramaticamente) a contradição de um homem que enquanto pugnava pela mais justa das causas intensificava a matança de compatriotas e vietnamitas por uma causa cada vez mais perdida (e o tipo de contradição que faria uma grande personagem de cinema). Como Reiner parece ter perdido a leveza e a graça de outros tempos (When Harry Met Sally já foi há quase 30 anos), nada redime LBJ do seu propósito simplisticamente ilustrativo — parece um museu de cera, inerte e exangue, sem imaginação nem convicção (é ver as cenas, tão pobres, do dia do assassinato de Kennedy), onde a única coisa que se anima é o excesso de maquilhagem de Woody Harrelson. Um excesso grotesco, malgré lui (Harrelson é tão bom quanto consegue ser debaixo daquela máscara), ampliado pelos rostos “despidos” de todos os outros actores, um “hiper-realismo” patético que se torna uma espécie de poluição visual, que distrai e perturba mais do que ajuda a acreditar na personagem (outros cineastas talvez soubessem tirar partido disto, não foi o caso de Reiner). A desgraça é completa, e Rob Reiner, francamente, nunca foi tão mau.